Friday, October 31, 2008

Deuses e Monstros.

Coisas que só a memória explica. É engraçado como depois de tantos anos ela parece se esquecer de coisas tão fundamentais: nome de parentes, amigos, momentos... e se lembrar das coisas que eram detalhes, meros detalhes num quadro maior, são tão nítidos que se a gente fechar os olhos, consegue enxergar como no dia que aconteceram.

A cor dos olhos daquela menina no Carnaval de 36. Sentada ao lado dos seus pais, não tinha mais do que quinze anos, com os olhos lilases sorrindo para mim, mesmo que seus lábios continuassem crispados, certamente para não denotar o interesse ao pai.

Não sei quem ela era.

Ou também, o jeito como o soldado alemão sorria para a morte certa, de braços abertos quando minha metralhadora atingiu o seu peito em cheio. Não lembro que situação foi. Não lembro se foi na guerra ou se foi mesmo um sonho de guerra, mas o sorriso maníaco dele, a maneira de caminhar em direção a morte... Eu poderia ter me apaixonado por ele ali.

Não sei.

São 87 anos de vida. É muito tempo, é muita coisa. Não lembro mais de quando minha filha nasceu. Minha mulher é uma figura borrada em minha memória, mesmo depois de 50 anos de casado. Alzheimer é uma doença triste.

Será que tenho mesmo Alzheimer? O médico diz que sim e por algum motivo, esse fato fica marcado na minha cabeça. Mas tem tanta coisa que me lembro! Não é o que esqueci que me traz inquietude, é o que me lembro. Por que? Por que essas pequenas coisas ficam?

É o que realmente fez minha vida valer? Os pequenos momentos que eu nunca dei atenção? É tão injusto. E Lucia? E Almira? Minhas netas cujo nome não sei? São menos importantes do que olhos lilases, o soldado alemão? Eu não sei.

Eu não sei. O branco chega aos meus olhos de forma ameaçadora. Eu quero chorar, mas não tenho certeza se me lembro de como fazer isso. O mundo apaga. Fico em paz.

1 comment:

Thiago said...

Seriam os olhos do soldado alemão lilases? =)