Monday, July 30, 2007

Dias em que...

Ficou algo como, sei lá, uma meia hora na banca, esperando o outro aparecer. Tava cansada e desanimada, além do quê, estava frio e sem dinheiro pra comprar qualquer revista pra matar o tempo. Folheou algumas coisas procurando um algo que lhe chamasse a atenção.

Consultou o relógio. Não acreditava que aquele infeliz estava atrasado de novo. Cansara-se. Digitou uma mensagem que dizia: "Me liga quando chegar." e saiu pisando duro do local.

No fim das contas, estava chateada, mesmo que tivesse dito a si mesma que não era pra ficar. Acordara sabendo que o dia seria ruim, não podia esperar-se muito mais de uma Segunda-Feira.

Mas às vezes, dava vontade de chorar. E até que ela tentara se manter alegre: cantarolara, esquentara as mãos, procurara alternativas quando tudo dava errado. Às vezes, não dava certo.

Era meio chorona, ela ficaria tão desapontada, mas, era assim mesmo. Ela não era forte como Anna, mesmo. Foi para a praia. O sol já tinha se posto fazia algum tempo e ela ficara um pouco triste de perder isso também.

Não trouxera seu caderno ou sua caixinha mágica de tocar músicas, ficou só ali, pensativa. Queria que chegasse alguém, qualquer alguém e sentasse do seu lado, dissesse que tava tudo bem e conversasse sobre tudo e nada com ela.

Se fosse num conto, certamente era isso que aconteceria, mas, no geral, a realidade costuma ser mais triste que isso.

Não aconteceu nada, por mais que ela esperasse, assim como o resto do dia, ela esperara algo em vão. Às vezes, esquecia que a magia não funcionava assim.

O telefone tocou e ela estava enregelada até os ossos depois de ficar observando a lua cheia que se projetava no céu por uns vinte minutos. "Tá, tô indo.", ela disse e saiu andando.

Havia dias em que não havia mágica que funcionasse.

Sunday, July 29, 2007

Lonely Day.

Já estava chovendo há tanto tempo, mas tanto tempo, que ela pensou que os oceanos iriam transbordar e inundar todo o mundo. Não era possível que chovesse tanto, tanto, tanto, tanto assim.

Gotas grossas escorriam pela janela da sala e ela apoiou-se no parapeito, com um suspiro. Não havia mais o que se fazer! Já tinha lido todos os livros que havia pra se ler, já tinha escrito tudo que sua imaginação permitira, não havia mais nada para se ver na televisão.

Estava sozinha em casa, não havia com quem conversar online, não conseguia prestar atenção na música que tocava no rádio.

Passa, dia, passa.

Monday, July 16, 2007

Chuva escorrendo pelo vidro da janela da sala e o cheiro de bolinho de chuva vindo da cozinha. Hmmm.

Saturday, July 14, 2007

Assim caminha.

Enrolou o cabelo na ponta do dedo e ficou a pensar no que iria escrever em seu caderno naquela noite. Era díficil comentar sobre uma experiência daquele porte sem cuidado para não se machucar quando fosse ler em outra ocasião.

Deixou o medo de lado e decidiu que seria apenas o mais verdadeira possível. Seu relato era um serpentear de veneno e vilania de tudo que acontecera-lhe nos últimos meses, desde a concepção do ato até o desfecho maquiavélico.

Era uma pobre criança de nove anos e sabia que ninguém, nem Deus, se perguntava se ela precisaria ter passado por tudo aquilo para compreender o quão estúpida era a humanidade.

It's only rock n'roll.

Acendeu o cigarro e dedilhou o violão. Fazia anos que não encostava nele, desde que tinha uns quinze ou dezesseis anos, desde que ainda andava com a molecada da rua de cima e saía com a Juliana do 52.

Trazia muitas lembranças, aquele violão. Estava gasto, com as cordas ainda por trocar, marca de um tempo de vacas magras. Um monte de adesivos estavam espalhados na superfície de madeira e ele sorriu enquanto soltava a fumaça, lembrando as várias histórias que aquele instrumento havia levado.

Arriscou tocar alguma coisa, qualquer coisa que lembrasse um pouco da época que começara a banda, quando os planos de ter uma guitarra ainda dependiam dos pais conseguirem se manter firmes no emprego até o fim do ano.

Escolheu Tears in Heaven, do Eric Clapton, e dedilhou as primeiras notas, antes de uma das cordas ameaçar se partir. Ele largou o violão onde o havia encontrado, no canto do quarto da casa dos pais.

