Sentiu-se bem em voltar a andar por aquelas ruas. Tanta coisa havia se passado, tanta água havia rolado. Ela se sentia mais adulta, mais mulher, e, principalmente, mais confiante. Não havia a barreira da língua - estava superada, de uma vez por todas, ela acreditava. Não teria que recorrer ao inglês, nunca mais. Era verão, estava quente, e ela, pela primeira vez, realmente imiscuida no meio dos franceses, se sentia feliz.
O homem passou devagar, mas tão ao longe que ela quase não pode reconhecê-lo. Estava de costas, o cabelo castanho-claro brilhava sob o sol.
- Gabriel! - ela gritou (e sentiu-se uma menina de novo, as borboletas no estômago). - Gabriel Laker!
Ela correu, a mochila nas costas quase caindo e o homem parou, olhou para trás. Ela estancou o passo, frustrada - não, não era Gabe. Era alguém, muito parecido, mas só.
- Você deve ter me confundido. - ele parou e explicou, a voz muito mais grave do que a de seu velho amigo. - Gabriel e eu sempre fomos parecidos de costas. Eu sou o irmão dele.
A coincidência chocou o rosto da moça e ele sorriu ao vê-la embasbacada.
- Michael Laker. - ele respondeu, apresentando-se, examinando dos pés à cabeça aquela figurinha miúda na sua frente. Ela era linda, ele pensou.
- Ah, o irmão com bom gosto pra livros. - ela disse, a memória voltando e a língua destravando. - Desculpe. Katherine d'Avila. É que faz anos que eu não vejo seu irmão. E voltei à cidade semana passada.
- Uma das amigas de intercâmbio dele?
- Sim, sim, do Brasil... não sei se ele vai se lembrar de mim, no entanto. Faz cinco anos que não nos vemos.
- Ah. - ele parou um instante e sorriu malicioso. - Você é a brasileira, então?
- Ahn... sou, eu acho.
- Confie em mim, ele se lembra de você.
Trocaram os telefones, para que ela pudesse voltar a entrar em contato com Gabriel. Mas o sorriso de Miguel, por algum motivo, não lhe saía mais da cabeça.
Tuesday, October 18, 2011
Saturday, October 15, 2011
Dois dias sem dormir era a conta, ela decidiu, enquanto trancava o escritório atrás de si. Era simplesmente impossível se concentrar - quanto mais terminar a arte final do relatório que tinha que entregar no dia seguinte às 7h da manhã.
"Que se dane o Figueira - ele que pague uma outra arte-finalista se ele quer as coisas no prazo.", ela pensou em voz alta pra depois subitamente calar-se, ainda não tendo saído do prédio em si. Como uma empresa do tamanho da M.D podia ser tão pão-dura com seus funcionários, Rebeca não sabia.
Estava tonta pela falta de sono e a cafeína que saía de seu corpo já estava deixando a famosa dor de cabeça pior. O corpo doía e ela sentia-se arrastar para a cama o mais rápido possível.
Era tarde da noite - passava das onze - quando ela chegou ao metrô. Ainda não estava perto dos últimos trens, mas a estação lhe deu arrepios: estava incomumente vazia para aquele horário. Onde estavam todos os outros escraviários como ela? Então ela lembrou que era domingo - os outros escraviários não trabalhavam de domingo.
O trem do outro lado da via chegou, indo na direção contrária. Desacelerou um pouco, parou por alguns instantes. Uma senhora sentada na janela a encarou firme, com um olhar um tanto quanto assustado. Rebeca piscou algumas vezes e olhou para cima, se sentindo um pouco acuada. O trem partiu.
Os poucos outros passantes que aguardavam um trem naquela direção desistiram de aguardar - ainda que os ônibus demorassem mais, era provável que algum problema na linha tivesse acontecido para que o trem atrasasse tanto.
Rebeca se viu só na estação.
"Que se dane o Figueira - ele que pague uma outra arte-finalista se ele quer as coisas no prazo.", ela pensou em voz alta pra depois subitamente calar-se, ainda não tendo saído do prédio em si. Como uma empresa do tamanho da M.D podia ser tão pão-dura com seus funcionários, Rebeca não sabia.
Estava tonta pela falta de sono e a cafeína que saía de seu corpo já estava deixando a famosa dor de cabeça pior. O corpo doía e ela sentia-se arrastar para a cama o mais rápido possível.
Era tarde da noite - passava das onze - quando ela chegou ao metrô. Ainda não estava perto dos últimos trens, mas a estação lhe deu arrepios: estava incomumente vazia para aquele horário. Onde estavam todos os outros escraviários como ela? Então ela lembrou que era domingo - os outros escraviários não trabalhavam de domingo.
O trem do outro lado da via chegou, indo na direção contrária. Desacelerou um pouco, parou por alguns instantes. Uma senhora sentada na janela a encarou firme, com um olhar um tanto quanto assustado. Rebeca piscou algumas vezes e olhou para cima, se sentindo um pouco acuada. O trem partiu.
Os poucos outros passantes que aguardavam um trem naquela direção desistiram de aguardar - ainda que os ônibus demorassem mais, era provável que algum problema na linha tivesse acontecido para que o trem atrasasse tanto.
Rebeca se viu só na estação.
Saturday, October 01, 2011
Thursday, September 29, 2011
Ella Fitzgerald.
