Não podia ser coincidência, ela pensou consigo mesma, parando a porta do metrô e olhando discretamente para o lado. Era a segunda vez na semana que ambos se encontravam casualmente na plataforma - ela com sua mesma vestimenta de ir à faculdade, ele com a mesma vestimenta de quem saiu do trabalho... ou quase.
Ele sorriu consigo mesmo e puxou um palito de dente do bolso, ao qual começou a mordiscar. Em qualquer outro cara, ela teria achado nojento, mas não nele. Ah, não, aquilo era uma estratégia muito bem combinada e arquitetada: a roupa social, paletó e tudo!, acompanhada de um chapéu preto meio jovial e o mordiscar discreto do palito na boca.
Tinha cara de gitano, a moça com o vestido preto refletiu. Alto, um pouco magro, mas que o terno acabava por encorpar, ajuntando-lhe uma ombreira generosa. Cabelos morenos bem aparados, mas ainda assim, um tanto quanto longos. Rosto liso e olhos pretos com jeito de moleque. Ele bem que poderia ser daquele tipo estereotipado dos filmes, sorriu pra si.
O cara lançou um olhar discreto para a garota, que baixou a vista, e o fez rir internamente da discrição alheia. Ele também a notava. Será que deveria se apresentar? "Excuse-moi, est-ce que je peux vous parler deux sec en priveé?", ele diria, carregando no sotaque espanhol.
O metrô chegou à estação e ambos entraram. O ballet durou alguns minutos até que a estação seguinte foi anunciada. Rafael piscou para Lucille e desceu, torcendo para que os suspiros arrancados durassem até um próximo encontro, num outro dia, quando ele tomaria coragem, enfim.
Sunday, July 31, 2011
Saturday, July 30, 2011
Retomada.
A terra estava seca e deserta já havia anos. Nem uma gota de chuva, nem uma brisa ligeira para aliviar a dor de seus habitantes - que, em sua maioria, já há muito abandonaram aquele lugar, antes tão belo!, ingrato.
Dois guardas se postavam na porta de um reino em ruínas. Dormiam, subnutridos, em cima de seus próprios estandartes e lanças, sem esperança de que o sol ou um milagre fossem baixar. Uma mosca gorda pousava sobre a pálpebra do mais franzino - o único filho que havia nascido naquele povo.
Então, algo aconteceu.
Como mágica, um vento forte soprou, levando o insetóide gordo para longe, com uma força que há muito não se via. Ambos acordaram sobressaltados:
- Você ouviu isso? - perguntou o mais novo, sem saber do que se tratava.
- Eu... eu acho que sim. - respondeu o mais velho, incerto, sem saber se deveria acreditar no que seus sentidos lhe diziam.
Então, uma nova rajada de ar atingiu-os novamente, levando um pouco do calor e do cinza embora, fazendo com que seus corpos cansados se arrepiassem e algo, ali, mudasse.
- É o vento! É o vento mesmo! - o mais novo comemorou, com a voz fraca. O mais velho não respondeu, a voz embargada, um nó que não descia na garganta.
E de longe, muito longe, eles escutaram música. ("O que é isso, o que é isso?!", perguntava excitado o jovem de não mais de quinze anos, ao ouvir o rufar de tambores, com o ritmo de marcha.)
Não era uma canção qualquer. Um ponto preto no horizonte foi se aproximando, com alguma rapidez, mas ritmo bem marcado pelo bater dos tambores, e pelo caminhar de coturnos sobre a terra curtida. Eram muitos.
Uma menina liderava o bando de soldados bem vestidos e paramentados, com roupas cintilantes como novas, primariamente pretas-e-brancas, mas coloridas, em diversos pontos, com as cores do arco-íris, e, em especial, um vermelho sangue que era muito característico. A flor-de-lis dessa mesma cor marcava a farda na altura de seus ombros.
O mais velho olhou para os traços puídos de sua vestimenta, outrora também uma farda, e sentiu-se a ponto de desmaiar, mas segurou-se, para não demonstrar fraqueza diante de tamanha autoridade. O jovem olhou assustado para as pernas que bambeavam embaixo de si.