Era estranho voltar à cidade natal depois de tanto, tanto tempo longe. Pra mais de seis anos que não pisava os pés ali, quando sua irmãzinha ainda não tinha morrido de pneumonia, quando ele ainda não tinha decidido fugir de tudo aquilo.

- Tá na hora, cara, a gente precisa ir pro show. - disse um dos amigos, colocando a cabeça na porta e chamando o outro de suas memórias.

- 'Tou indo.

Deixou o violão para trás, passou na sala e pegou a guitarra fender que estava usando, desculpando-se com ela por ter ido ver uma velha amante. Entrou no carro e escapou do assédio das mesmas moças que o infernizaram a vida havia seis anos.

Ao subir no palco, não sabia se havia sentido certo, mas um gosto de nostalgia tomou conta de sua boca enquanto ele abria o show com Tears in Heaven.

Friday, July 13, 2007

Foi montando as pecinhas uma a uma, como num quebra-cabeça. Primeiro, as bordas, coladas gentilmente por serem as peças mais fáceis de se juntar e depois, com calma, foi preenchendo o vazio que ela deixara ao esmigalhar em quinze mil pedaços seu coração.

Thursday, July 12, 2007

"Frio, frio, frio!", ela pensou ao por os pés para fora da coberta quentinha onde se aninhara a noite toda.

Era uma manhã cinza de inverno naquela cidadezinha de interior onde ela fora procurar refúgio depois de toda a confusão pela qual sua vida andara passando. Não que isso mudasse muita coisa em seu dia, que seria igual aos outros, com acordar, tomar banho, vestir uma roupa simples para ir trabalhar na sua loja de livros e antiguidades, escrever no seu caderno enquanto não vinham clientes, voltar para casa, tomar um segundo banho para tirar o pó do corpo, voltar a se enfiar nas cobertas e entupir o cérebro com porcarias televisivas até dormir.

A única coisa que alteraria na sua vida o fato da manhã estar cinza e fria é que todos os seus pensamentos entre uma coisa e outra seriam algo como "Frio, frio, frio!".

La Notte - Perspectiva de...

E ela recitou:

"Quando eu acordei naquela manhã, você ainda estava dormindo. Ao acordar, a ouvi respirando suavemente. Vi seus olhos fechados entre as mechas do seu cabelo e fiquei tocado. Eu queria chorar, eu queria te acordar, mas você estava dormindo tão profundamente, pesada. Na meia luz, sua pele brilhou com tanta vida, tão quente e macia. Eu queria beijá-la, mas estava com medo de te acordar. Eu estava com medo de você acordada nos meus braços de novo. Em vez disso, eu queria algo que ninguém poderia tirar de mim, apenas minha.... essa imagem sua, para sempre. E através de seu rosto, eu tive uma visão, tão pura e bonita, e uma perspectiva de como seria minha vida toda...os anos que ainda viriam e os que já haviam passado."

"Nossa, Lídia. Quem escreveu isso?"

"Você."


- de "A Noite", Antonioni.

A Bruxa dos Mil Caprichos.


Olhou-a com um misto de repugnância e fascínio. Era ela, a bruxa de seus sonhos, a velhinha que a aconselhava, a voz da razão, sabedoria e maleficência egoísta. Ah, as sutilezas ao falar dela.

Estava sempre presente em sua cabeça, com seus dizeres que, bom, não podiam ser ignorados, porque a razão era um lado da menina que não poderia simplesmente sumir. Tinha medo, entretanto, ao olhar para aquela imagem.

Era a sensação que tinha ao falar com a outra parte de si. Um preço a ser pago por cada palavra, aquela gentileza tão suspeita, tão difícil de definir. Chegava a quase ter medo de si mesma. Olhar nos olhos de si mesma no espelho era tão..tão... estranho.

Porque, afinal, não é como se estivesse olhando para uma pessoa, mas ela era uma pessoa, sim e ter olhos de espelho frios... era ruim. De verdade.

Frau Totenkinder, a devoradora de crianças, a aparência tão boazinha e ainda assim... ela precisava dela. As duas se precisavam, pois eram metades da mesma pessoa e, bom...

Teriam que aprender a viver com isso.

Tuesday, July 10, 2007

- Ei, olha, luzinhas. - ela disse para ele.

- É, eu percebi, devem ser fadinhas ou qualquer coisa brilhosa e voante que o valha. - ele respondeu, um tanto quanto conscendente, com os braços cruzados. Ela gostava dele, bastante.

Ele era cético e ela, nem tanto. Ele no fundo devia acreditar em alguma coisa, embora ela ainda não soubesse bem no quê.

- Que bom que as luzinhas apareceram. Eu tava ficando com medo.

- Não precisava, eu tô aqui.