Daí eu tava vendo Boardwalk Empire, ouvindo Ella Fitzgerald e sentada nos bancos dos parques de Paris, admirando o andar da mulher negra. E eu só pensava "DAMN", eu queria ser assim. Como não se apaixonar pela confiança, pelo olhar e pela força de um grupo tão maravilhoso?
Qual é que é a do racismo? É a inveja da força, da puissance, de quê? De que uma mulher daquelas nunca iria pegar um branquelo azedo como você?
Ella Fitzgerald.
http://www.youtube.com/watch?v=MZjLz6o7uZM&feature=related
Amy Winehouse é o cacete. Essa voz não combina com uma branquela daquelas, é por isso que a coisinha morreu tão jovem, coitada. Nasceu com espírito de noir naquele corpinho frágil.
Fiquem com Ella que dá um pau.
Qual é que é a do racismo? É a inveja da força, da puissance, de quê? De que uma mulher daquelas nunca iria pegar um branquelo azedo como você?
Ella Fitzgerald.
http://www.youtube.com/watch?v=MZjLz6o7uZM&feature=related
Amy Winehouse é o cacete. Essa voz não combina com uma branquela daquelas, é por isso que a coisinha morreu tão jovem, coitada. Nasceu com espírito de noir naquele corpinho frágil.
Fiquem com Ella que dá um pau.
Wednesday, September 28, 2011
California Dreams
Now, my girl, you're so young and pretty
And one thing I know it's true
You'll be dead before your time is due.
[...]
We gotta get out of this place.
Girl, there's a better life for me and you.
Somewhere, baby, somehow I know it, baby.
I know it, baby, and you know it too.
Esses dias, andei considerando a possibilidade de virar hippie.
The must be some kinda way outta here.
Said the joker to the thief.
Hippie porque acho que, em muitos sentidos, eles talvez estivessem certos. O errado é você ficar se pautando por essa sociedade, porque, no fim das contas, dependendo de como você é, (e você provavelmente é), o tamanho da bagagem que você carrega pode cortar suas costas.
Por exemplo, às vezes, eu tenho a sensação de que o que tem de errado com a minha vida é que, basicamente, eu sou eu. Se eu fosse outro alguém, eu não teria tantos problemas comigo mesma. Mas eu sou eu, sabe? E isso é um problema, porque eu costumo levar meus problemas muito, mas muito a sério.
All along the watchtower
Princes kept the view.
While all the women came and went.
Sabe, quando tudo que você precisa é ver que as folhas estão marrons e o céu está cinza. Mas mudar o que tem de errado na sua própria vida é muito mais difícil do que se preocupar com as coisas existenciais que vemos por aí.
Por isso que tornamos nossa vida uma tempestade num copo d'água. Se vemos só a tempestade, sabemos que não há nada pra fazer e isso nos desculpa de agir quanto à nossa vida. Se a gente vê o copo d'água, sabe que tem que beber aquela merda.
Às vezes, dá vontade de largar toda a mochila no chão e sair correndo. O duro, o adulto mesmo em você, sabe que você tem que abrir, tirar um por um os itens que estão pesando. Outros, mesmo pesados, você sabe que tem que carregar, e não tem o que fazer de mártir (você tem as costas largas mesmo).
And I'm on my knees looking for the answer:
Are we humans or are we dancers?
Quando você percebe que não dá pra tirar quase nada (ou que você, por algum defeito masoquista, gosta de carregar pedra na mochila), só resta respirar fundo e continuar em frente.
Eu também vou reclamar.
And one thing I know it's true
You'll be dead before your time is due.
[...]
We gotta get out of this place.
Girl, there's a better life for me and you.
Somewhere, baby, somehow I know it, baby.
I know it, baby, and you know it too.
Esses dias, andei considerando a possibilidade de virar hippie.
The must be some kinda way outta here.
Said the joker to the thief.
Hippie porque acho que, em muitos sentidos, eles talvez estivessem certos. O errado é você ficar se pautando por essa sociedade, porque, no fim das contas, dependendo de como você é, (e você provavelmente é), o tamanho da bagagem que você carrega pode cortar suas costas.
Por exemplo, às vezes, eu tenho a sensação de que o que tem de errado com a minha vida é que, basicamente, eu sou eu. Se eu fosse outro alguém, eu não teria tantos problemas comigo mesma. Mas eu sou eu, sabe? E isso é um problema, porque eu costumo levar meus problemas muito, mas muito a sério.
All along the watchtower
Princes kept the view.
While all the women came and went.
Sabe, quando tudo que você precisa é ver que as folhas estão marrons e o céu está cinza. Mas mudar o que tem de errado na sua própria vida é muito mais difícil do que se preocupar com as coisas existenciais que vemos por aí.
Por isso que tornamos nossa vida uma tempestade num copo d'água. Se vemos só a tempestade, sabemos que não há nada pra fazer e isso nos desculpa de agir quanto à nossa vida. Se a gente vê o copo d'água, sabe que tem que beber aquela merda.
Às vezes, dá vontade de largar toda a mochila no chão e sair correndo. O duro, o adulto mesmo em você, sabe que você tem que abrir, tirar um por um os itens que estão pesando. Outros, mesmo pesados, você sabe que tem que carregar, e não tem o que fazer de mártir (você tem as costas largas mesmo).
And I'm on my knees looking for the answer:
Are we humans or are we dancers?
Quando você percebe que não dá pra tirar quase nada (ou que você, por algum defeito masoquista, gosta de carregar pedra na mochila), só resta respirar fundo e continuar em frente.
Eu também vou reclamar.
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