Saturday, April 28, 2007

Longa Noite.



O ônibus tinha quebrado novamente. Era a segunda vez em menos de cinco dias, e o motorista já estava começando a ficar de saco cheio da empresa. Por que só SEUS ônibus quebravam? Por que só os SEUS passageiros ficavam furiosos e com vontade de mandá-lo para o fogo dos infernos?

- Mas senhor, acalme-se, eu vou consertar o ônibus e em algum tempo estaremos na estrada de novo! - ele respondia às críticas ferozes que lançavam-lhe seus clientes.

Harley não tinha mais paciência para isso. Não era justo! Por que só com ele que aconteciam essas coisas? A fumaça subia do motor do ônibus e ele sabia que o acabara de falar para o enfurecido jovem que viera falar com ele tinha poucas chances de se tornar verdade.

Ele provavelmente teria que buscar ajuda e, considerando que era meio da noite, numa estrada velha, as tais chances se reduziam para quase nulas. Para piorar, era só a segunda vez que fazia aquela rota! Que espécie de maldição era aquela?!

Haviam passado por uma velha casa abandonada há apenas uns 300 metros de distância. Talvez tivessem que passar a noite lá, o que seria, com certeza um problema. E para explicar a todos aqueles infelizes que haviam pago uma grana por aquele transporte que teriam que ficar ali?

- Celular, pessoas, celular! É para isto que foi inventado essas coisas - e não para ficar tirando fotos! - disse um senhor olhando feio para a filha que aparentava ter algo em torno de 16 anos. Sacou seu celular do bolso. - SEM SINAL! Eu retiro tudo que disse.

- Se acalme, tiozão, que eu devo ter o meu aqui... - tomou a palavra um rapaz de mais ou menos 18 anos. - Eu tenho o meu aqui...mas putz, sem bateria! Que hora pra essa porra acabar!

Um a um, as mais ou menos vinte pessoas ali foram tirando seus celulares apenas para descobrir que estavam sem sinal, bateria ou que o número discado não completava a chamada.

- Isso é um sinal divino. - disse uma senhora, aparentemente religiosa, que logo acrescentou. - Temos de confiar em Deus para resolvermos este problema.

- Temos que confiar é que um desses celulares funcione, pra podermos chamar a polícia ou um mecânico. - respondeu Harley. - Passamos um velho casarão há uns 300 metros. Acho que podemos passar a noite lá.

Os passageiros concordaram, relutantemente, pois em todos passara a idéia de que todo tipo de ladrão poderia aparecer na estrada ao ver um ônibus parado. Seguiram a passos lentos e nesse meio tempo, o motorista já tinha um plano para quando amanhecesse, andar com alguns jovens até a cidade mais próxima.

Era uma dessas casas coloniais que já estava abandonada fazia algumas décadas. Tudo caía aos pedaços e ratos e baratas tomavam conta de seu interior. Os móveis, ainda com lençóis brancos cobrindo-os, pareciam em razoável estado. Havia pelo menos uns dez quartos, era realmente um lugar grande. Cada quarto, uma cama, cômoda e espelho.

Os 'hóspedes' pareciam pouco à vontade e não sem razão.

- Vamos nos acomodando pessoal, porque a noite vai ser aqui mesmo. - Harley disse ao ouvir uma trovoada ao fundo.

Chovia e aquele amontoado de gente estava se perguntando se não seria melhor ficar no ônibus.

- É bom não dar bandeira, havia respondido o motorista.

- Mamãe, está muito escuro... - disse uma garotinha de uns cinco anos com uma nota de choro na voz.

- Eu sei, meu amor, mas mamãe já vai acender um fogo. - falou de volta uma moça que parecia ter algo em torno de 30 anos.

- Eu achei velas! - disse um rapaz negro que estava junto dos que haviam se certificar que a casa estava vazia. - Podemos acendê-las e acho que o tal do André achou cobertores nas cômodas.