- Obrigada, mas nessas horas, é sempre cada um por si.

- Menos com as fadinhas.

- Até com elas.

- Então...?

- É que elas brilham. Se algum monstro vier atrás de alguém, vai ser com certeza, da coisa que chamar mais atenção.

- Ah.

- Verdade.

- É.

Monday, July 09, 2007

In a lifetime.

Aquele relógio tiquetaqueou na cabeça da menina, ressoando como se estivesse em uma câmara com muitos metros de extensão completamente vazia. Era um barulho quase ensurdecedor e ao fundo, ouvia-se também o tilintar de vários instrumentos de ferro. Um chiado e um grito de quebrar vidro.

Ela encolheu a cabeça e se aninhou no caderno onde escrevia aquela história, sentindo uma vontade de chorar enquanto ouvia Anna gritar em sua mente.

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E olhou para o sol se pondo às margens daquele rio tão bravio que carregava sonhos e desesperos de tanta gente. Agora, sua mentora estava finalmente em terras melhores, ela carregava uma semente no ventre. O vento soprou violentamente vindo do norte, como se esbofeteasse o rosto dela.

Ele falava de cidades a serem visitadas, amigos necessitados a serem descobertos, batalhas ainda a serem vencidas, lembrava-lhe quem era e sussurrava-lhe tentadoramente para onde deveria ir....

"Quem sabe uma próxima vez.".

Porque, por enquanto, estava feliz naquela cidadezinha, ao lado daquele que escolhera. Não. Uma vez, ela não se curvaria à vontade do vento.

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Já era uma senhora de idade quando aquele rapaz que ela sempre insistira em chamar de moço viera conhecê-la. Estava em sua rede favorita, deitada, esparramando os cabelos brancos contra o amarelo claro do tecido trançado.

Ele era ainda mais velho do que ela, mas andava com a mesma graciosidade que sempre tivera. Era provavelmente o primeiro e o último encontro dos dois e ela abriu um sorriso que lembrou aos dois as muitas vezes que em jovens conversaram.

Ainda parecia um sonhador, como quando o conhecera ocasionalmente. Os pensamentos que passaram-lhe pela cabeça foram os mesmos do que há 50 anos atrás.

Ele tirou do bolso um caderno:

"Ainda dá tempo de escrever a segunda parte?"

E ela sorriu.

Sunday, July 01, 2007

Velharia.

[Quarta-feira, Maio 25, 2005]
O triste fim do Amor Verdadeiro

É isso aí....o amor verdadeiro partiu-se em mil pedacinhos e hoje, a gente tenta colar esses cacos.

Ás vezes, fico pensando no quanto eu, Raíssa, tenho sorte com amor. Até que bastante...tenho um namorado fofo, com jeitinho de cachorro,que me manda bilhetes e anda de mão dada comigo sem dizer "Odeio fazer isso, coisa de Gay.".

E eu amo ele, tenho certeza....Mas quase ninguém tem essa sorte....quer um meio de saber como o amor está tão banalizado?Entre no seu MSN e observe os nicks das pessoas. Isto é, se seu MSN for parecido com o meu, e alem de pessoas do círculo nerd, tem também pessoas do mundo "shopping-ficada-balada".

Não vou citar nomes, mas em alguns nicks eu encontro : "Eu te amo, agora vamos nessa??haieohuoaieo".

Vamos parar para pensar. Quantas vezes ela já deve ter dito isso na vida? Com 13 anos, eu só disse isso para meus pais, meu irmão, meu namorado, e meu melhor amigo quando ele me ajudou no momento que mais precisava e uma ou outra amiga.

Com 13 anos, é provável que ela já tenha dito eu te amo para, além dos pais dela, qualquer garoto razoavelmente bonito que caia na rede dela, todas as amigas dela, a maioria das inimigas dela (aliás, tem uma teoria interessante sobre rivalidades femininas), o gato, o passarinho e os peixes.

E pensar que eu achava que só se diz eu te amo, pra familiar e pro grande amor que vai aparecer na sua vida e casar contigo.Quão ingenua eu era.Hoje, namorados e namoradas são negociados como ações na Bolsa de Valores :

Compro namorado! Vendo o meu! Troco por um modelo mais novo e experiente! Ah, eu tenho um mais velho, mas um pouco usado demais!

Incrível....Pense você, para quantas pessoas você já disse eu te amo? Para quantas pessoas você já se arrependeu de ter dito isso?

Reflita, e tome mais cuidado quando for dizer "eu te amo".

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Eu espero que daqui a dois anos, eu não me ache tão imbecil quanto me acho ao ler textos antigos.