Wednesday, March 18, 2009

Garotos.

Nunca considerei tratá-la como outra coisa que não minha pequena, irmã mais nova, menina dos olhos e queridinha. Ela tinha os olhos bem vivos, de quem ainda mal começou a viver. Me puxava pelos cantos para contar as coisas estranhas e incríveis que aconteceram em seu dia e que, no geral, consistiam nas descobertas mágicas da juventude em desabrocho.

Quase quarenta anos nas costas e você ainda cai num truque desses. Quão patético.

Não sei em que momento aquilo tudo mudou. Se foi num olhar que ela deu ao sair para a festa de uma amiga em comum, que completava seus vinte e poucos anos. Aquele vestido azul, curto demais para o frio da época, com aquele sorriso que soava, tão, mas tão inocente, que dizia tudo e dizia nada.

Talvez foi quando ela te puxou pelas mãos novamente e te arrastou para brincar de algum jogo idiotamente estúpido e delicioso que ela havia inventado e, por um breve momento, você esbarrou seus dedos calejados, cansados e suados no rosto macio e delicado dela. Ela virou para você e quando você ia se apressar a pedir desculpas, ela se adiantou e as pediu, com toda a graça e preocupação do mundo, primeiro. Então, num movimento rápido, infantil e quase calculado, ela ergueu sua mão, aquela mesma que havia trabalhado durante o dia inteiro, e plantou nela um beijo, leve, faérico, quase irreal.

Foi quando ela te procurou no meio da noite com medo da tempestade que caía (ela ainda tinha medo de raios! Ela não era mais do que uma criança.) e perguntou se ela podia dormir no quarto, dizendo que não ia incomodar, ia dormir ali no chão mesmo. E você, obviamente, sonolento (sem segundas intenções, será?), disse que havia espaço na cama. Estava quase dormindo de novo quando ela, já acomodada debaixo dos lençóis, tremeu aquele corpinho pequeno e puxou sua cintura para perto. De repente, você não tinha mais vontade nenhuma de dormir.

Então, eu não sabia mais o que fazer.

Um homem de 39 anos, reduzido a um garoto por uma menina de 19, 20 anos quase completos. Meu deus. E agora, José, o que eu faço agora?

2 comments:

Anonymous said...

Dá no coro, uai.

Thiago said...

Ficou genial o texto molecota =D

Amo você, bom ler seus textos denovo!