- É isso mesmo, tem travesseiros debaixo das camas também. - disse o rapaz cujo celular havia ficado sem bateria - É engraçado, é como se o dono da casa tivesse saído de férias e não voltado ainda. Tem certeza que a casa está desocupada?

- Absoluta - respondeu Harley. - Aqui sempre correm histórias de... - calou-se ao lembrar da presença de crianças no recinto.

- ...fantasmas? - perguntou a menininha que anteriormente reclamara do escuro.

Ele revirou os olhos.

- Tudo bem, eu não tenho medo de fantasmas. - ela disse corajosamente. - Só de baratas. - acrescentou com um pouco de vergonha.

- Julie é uma mocinha muito corajosa! - disse a moça que acompanhava a mãe da menina. - Não é, Lúcia?

- É sim! Minha garotinha está se tornando uma mulher, Patrícia! - disse a mãe, agarrando Julie no colo.

Os outros olharam para a cena e reprimiram seus próprios medos. Se uma garota de cinco anos não tivera medo de passar a noite numa casa abandonada, não seriam eles a fazê-lo.

Engoliram todos seco e foram cada um escolher seus quartos...

Sunday, April 22, 2007

Once Upon a September..

Às vezes, ainda olhava pra trás e parecia sentir o perfume dele. Como se viesse de uma memória distante, de um sonho que estava quase se apagando e cujos traços teimavam em querer se agarrar nela por alguns instantes mais que fossem.

Ultimamente, era como se a frequência tivesse aumentado, era como se ele ainda estivesse por perto, não obstante os...o quê, seis meses?...que ele se fora. Era como se ele ainda estivesse lá, a rir das várias coisas naquela biblioteca, das conversas que eles tinham sobre as diferenças entre valores, dos sorrisos meio mostrados e olhares não trocados.

Era como se ela ainda sentisse falta dos cachinhos dele, pobre menina de olhos azuis de lágrimas! Era como se ela não soubesse que não, ele não voltaria, era como se ela não visse que ele havia partido para outros mundos que não a incluiam na lista.

Ele sabia que de vez em quando deveria aparecer para vê-la, sabia, no final das contas. Não queria ter ido e nem fora para tão longe, mas... era como se um mar estivesse os separando. Ela tinha sua vida, afinal. Seus amigos, suas paixões - que ela por alto comentava sempre e que ele sentia destroçar o coração. Não podia continuar vivendo aquilo que não vivia, sofrendo aquilo por sentir o que ela não sentia.

Mas até disso sentia falta...

Olhavam os dois para o mesmo mar, na mesma cidade, talvez, até em ruas próximas. Suspiravam e contavam às poucas estrelas os motivos de seus males... como se estas os unissem, como se estas o separassem na distância.

Friday, April 20, 2007

Don't Know Why...

Insanidades

Vozes perturbadas sussurravam no ouvido dela, com um quê dramático saltado. Sua testa transpirava, nervosa com os dizeres delas e a menina se segurava na cama de ferro antiga que a sustentava. O frio do metal mantinha-a acordada e aquelas coisas suspiravam e cantavam, ela tinha medo.

- Volte para casa...

- Volte para mim...

- Você não se livrará de mim tão fácil, pequena...

- Tenha lindos sonhos, maninha...

A menina queria ignorar o que diziam aquelas vozes, que pareciam pertencer a um passado há muito não revirado, algo que ela não tinha certeza de ter ou não culpa. Podia ver rostos que não lhe eram familiares, e não queria dormir, nem tampouco ficar acordada.

Nessas horas, ao ver aquilo tudo, desejava morrer. Seus lábios pálidos não diziam coisa com coisa, e sabia que quem a visse, daria aquilo como alucinação de febre. Várias sombras dançavam desfigurados no seu quarto e cada vez mais ela queria se encolher, mas era como se bichos estivessem aos seus pés.

Não gostava daquilo e não queria aquilo nunca nunca nunca nunca mais.

O Corvo pousou na sua janela e disse:

- Não se preocupe, pequena querida menina mortal, o Mestre dos Sonhos não a deixará...nunca mais.

