Saturday, November 01, 2008

Espera...

Anos atrás, quando eu não era mais do que uma fedelha com 16 anos, eu vi um rapaz no metrô de Paris. Não falava uma palavra em francês, mas a linguagem do sorriso é universal.

Conhecemo-nos esperando o trem chegar. Eu tinha que ir à estação da Champs-Elyseés, Place de La Concorde, onde iria visitar o Arco do Triunfo. Era minha primeira vez na cidade, então, eu estava todo pulinhos saltitantes e nhá. Sorria para Deus e o Mundo, porque simplesmente não conseguia parar de lembrar da minha sorte imensa de estar ali, na cidade dos meus sonhos.

Ele carregava uma pasta A3 e parecia ser tímido. Tinha cabelos castanhos curtos e um pouco revoltados, os olhos da mesma cor, um pouco mais claros, e a pele branquinha. Era um tipo bem normal pelos que andavam em Paris: não tinha as invejadas íris claras, não usava um traje estranho... não, ele era perfeitamente comum.

De vez em quando, ajeitava a jaqueta jeans que usava e arrumava a pasta para que ela não lhe escapasse os braços. Nâo sei quando seu jeito me chamou a atenção, mas eu passei a discretamente observá-lo, porque...sabe lá o porquê.

Será que ele já me sentia observando-o? Não sei, mas eu preferia, aliás, que assim fosse. Não gostava de ser observada de volta. Preferia passar incógnita na multidão: quem era eu pra ser vista? Eu não tinha nada de especial e, pior, se tentassem algum tipo de contato verbal comigo, eu ficaria apavorada, já que as únicas palavras que sabia arranhar em francês envolviam comida, 'merci', 'párdon', e 'd'acor'.

O metrô chegou e eu me agarrei ao braço de minha mãe, para que não nos separassemos com o fluxo imenso de pessoas que entrariam. Sainte-Michel era onde iríamos parar, o que não ficava muito longe, mas aí teríamos que pegar um longo caminho dentro do metrô, por cima de esteiras rolantes (!!) e chegar a outra estação 'Sainte-Michel-Notre-Dame".

Entrei, já quase esquecida do moço que estava observando, e então, senti um par de olhos me fitando de não muito longe. Ele estava à minha frente, poucos passos de mim, do outro lado da porta.

Muitas pessoas passavam e vinham na frente, mas eu sentia seu olhar por sobre mim e eu sorri. Sorri bem abertamente, como eu sempre faço, porque não sei sorrir direito de outra forma.

Ele desviou o olhar e eu também, mas logo voltamos a nos ver, mais discretamente. Sorri de novo, como que para encorajá-lo. O moço ajeitou a jaqueta e a pasta no colo, passou a mão no cabelo. Endireitou as costas e quando se achou pronto, abriu um daqueles sorrisos fofos e tímidos, que ia de uma orelha a outra, e seus olhos brilharam. Acho que os meus também.

A viagem passou mais rapidamente do que eu queria. Levantei para sair, meio nhé pela situação. Pensei nele como um excelente material para um conto e prometi usá-lo em uma de minhas pequenas histórias, torcendo para que ele também pensasse em me desenhar numa de suas artes.

Eu ia virar e lançar um tchau pra ele, ou uma piscadela ou algo. Então, percebi que ele também estava de pé, duas pessoas atrás de mim. Ele ia descer no mesmo lugar que eu!

Quase pude o imaginar sorrindo e pensei que um dia, voltaria a encontrá-lo, quando viesse novamente a Paris. Saímos da estação, e ele estava logo atrás de mim na escada rolante. Senti sua mão em minhas costas timidamente, e quando virei, ele abriu um sorriso bonito. Eu não sabia o que fazer, mas sua mão desceu e encontrou a minha.

Senti um arrepio: era quente, era do tamanho certo para o qual a minha fora feita. Virei pra trás e sorri de novo, tomando cuidado com meus pais logo a frente. Ele encostou a cabeça atrás de mim.

Eu queria muito abraçá-lo e fugir com ele. A escada rolante acabou e nos separamos. Ele piscou pra mim e eu retribui. Não o vi mais.

Passei o resto da minha viagem esperando encontrá-lo de novo. É claro, ele poderia não lembrar de minha pessoa, mas, quem sabe, né?

E aqui estou eu. 10 anos depois, procurando a mesma pessoa. Não sei nome, não sei nada sobre ele. Não sei se ele ainda está vivo ou aqui. E será que ele estava casado?
Será que valia a pena encontrá-lo?

Eu não conseguia tirá-lo da cabeça, um homem que provavelmente só existiria na minha mente. Poderia me decepcionar imensamente quando o visse. Mas não poderia deixar de tentar?

Seu sorriso nítido na memória, o calor da mão dele na minha era impossível de ser esquecido. Eu queria saber se ele tinha existido, se eu não havia sonhado com tudo isso.

Era preciso procurar e era preciso ter fé. Paris era grande, mas não havia um sonho que não se realizasse nessa cidade. E eu rezava toda noite para que o meu fosse o próximo...