Thursday, May 31, 2007

Às vezes, vale a pena.




Foi como se me chamassem à janela. Estava frio, eu estava toda enrolada em cobertas quentes e roupas que cheiravam à naftalina. Estava doente também, e por isso, talvez senti-me tentada à fechar o vidro, antes que aquela imagem me capturasse irremediavelmente.

Esqueci-me de todos os compromissos, das pessoas que chamavam minha atenção em outro lugar, dos medos que tinha, das incertezas e inseguranças pelas quais passava. Tudo aquilo parecia tão pequeno diante do sol que se punha atrás dos morros. O prédio vizinho atrapalhava um tanto minha visão e eu troquei de posição para uma mais favorável.

Via a rua, via pessoas correndo apressadas para seus destinos e seus ônibus lotados de fim de tarde. A linha da máquina parecia um formigueiro e eu quase me acostumara a isso. Nenhum trem vinha e os trilhos refletiam o brilho final daquele sol morrente.

Ninguém se importava, apenas eu. Talvez nem eu, talvez fosse isso que fizesse daquele poente tão fascinante e tão mágico, tão meu. O céu avermelhava-se ao redor e contrastava com as nuvens brancas, o tom de amarelo realmente parecia diluir-se no pouco de azul que restava. Um pouco mais longe, a noite já assumia seu lugar, tendo direito até à estrelas cintilantes.

Olhei para baixo, constatei que havia um homem, não muito velho, nem muito jovem, parado observando a mesma coisa que eu. Ao menos, eu queria pensar que ele estava observando aquele pôr-do-sol, queria a certeza de que não era a única a enxergar aquela magia que se desvanecia no ar como puro sonho.

Sorri para ele. Seja lá como fosse, valia a pena.

Saturday, May 12, 2007

Um parênteses.

Sabia o que ele sentia. Conseguia ver em seus olhos, naquele tal de Sylar, que ele tinha a mesma necessidade que ela. Eram fundamentalmente parecidos, os dois. A necessidade de ser importante, ser alguém. Lembrou-se da história do Cuco.

"O cuco é um pássaro muito estranho. Não é bonito, não canta bem. O Cuco põe seus ovos nos ninhos de outros pássaros. Se o pássaro que o adota não descobre sua presença ali, ele fica como se fosse membro da família. Eventualmente, o cuco nasce antes de outros filhotes - e tenta jogar os ovos dos outros 'irmãos' para fora do ninho. Se eles nascem, o estranho pára de atacá-los. O cuco é criado e um dia assim, vai embora, diferentemente de todos os outros filhotes."

Era isso que ela queria. Sonhava que um dia dissessem para ela que, não, seus pais não eram seus pais. Sua vida não era sua vida. Que, talvez, ela fosse filha de reis e rainhas de uma terra distante, uma heroína predestinada a ser grande e salvar o mundo. "Era tão fútil assim querer ser importante?"

Não que seus pais fossem ruins, claro que não. Eram apenas insignificantes, ela queria mais e mais e mais. Era algo absurdo e sabia que se não controlasse isso, bom, aquilo a controlaria. Esse tinha sido o dilema de sua vida durante anos e anos.

Sylar escolhera o caminho oposto, ela via em seus olhos o reflexo do que poderia ter sido. Ela poderia ter escolhido ser grande para o...mal. Nossa, mal. Mal era uma palavra que já evocava grandeza. Se há mal, há bem, quem sabe ela não seria grande no lado bonzinho. Talvez.

Mas que ela o entendia, ela simpatizava e compreendia, tinha certeza.

- Foi mal, rapaz. Eu entendo, mas não vou te cobrir. Tanto quanto eu você sabe exatamente o que leva alguém a querer ser grande, as coisas pelas quais tem que passar.

Sorriu e mandou levarem-no embora para a delegacia. Ela seria grande.

Hero.

Friday, May 11, 2007

One Summer Day

Ela descalçou os sapatos e colocou-os ajeitadamente na bolsa, para não amassar nenhum papel ou caderno que ela tivesse guardado ali dentro. Pisou na areia com certa leveza, acostumando-se ao toque frio dela entre seus dedos. Havia chovido e a menina estava feliz naquele dia de verão.

Não tinha nenhuma mácula em seu rosto, não tinha nada que apontasse o contrário e o mar à sua frente lhe parecia tentador. Tinha os olhos no outono e no inverno que se seguiriam e no seu longo, longo, inferno.

Naquela noite, ela só queria cama quente e alguém que a embalasse para doces sonhos que a fizessem esquecer.

Thursday, May 10, 2007

Você merece.

Eu queria dizer alguma coisa que fizesse as pessoas notarem, eu sei que estou carente e de saco cheio. Eu queria um anti depressivo, eu queria algo que me fizesse esquecer disso, eu queria algo que fizesse as pessoas se importarem, eu queria saber viver a dois, eu queria saber ser menos egoísta, eu queria que tudo fosse pro inferno.