Monday, April 16, 2007

Deus Lhe Pague.

O Café da Manhã, o Almoço, o Jantar.
O novo, o velho, o quebrado e o consertado.
O simples, o composto, o de forma simples e conteúdo composto.
A vida, a morte, a Severina.
O dinheiro do ônibus, o troco pro metrô, a corrida de táxi até o lugar mais distante da cidade.
O vintém, o jornal nosso de cada manhã, o suspiro nosso de cada tarde enfadonha no trabalho que você nunca sonhou que teria, o bocejo descontente ao virar para o lado e dormir, sem ao menos beijar sua esposa.
O pecado, a chuva que não pára, o fim de semana na praia que acabou sendo uma verdadeira sucursal do inferno, aquele guarda-chuva que tinha que quebrar ali, no meio da tempestade.
O drinque derramado em cima da namorada, o tropeço em frente a todos os seus amigos, a ligação da mamãe querendo saber onde você estava justo no meio daquela cantada que estava dando certo.
O fato de ter menstruado pela primeira vez em plena prova de matemática.
O fato de que a maior parte de suas menstruações ou coincide com o dia de churrasco + piscina ou com aquele dia que todo mundo resolveu ir para a praia.
Os amigos traíras, as amigas carinhosas, os fofoqueiros e aqueles que você pode contar pra sempre.
A infância que se acaba, a adolescência que parece durar pra sempre, a saudade que fica quando a velhice chega rápida demais.
O adulto que não sabe muito bem o que está fazendo no meio desses três.
O chefe que te olha de cima abaixo por você estar com uma mini-saia curtíssima ou o presidente da empresa confundindo você com o office boy por causa do seu cabelo comprido e tatuagem no pescoço.
A descoberta de que aquela menininha gostosa da sua classe foi pra faculdade e engordou muito.
A descoberta que aquela menininha feiosa da sua classe se tornou uma verdadeira gostosa na faculdade.
O fato da sua namorada ter decidido fazer Engenharia.
O jeito como aquele velhinho meio Don Juan olha para você, mesmo que você tenha 1,90 e seu nome seja Carlão.
O sorriso dela ao dizer que te ama.
O sorriso dele ao responder que também.
O choro dela quando você diz que vai embora.
O seu choro quando ela diz que não te quer mais.
O choro de seu primeiro filho na maternidade.
A tralha desnecessária que você ganhou no seu casamento.
O apartamento de 3 quartos que você se arrependeu de não ter comprado, agora que seu 3o filho chegou.
O jeito como você se olha no espelho quando percebe a calvice e a velhice chegando.
O quadragésimo aniversário.
O namorado da filha mais velha.
O namorado da filha mais nova.
O namorado do filho.
O sorriso dela depois de trinta anos de casada.
O seu sorriso depois de quarenta.
As viagens que você fez, as que não fez e as que se arrependeu de ter ou não ter feito.
A casa própria que finalmente comprou.
O último suspiro dela.
O seu último suspiro.
O visualizar do caixão de lá do alto.
A paz, afinal.

E por tudo isso...

Que Deus Lhe Pague.

Coleção de Quotes.

"Never trust a demon. He has a hundred motives for anything he does... Ninety-nine of them, at least, are malevolent. "
- Sandman, Uma Esperança no Inferno.

"All Bette's stories have happy endings. That's because she knows where to stop. She's realized the real problem with stories— if you keep them going long enough, they always end in death. "
- Sandman em 24 Horas, meu arco favorito.

"For love is no part of the dream-world. Love belongs to desire, and desire is always cruel. "
- Sandman, em Um Conto de Areia.

"Delirium was once Delight. And although that was long ago now, even today her eyes are badly matched; one eye is a vivid emerald green, spattered with silver flecks that move; her other eye is vein blue. Who knows what Delirium sees, through her mismatched eyes? "
Quem sabe o que Delírio vê através de seus olhos desiguais?
- Sandman, Estação das Brumas, cap.0.

