Tinha sido um sonho dentro de um sonho e essa era uma daquelas sensações muito estranhas que acometiam as pessoas de vez em quando. É claro que ela não percebera a princípio que fora, apenas quando acordara de verdade em sua cama com um enorme ponto de interrogação em sua cabeça.
Se tinha algo que ela detestava era o fundo do mar. Não era tudo calmo, tranquilo e bonito como diria Jacques Costeau. Não, era escuro, assustador e com criaturas que não era preciso ter uma imaginação muito aguçada para chamar de "monstros".
Estava no sofá com seu irmão e um outro rapaz de quem ela parecia ser muito próxima. Não lembrava direito dos dois. Pareciam ter ido-se fazia muito, muito tempo. Eles jogavam um jogo que ela já havia fechado fazia muito tempo e eles fechavam a cara a cada intromissão dela.
Ela mandou os dois tomarem em seus respectivos rabos quando ele a mandou calar a boca e foi dormir. Sonhou que estava na fase 3 do jogo, e era um navio que o personagem-ela acordava. Estava afundando. Era logo depois dela ter jogado a fase do Templo Imperial do Vôo, onde ela enganara um imperador usando a forma de um simples passarinho em vez do Dragão.
A luz daquele mundo estava acabando e não havia mais criaturas. Havia um templo submerso que estava roubando a energia dos mundos e logo não haveria mais criaturas aquáticas firfas que viveriam. Apenas coisas como aquele "polvo" de milhares de tentáculos e um olho gigante no meio da cara. O olho emitia uma luz estranha e ela pretendia defender-se como podia.
Outras criaturas assomavam-se à luz do olho gigante do polvo estranho e nenhuma delas parecia menos ameaçadora. Ela tentou nadar para longe, muito longe, mas as roupas estranhas que usava pareciam apenas atrapalhá-la. E ela precisava respirar e salvar as pessoas que estavam no barco e...
Uma de suas pernas foi puxada por alguns dos tentáculos da criatura e ela se sentiu puxada pra baixo, sufocando cada vez mais. Não havia mais ar, não havia mais luz, apenas monstros...
A menina acordou em sua cama, mas já não era mais uma menina. Era uma moça de vinte e poucos anos, com os cachos um pouco desfigurados e o rosto molhado - talvez de lágrimas, talvez do mar onde ela estivera afogando em seu sonho...
Alguém dormia ao seu lado. Era jovem, de cabelos ondulados pretos e ainda encontrava-se adormecido com a mão entrelaçada à sua. Ela se desvencilhou e perguntou em voz alta por que ele estava ali.
Não se lembrava de nada da noite anterior. Tentava lembrar o que sonhara, mas apenas um ponto de interrogação surgia em sua mente. Lembrava de ter ido para um bar na noite anterior, não lembrava de ter saído de lá. Foi com o pessoal da faculdade. Gente que ela gostava. Alguns, sinceramente.
Ele era uma dessas pessoas que ela gostava. Ele acordou. e levantou-se na cama, sentando-se e olhando pra ela.
- Tá melhor agora? - ele perguntou, esfregando os olhos.
- Melhor?
- Você disse pra mim que estava com medo ontem à noite. Medo de dormir, medo de acordar. Achei que pudesse ser uma outra crise sua e tive medo que tentasse se matar tomando remédios pra dormir.
- Eu não tentaria me matar com isso. - ela respondeu. - Por isso você ficou aqui?
- Você não lembra? Você me pediu pra ficar.
- Eu pedi?
- Pediu. Pediu, não, implorou. Não precisava ter feito isso. Eu provavelmente teria dormido na sala de qualquer jeito. Se você tomasse remédios pra dormir com a quantidade de vodka que tomamos ontem à noite, você realmente não teria acordado.
- Que nobre da sua parte. E como você acabou vindo parar na minha cama?
- Você falou que estava com medo, eu sentei na sua cama pra te acalmar. Você dormiu no meu colo e quando eu fui levantar, você disse que eu podia ficar ali mesmo. Eu deitei do seu lado e a gente dormiu.
- ...
- Que foi?
- A gente não... você sabe...
- Não! Que é isso, moça? Você acha que eu teria me aproveitado de você naquele estado? Assim me ofende. Além do quê, eu tenho medo de apanhar do seu namorado, você sabe disso.
- Ah. é.
- É sim.
- Ufa.
Ela levantou e foi fazer chá na cozinha. Ele ficou para trás, ainda deitado na cama. Ela era uma amiga que dava muito trabalho, era verdade, mas ninguém mais poderia ser tão amiga quanto ela. Era bonita, inteligente e sempre tentava arranjá-lo com alguém. Especialmente porque ela tinha namorado. Droga.
Ela sorriu enquanto pensava em quanto era grata por ter um amigo como ele. Fora muito melhor acordar de mãos dadas com alguém, especialmente depois do sonho muito estranho que tivera. A chaleira apitou.
Chamou o nome dele e sentou-se na cadeira da cozinha-sala apertada. Abraçou as próprias pernas e ficou pensando. O chá quente fumegava na sua frente e ela deveria beber para se acalmar e desacelerar o ritmo do seu coração. Tentou lembrar do sonho e pensou no que aconteceu.
Daria um bom conto, certamente.
- = -
[... bom dia do foda-se, para todos vocês....]
Saturday, December 22, 2007
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