A menina, que a essa altura, já estava à frente dos portões, agora era uma figura claramente distinguível. Seu vestido era usado junto com uma calça, e ambos eram uma mistura, como numa palheta, de preto, branco e cinza. Seu rosto tinha um losango vermelho pintado na bochecha, onde tudo o mais era da cor do cadáver. Seu cabelo era, no entanto, colorido com todas as cores possíveis, em mechas longas. O brilho de seus olhos havia retornado. Era de uma graça impressionante, apesar de usar os coturnos longos que lhe davam uma certa seriedade( quebrada completamente com as meias multi-coloridas).
Ela não parecia ter mais do que quinze anos, isso era claro, mas a bem da verdade é que muito tempo havia passado desde que ela abandonara o reino para descobrir-se em novos umbrais. Muito havia enfrentado, muitos soldados a haviam seguido. Ela não era mais a mesma, e no entanto, quando o senhor-soldado a viu, ele chorou como um bebê.
Arlequina sorriu e beijou-lhe a testa.
- Meu bom Bartolomeu. - ela disse, suavemente. - Eu não sabia se estariam a me esperar.
- Nunca perdemos a esperança. - ele disse, entre soluços. - A terra, a peste, os rios... não posso dizer o mesmo...
- Eu o compreendo. - ela respondeu, ainda no tom maternal que usava - e que, aos ouvidos do jovem soldado, soavam estranhos para uma menina tão jovem. Arlequina voltou-se para o novo rapaz e dirigiu a pergunta à Bartolomeu - E quem é seu amigo, Bart?
- Você certamente lembra-se dele, milady Arlequina! - ele respondeu um pouco surpreso. - É o jovem filho do moleiro, Arquiel. Ele era apenas uma criança quando você partiu, mas já faz tanto tempo e ninguém nasceu desde então...
- Arquiel! Eu lembro-me de você! - ela disse, com um sorriso que se estendeu de orelha a orelha e a fez muito mais bonita. - Não costumavamos brincar juntos?
O garoto olhou para o velho assustado, como quem não se lembrasse de nada.
- Era o pai dele, minha senhora, que partilhava de seus jogos. - ele disse. - O tempo passou de uma forma muito estranha por aqui. Alguns envelheceram, outros não. Alguns morreram quando a senhora partiu, outros partiram para terras distantes, e apenas algumas árvores permaneceram de pé. Arquiel, o outro Arquiel, morreu.
O golpe pareceu atingir a pequena boba-da-corte, que, de boba-da-corte já não parecia ter mais quase nada. Ela, sem pensar muito, abraçou o menino, que ainda continuava assustado, mas não muito.
- Venham, os dois. Juntem-se ao grupo. Temos muito o que fazer.
Arlequina sorriu, não o mesmo sorriso inocente e bobo, como pode perceber Bartolomeu, mas algo um pouco ferino e muito mais vivo, como notou Arquiel. Ela não mais queria perder tempo. Sentia saudade de sua terra de sonhos.
Os portões se abriram e o estranho grupo, liderado por uma boba da corte vestida de preto, entrou no País da Arlequinada.
Dois guardas se postavam na porta de um reino em ruínas. Dormiam, subnutridos, em cima de seus próprios estandartes e lanças, sem esperança de que o sol ou um milagre fossem baixar. Uma mosca gorda pousava sobre a pálpebra do mais franzino - o único filho que havia nascido naquele povo.
Então, algo aconteceu.
Como mágica, um vento forte soprou, levando o insetóide gordo para longe, com uma força que há muito não se via. Ambos acordaram sobressaltados:
- Você ouviu isso? - perguntou o mais novo, sem saber do que se tratava.
- Eu... eu acho que sim. - respondeu o mais velho, incerto, sem saber se deveria acreditar no que seus sentidos lhe diziam.
Então, uma nova rajada de ar atingiu-os novamente, levando um pouco do calor e do cinza embora, fazendo com que seus corpos cansados se arrepiassem e algo, ali, mudasse.
- É o vento! É o vento mesmo! - o mais novo comemorou, com a voz fraca. O mais velho não respondeu, a voz embargada, um nó que não descia na garganta.
