Sunday, September 25, 2011

Night in Tunisia.

- Vai querer ajuda pra descarregar?

Ela precisou pedir que ele repetisse a pergunta duas vezes para finalmente entender o que estava sendo dito em árabe. Ela havia estudado a língua, mas aquilo fazia parte de um passado que mais parecia uma outra vida. Entrou com as malas no hotel e deu uma gorjeta (em dólares) para o carregador, que só faltou beijar-lhe os pés.

Entrou no quarto abafado que lhe havia sido reservado. Tinha anos que não se envolvia em expedições arqueológicas como aquelas e muito antes da morte de seu marido ela já se sentia velha demais para aquelas coisas. No entanto, era uma das poucas especialistas em cultura mesopotâmica que não havia desaparecido com a guerra.

Discou o número da recepção e aguardou que uma voz simpática lhe atendesse:

- Recepção, em que posso ajudar?

- Um senhor de cabelos muito brancos e olhos cinzas irá me procurar - faça com que ele suba imediatamente.

- A senhora tem um nome para facilitar a identificação?

Ela pensou consigo mesma um instante.

- Baquér. Ele provavelmente vai se apresentar como M.Baquér.

- D'accord, madame. Tenha uma boa soirée.

A mulher de seus quarenta e tantos anos suspirou consigo mesma e sentiu vontade de dormir. Tirou as roupas de viagem e tomou um banho demorado. Foi apenas quando saiu, cabelos molhados e roupão enrolado no corpo, que deu de cara com seu velho amigo e atual empregador.

- Não fazia idéia que você ainda se lembrava do apelido de infância. - ele disse, sorrindo feito um gato. - É bom saber que sua memória continua intacta mesmo depois dos traumas sofridos.

Ela deitou-se na cama, sem ao menos cumprimentá-lo.

- Foi um chute. - ela respondeu, adotando um tom casual. - Eu imaginei que você fosse querer reviver velhos tempos.

O homem de cabelos brancos e olhos cinzas riu, mostrando dentes alvos e gengivas muito vermelhas.

- Se eu quisesse reviver velhos tempos, estaria deitado ao seu lado.

- Só porque não está não significa que não tenha vontade.

- Touché.

Rafaela ajeitou elegantemente os cabelos e colocou-se numa pose mais séria.

- Afinal, por que me trouxe até aqui?

- Imaginei que você fosse se desesperar após o sumiço do outro lá. Talvez ficasse terrivelmente desocupada e cometesse uma loucura.

- Você poderia ter me mandado para Paris. Ou para qualquer outro lugar do mundo. Por que a Tunísia?

- Porque era onde eu estaria. E você sabe que eu já fiquei anos demais longe de você.

- Um romântico. - ela disse, irônica e lacônica.

- Tenho meu fraco por livros de banca.

- A verdade, Dante.

- Qual delas?

- Por que você me tirou da Itália e me trouxe para Tunísia, após saber que meu marido morreu na guerra e eu estava verdadeiramente sem dinheiro? Não posso acreditar que é simplesmente por bondade.

- Além do fato de que eu nunca te esqueci?

- Além disso.

- Você é a única sobrevivente da expedição Finx. Donny, Aleksandra e Diego morreram - de tuberculose, guerra e amor partido, respectivamente. Kant está atualmente num manicômio inglês, com uma sentença de morte pairando sobre sua cabeça.

- Eu ouvi sobre os atentados à Rainha.

- E não preciso, óbvio, lembrar qual foi o destino de nosso querido Amadeus?

- Só porque você não gostava de meu marido não precisa usar esse tom de desdém quando fala dele.

Dante sorriu e sentou-se ao lado dela na cama. Um momento de silêncio transcorreu antes que ele alcançasse uma mecha do cabelo dela e a trouxesse junto ao seu rosto.

- Você me arrastou semi-morto daquela maldita tumba no meio do Sahara, Rafaela. Convenceu o grupo de que valia a pena salvar um pobre mercenário ladrão-de-tumbas e nos guiou para fora daquele terror após a tempestade de areia. Eu nunca conheci uma mulher como você - nobre, bonita, forte e extremamente inteligente. Não consigo me conformar com ter escolhido Amadeus para se casar.

- Quando claramente você era uma escolha muito melhor, Baquér? Ladrão de jóias barato, ladrão de corações barato e traidor das pessoas que te salvaram por pouco mais do que 33 moedas de prata. - ela cuspiu, cheia de desprezo. O homem não pareceu se importar.

- E ainda assim, cá estamos.

- A guerra muda muitas coisas. Uma garota faz o que pode pra sobreviver.

- Você já não é mais aquela garota.

- Não, não sou. Sou uma mulher adulta e com muito mais descrença na boa fé das pessoas. E por isso que não saio desse hotel sem que você me diga por que me trouxe até aqui depois de todos esses anos.

- Preciso voltar para a tumba, querida. E não consigo pensar em outra pessoa melhor para me guiar.

- Até o Inferno? Vai sonhando.

- Eu posso pagar bem. Você nunca pensou em revisitar aquele lugar, quem sabe descobrir o que finalmente a aguarda atrás do véu?

- Já refiz esse caminho muitas vezes em meus pesadelos, obrigada.

- Rafaela. - ele segurou o queixo da mulher delicadamente e olhou em seus olhos. - Eu preciso de você.

- Vá se ferrar.

As bombas rugiram lá fora e as noites na Tunísia, de repente, não pareciam mais tão tranquilas.

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