Thursday, August 11, 2011

Chega de ser assim.

Sobre uma mudança de perspectiva.

Quando eu era mais nova, costumava adorar ler coisas sobre relacionamentos entre um cara que sabia demais e uma moça, nova, determinada, que não sabia de muito, mas que definitivamente queria aprender.

No geral, acabava com romances baratos e fanfictions pouco interessantes sobre, sei lá, relações 'mestre-aprendiz' e 'cara-mais-velho-e-garota-mais-nova'. No geral, o cara mais velho era um completo bad-ass e a menina mais nova era bastante... bom, ingênua. Ela era ingênua, sim, mas não se via como ingênua e acreditava ser bastante espirituosa. E avançada, pra idade, claro, embora nunca ao nível do cara mais velho.

Acho que porque, em parte, era assim que eu me via - e com esse tipo de personagem eu podia me identificar.

Lembro de ter lido, uma vez, uma pesquisa sobre leitoras e a relação que elas tinha com os personagens. Ficou estabelecido, mais ou menos, que as moças não gostavam muito de ler sobre personagens mais novas do que ela.

Na minha cabeça, isso tem um pouco da sensação de que, se a pessoa é mais nova, então a situação vivida por ela já passou. A oportunidade "real", por assim dizer, que a pessoa teria de vivenciar a mesma experiência, então, ficou no passado. Ficava mais difícil de se pôr no lugar, então.

Não sei se é bem verdade. Acho que tem muito mais a ver com uma questão de idade de espírito do que idade de verdade. Sei lá, vê-se pelo número absurdo de mulheres adultas fãs de Crepúsculo. Elas, teoricamente, não teriam como se identificar com uma adolescente, certo? Bom, errado, aparentemente.

E não sei se essa pesquisa é válida somente com mulheres, acho que é uma coisa mais universal do que a gente pensa. Me lembro de como a febre do Harry Potter pegou mais fortemente em quem era mais novo. Não era, necessariamente, por ser um livro infantil - em toda minha experiência na esfera potteriana na internet, eu encontrei pessoas de mais de quarenta anos completamente apaixonadas pela saga - mas, acho que também rola, sim, uma identificação. Eu sei que eu esperei a carta de Hogwarts aos 11 anos - e como eu, muitos.

Mas enfim, sem entrar no mérito de fuga da realidade, porque agora, o que eu queria discutir mais tem a ver, justamente, com um reflexo da realidade e da sua percepção sobre si mesma, eu vejo que, cada vez mais, tendo a gostar de outro tipo de relação e personagens.

Não uma relação "aluno-professor", não uma relação de "sou-awesome, você, não!". E eu percebi isso muito claramente quando li e assisti Hellsing, que, pra quem não conhece, é um manga (e um anime) sobre uma família que controla Alucard, um vampiro all kinds of awesome, e que também, tem aquela velha tarefa de manter o sobrenatural debaixo dos panos, pra que a pobre sociedade seja poupada.

Enfim, quando terminei de ver a série, eu comecei a procurar mais fanfictions sobre ela, como sempre faço com tudo que eu gosto. E, óbvio, a principal relação que eu encontro, desejada por todos os leitores, é a do Alucard, novamente, vampiro-bad-ass-como-um-vampiro-tem-que-ser, com a policial novata Ceres Victoria, que, no começo da série, é transformada por ele.

E eu simplesmente... não achei plausível. Quer dizer, no geral, nenhuma das relações descritas acima é plausível. Elas são só palatáveis - no sentido de que 'era isso mesmo que eu queria que acontecesse'. Mas dessa vez, não foi o caso.

Não, eu queria ler mais sobre a Integra, a cabeça da família Hellsing, jurada de manter a sua virgindade e que era uma mulher forte, decidida, e, definitivamente, a única pessoa de quem Alucard poderia acatar ordens e ficar numa boa.

Aquilo, para mim, parecia muito mais lógico - por que o Alucard iria perder o tempo dele com uma franguinha como a Ceres, se não para uma diversão besta, se ele poderia ir caçar uma mulher à sua altura (e acho que fui boazinha com relação ao "à sua altura". Ela é bem mais awesome do que ele.).

E sei lá, meus pontos de vista atualmente são desse jeito. Acho que isso se reflete na minha vida - não tenho mais quinze anos, não quero um poço de sabedoria no qual eu possa me apoiar pra seguir minha vida. Embora eu pareça ter quinze anos, eu não tenho mais. Embora meus textos possam soar com uma continuidade estranha, bom, eles não tem mais essa continuidade.

Eu não quero ser a Ceres, não. Eu quero ser a Integra.

Percebi isso novamente quando estava lendo Hemingway, For whom the bell tolls, e senti que minha personagem favorita de todos os tempos era Pílar. Mesmo que eu ainda não tenha terminado, e mesmo que eu tenha um profundo respeito pela Maria, não, eu acho que Pilar é a personagem mais forte e mais bem construída dali. Ela é fantástica.

http://www.youtube.com/watch?v=oJfeCTyTqP8

Então fiquem aí, com suas moças ruivas e inocentes e totalmente submissas à essa porra de sistema, à um cara que saiba a verdade universal. Porque, sim, eu sei que isso tudo tem a ver. Eu já fiz parte. Eu vou lá fora, ver o mundo e ver o que de fato eu posso fazer.


(um caso completamente à parte à esse é o da Rikku em Soldier of Spira. Daí ela não é uma capa pra alguém vestir. Ela é uma puta personagem bem trabalhada. Bem feito pra caralho o lance do autor inverter os papéis.)