Monday, July 12, 2010

Viagem lisérgica.

Estavam viajando juntos já havia alguns meses. Não tinha certeza se ela o havia notado, discreto como era, sempre comportado. Ele não se destacava na multidão que se aglomerava em volta da banda após os shows. Ninguém nunca realmente reconhecia o bateirista. Ele fazia as letras, ele harmonizava os arranjos, mas quem levava toda a glória era seu amigo de infância, Paul, vocalista. Ele e John levavam toda a fama e as garotas também.

Ela viajava com eles, uma groupie oficial da banda ainda em ascensão. Prestava todo e qualquer serviço que lhe fosse pedido, executava como se fosse uma honra. E não exatamente porque gostava da música que eles tocavam. Era uma amiga de infância de Paul, sempre o apoiara em todas as suas incursões e essa era mais uma delas: a primeira que realmente parecia dar certo. E Paul não olhava duas vezes para sua amiga de infância - só a levava à tiracolo como um chaveirinho que ele carregava no bolso.

Conversavam sempre após o show, a banda e ela. Nunca ele, pessoalmente, um indivíduo, mas a banda como um todo. Ela ria de forma aberta, seu sorriso formando covinhas no rosto perfeito. Olhos verdes brilhavam toda vez que eles comentavam sobre quão boa era a vida. Encarregavam-na de todo tipo de tarefa: venda de camisetas, divulgação boca-a-boca nos bares da cidade. Ela garantia tudo.

Ele a observava com desejo contido. Era feliz de vê-la contente com o mundo, voando ao seu redor sem nunca encostar nele ou mesmo, talvez, perceber sua existência individual, mais do que como bateirista da banda.

Às vezes, no entanto, isso não era suficiente. Ele a vira passar de braços dados com Paul, e aquilo apertou seu peito de forma que ele não tinha coragem de dizer. De noite, pensava em como ele, baterista da banda que ela amava, não tinha o colhão para dizer o quanto a queria. Chegava a se odiar por ficar só imaginando. Tampouco tinha coragem de dizer à Paul, temendo que, se algum dia ele acordasse e percebesse que mulher fantástica havia ao seu lado, ele desistisse de fazê-la feliz só porque ele alimentava essa paixão escondida por ela. Não era justo que ele, o baterista apenas, roubasse a chance daquela jovem fantástica ser feliz com o homem que ela queria.

Naquela manhã de abril, ele tomara um doce diferente. Não tão diferente, é claro, porque ele já havia tomado aquilo antes. Várias vezes. Mas sentado num dos quartos da casa onde estavam instalados, com a porta entreaberta, no sofá, ele viajava.

Tudo era tão colorido e tão real. Ele se sentia num outro mundo, o sofá mole e confortável virandoo gelatina. Era feliz, era briluz. Da porta entreaberta, surgiu um anjo de cabelos negros e olhos verdes. Ele se perdeu nos olhos dela novamente. Em algum lugar da sua mente, ele sorriu porque era um sonho real.

Pétreo, ele a assistiu, arfando, sentar em seu colo e satisfazê-lo sem falar uma palavra, sorrindo. Ele beijava seu colo com volúpia, puxava-a contra si, tomava-a como nunca a teria. Queria que não fosse mentira. Ela ria, ela beijava seu pescoço e tudo parecia fazer sentido na cabeça dele.

Quando ele acordou, ainda estava no mesmo quarto, no mesmo sofá onde ele viajara insanamente com a garota que habitava sua cabeça. A braguilha estava aberta e ele se arrumou, lentamente, com a mãe de todas as dores de cabeça latejando.

Se envergonhou, ao mesmo tempo que sorriu, porque lembrou-se dos momentos imaginários com ela. Suspirou e desejou novamente que tudo fosse real. Saiu do quarto lisérgico e dormiu o sono dos justos, se preparando para o show da noite seguinte.