"To absent friends, lost loves, old gods and the seasons of mists. And may each and everyone of us always give the devil his due."
- Hob Gadlings, no melhor brinde que já vi.

"Never trust the storyteller. Only trust the story. "
- O avô - certo como sempre.

"I know how gods begin, Roger. We start as dreams. Then we walk out of dreams into the land. We are worshipped and loved, and take power to ourselves. And then one day there's no one left to worship us. And in the end, each little god and goddess takes its last journey back into dreams... and what comes after, not even we know. "
- Ishtar, em Sandman: Vidas Breves.

Sunday, April 15, 2007

NEOQEAV

Era como se alguém lá em cima tivesse soprado um pó sobre o mundo todo. Algo meio invisível e prateado, como poeira de estrelas, fadas, anjos e sonhos tivesse caído sobre todos eles. Ela percebeu quando caiu, por um milionésimo de instante que algo extremamente importante havia acontecido em todo o universo.

Andaram pelas ruas como se fosse a única coisa que importasse e, quando estivessem um com o outro, estar junto não importa onde era a única coisa que importava. O sorriso que tinham que manter um nos lábios do outro era a única coisa que realmente poderia importar.

Eram um daqueles casais bobos que andavam abraçados ou de mãos dadas. Eram um daqueles casais bobos que não precisavam ser afetados por aquele pó mágico, por aquela benção, pois já se consideravam abençoados o suficiente.

Ao seu redor, pessoas cantavam, dançavam, sorriam, se apaixonavam, beijavam, faziam amor na calada da noite. Eles faziam tudo isso ao mesmo tempo, com a mesma intensidade e nossa, como ela queria mais. Tinha um sorriso que não precisava explicar mais nada, tinha um jeito no corpo que dizia que sim, estava feliz, sim, tinha dono, sim, era pra sempre.

Ao olhar para cima e ver aquele milionésimo de instante que mudou a vida e o rumo de um mundo todo, ela sorriu, porque se todos pudessem ser um milionésimo de felizes como ela, sabia que não havia mais nada com o que se preocupar.

Saturday, April 14, 2007

Carta.

Procurou o tom certo para escrever aquela carta para ele, não sabia bem por onde começar. Tinha várias idéias na cabeça, tinha várias coisas que queria contar, tantas outras que ela queria que ele lesse, mas a tela em branco à sua frente não permitia que nada disso fosse escrito.

Era estranho. Eles nunca tiveram aquele tipo de trava. Ela escrevia, ele lia, respondia e assim ia - as conversas duravam meses, e ele sempre mandava um feedback sobre o que ela mandava em anexo.

Porque estava com tanta dificuldade em escrever a carta, ela não sabia. Não sabia o que travava, o que a compelia a querer mandar aquele conto para ele, não sabia porque não conseguia.

Talvez porque fosse um conto de amor.
Talvez porque fosse algo que ela quisesse dizer.
Talvez por isso que Oswaldo cantava:
"Assim como a canção só tem razão se se cantar."
Talvez por isso que ela tinha medo.
Talvez por isso que ele chorava quando lia seus textos, talvez porque ele intimamente quisesse ouvir o que os personagens diziam da boca dela.

Talvez devessem sair e tomar uma coca-cola no bar da esquina.

Sunday, April 08, 2007

Frases de Efeito.

Ele era um homem de frases de efeito. Desde que aprendera a falar e, pouco depois, a escrever, ele sempre sabia como começar e terminar um texto de maneira perfeita, impecável, que fazia seu ouvinte e, mais tarde, leitor, suspirar e se encher do sentimento que ele queria inspirar.

Era um bom homem, no final das contas, esse. Tinha dois olhos brilhantes, transpareciam uma alma geniosa e uma mente que brilhava e resplandecia com idéias, nem tão grandiosas, mas que ele conseguia convencer a todos os outros de que era isso mesmo que eram.

Sorria ao ver uma platéia delirando com suas frases de uma palavra, suas aliterações e rimas tão bem usadas. As informações impactantes guardadas para a última frase do conto.

Sentia-se um ilusionista e gostava disso.