Eu queria que as pessoas não precisassem perguntar, eu queria que as pessoas não precisassem responder, eu não queria ser cobrada por coisas que não deveria, eu não queria ter que pedir, eu queria conselhos, eu queria colo, eu queria o inferno parecesse paraíso, eu queria ser menos orgulhosa, eu queria mais calma e paciência, eu queria ser mais precisa sem ser vulgar. Eu queria que a tristeza fosse embora levando junto a dor de cabeça, eu queria que a cabeça fosse embora, eu queria que o mundo não girasse tão rápido pra eu não ficar tonta, eu queria ficar tonta até cair e esquecer porque eu estou chorando.

Eu queria estar junto e longe, eu queria algo que fosse como uma droga, eu queria o tudo e o vazio, eu queria o mundo só pra mim, eu queria não existir no mundo e queria descobrir que faria falta - eu não faço. Queria poder respirar e dizer que tá tudo bem, tudo legal e que amanhã começa e termina meu carnaval.

Eu queria que eu sentisse fome, eu queria não ser vingativa, eu queria que ela parasse de ir atrás de mim, eu queria que eu não estivesse preocupada, eu queria não estar caótica, eu queria que tudo não estivesse atrás de mim, eu queria que ele estivesse atrás de mim, eu queria que o único cheiro que não sentisse fosse o do outro.

Odeio passar por idiota.

Television Rules The Nation.

Maybe you've been brainwashed too.

A risada fluia como se viesse de outro mundo, da mesma forma como o vinho que ela tomava não parecia ter gosto, nem entrar direito em seu sangue. A descontração não parecia acontecer, ela tinha um certo receio de dirigir de volta pra casa, mas àquela altura do campeonato...que tudo fosse pro inferno!

No carro, o mundo parecia passar como um amontoado de luzes e drogas, flashes dispersos que ela não conseguia entender. Ouvindo uma versão de Toccatta, ela tinha a nítida impressão de que numa próxima batida, o mundo ia ruir e se tornar bizarramente mau.

Sorriu para o rapaz de sobretudo preto que cruzou o seu caminho e ele sorriu de volta, com os caninos ligeiramente pontiagudos. Ela não notou que seus olhos eram vermelhos e que as pessoas ao redor pareciam ter medo dele.

As estrelas piscaram uma, duas, três vezes e sumiram. A noite era apenas e tão somente da Lua, por mais estranho que a cena soasse, ela parecia perfeitamente condizente com a menina totalmente outline que dirigia a lamborginni vermelha.

A cidade iria amanhecer dali a alguns instantes e quando ela colocou os pés em casa, esperava apenas que estivesse melhor quando acontecesse.

Tuesday, May 01, 2007

Lembre-me.

Ela não lembrava mais como era ficar sozinha.

Era um pensamento angustiante, para falar a verdade, 'não saber como é ficar sozinha', até porque, fora assim que passara boa parte de sua vida. Como, de repente, esquecera como era a sensação de não ter ninguém ao seu lado?

Era muito estranho. Naqueles dia, ela saíra para tentar recuperar essa memória, ficar sozinha e em paz consigo mesma. Nada, nem mesmo uma mísera impressão de como seria passou-lhe pela cabeça.

Vestiu uma roupa curta, apesar da noite estar razoavelmente fresca. Queria sentir seu corpo com frio - aquela velha sensação de estar viva. Bermuda curta, camiseta regata, chinelo de dedo. Olhou pela janela e viu aquela estrela brilhando forte, sentiu ainda mais vontade de ficar ali embaixo.

O fim de tarde tinha gosto de nostalgia, já a noite, de novidade. Sentou-se na calçada com um ar de pensativa e tentada a falar consigo mesma. Se assustou. Não estava sozinha há tanto tempo que ainda inventava truques para se sentir acompanhada. Era estranha.

Ouvia música para esquecer que estava sozinha. Dividia-se em duas para não estar sozinha. Assustada, ela percebeu que raramente em sua vida estivera sozinha.

Fechou os olhos e abraçou os próprios joelhos. A lua a chamou dali de cima, e ela não ouviu seu chamado. Os ventos quiseram soprar-lhe histórias em seu ouvido, a terra quis esquentar seus pés. Ela a tudo negou e quando finalmente voltou, viu que estava, sim, sozinha.

Ela teve frio, como nunca tivera na vida. Depois, se sentiu em paz como nunca estivera na vida. Não tinha ninguém a esperando, não tinha ninguém a chamando. Era ela. Não se sentia parte de nada, nem sentia necessidade de fazer parte de nada.

Sorriu e seu sorriso derreteu mundos. Quando voltou ao normal, seu cabelo, bagunçado pelo vento que em vão tentara lhe tirar a concentração, estava mais bonito que nunca. Seus olhos brilhavam com a luz que a Lua tentava-lhe atirar sobre a cabeça para que olhasse para cima. Seus pés estavam quentes, prontos para continuarem a caminhada pela longa estrada.

Carros passaram, pássaros voaram e um cachorro latiu. A menina, do alto de seus quinze e poucos anos, com aquelas roupas de criança e um sorriso enorme no rosto, então, sumiu.