E de longe, muito longe, eles escutaram música. ("O que é isso, o que é isso?!", perguntava excitado o jovem de não mais de quinze anos, ao ouvir o rufar de tambores, com o ritmo de marcha.)
Não era uma canção qualquer. Um ponto preto no horizonte foi se aproximando, com alguma rapidez, mas ritmo bem marcado pelo bater dos tambores, e pelo caminhar de coturnos sobre a terra curtida. Eram muitos.
Uma menina liderava o bando de soldados bem vestidos e paramentados, com roupas cintilantes como novas, primariamente pretas-e-brancas, mas coloridas, em diversos pontos, com as cores do arco-íris, e, em especial, um vermelho sangue que era muito característico. A flor-de-lis dessa mesma cor marcava a farda na altura de seus ombros.
O mais velho olhou para os traços puídos de sua vestimenta, outrora também uma farda, e sentiu-se a ponto de desmaiar, mas segurou-se, para não demonstrar fraqueza diante de tamanha autoridade. O jovem olhou assustado para as pernas que bambeavam embaixo de si.
A menina, que a essa altura, já estava à frente dos portões, agora era uma figura claramente distinguível. Seu vestido era usado junto com uma calça, e ambos eram uma mistura, como numa palheta, de preto, branco e cinza. Seu rosto tinha um losango vermelho pintado na bochecha, onde tudo o mais era da cor do cadáver. Seu cabelo era, no entanto, colorido com todas as cores possíveis, em mechas longas. O brilho de seus olhos havia retornado. Era de uma graça impressionante, apesar de usar os coturnos longos que lhe davam uma certa seriedade( quebrada completamente com as meias multi-coloridas).
Ela não parecia ter mais do que quinze anos, isso era claro, mas a bem da verdade é que muito tempo havia passado desde que ela abandonara o reino para descobrir-se em novos umbrais. Muito havia enfrentado, muitos soldados a haviam seguido. Ela não era mais a mesma, e no entanto, quando o senhor-soldado a viu, ele chorou como um bebê.
Arlequina sorriu e beijou-lhe a testa.
- Meu bom Bartolomeu. - ela disse, suavemente. - Eu não sabia se estariam a me esperar.
- Nunca perdemos a esperança. - ele disse, entre soluços. - A terra, a peste, os rios... não posso dizer o mesmo...
- Eu o compreendo. - ela respondeu, ainda no tom maternal que usava - e que, aos ouvidos do jovem soldado, soavam estranhos para uma menina tão jovem. Arlequina voltou-se para o novo rapaz e dirigiu a pergunta à Bartolomeu - E quem é seu amigo, Bart?
- Você certamente lembra-se dele, milady Arlequina! - ele respondeu um pouco surpreso. - É o jovem filho do moleiro, Arquiel. Ele era apenas uma criança quando você partiu, mas já faz tanto tempo e ninguém nasceu desde então...
- Arquiel! Eu lembro-me de você! - ela disse, com um sorriso que se estendeu de orelha a orelha e a fez muito mais bonita. - Não costumavamos brincar juntos?
O garoto olhou para o velho assustado, como quem não se lembrasse de nada.
- Era o pai dele, minha senhora, que partilhava de seus jogos. - ele disse. - O tempo passou de uma forma muito estranha por aqui. Alguns envelheceram, outros não. Alguns morreram quando a senhora partiu, outros partiram para terras distantes, e apenas algumas árvores permaneceram de pé. Arquiel, o outro Arquiel, morreu.
O golpe pareceu atingir a pequena boba-da-corte, que, de boba-da-corte já não parecia ter mais quase nada. Ela, sem pensar muito, abraçou o menino, que ainda continuava assustado, mas não muito.
- Venham, os dois. Juntem-se ao grupo. Temos muito o que fazer.
Arlequina sorriu, não o mesmo sorriso inocente e bobo, como pode perceber Bartolomeu, mas algo um pouco ferino e muito mais vivo, como notou Arquiel. Ela não mais queria perder tempo. Sentia saudade de sua terra de sonhos.
Os portões se abriram e o estranho grupo, liderado por uma boba da corte vestida de preto, entrou no País da Arlequinada.
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