Friday, May 01, 2009

I'm the man who lives next door.

Ele deixou um bilhete de boas vindas, enquanto ela estivera fora, acertando toda a papelada - ainda pendente - em relação à mudança. Os correios eram particularmente chatos quanto à isso e tudo que se fazia lá precisava ser retransmitido para pelo menos três seções burocráticas, que demoravam horas para aceitar o simples fato de que ela havia se mudado de uma rua para outra.

Seja bem vinda à vizinhança. Espero que se sinta à vontade e, qualquer coisa, pode tocar na casa ao lado. Ass: Seu vizinho, P. T. Barr.

Ora, pensou ela consigo mesma, ao terminar de ler a nota deixada em cima do tapete de entrada. "Ao mesmo tempo que o gesto é simpático, as palavras dão um tom tão... criptico ao bilhete. Quem será o senhor Barr?"

Ela decidiu que seria de bom tom retribuir a gentileza. Foi até a cozinha e desembalou todas as panelas e utensílios. Encarou-os todos com uma certa tristeza. Sua mãe usara-os tanto que pareciam estar marcados com suas digitais.

"Mamãe teria gostado dessa casinha". Sacudiu a cabeça ao pensamento. "Mamãe morreu num acidente de carro, junto com papai e Phillipe". Hora de seguir em frente, não é?

A casa estava comprada em seu nome desde sabe lá deus quando. Parecia quase um presente de despedida de sua família e ela o aceitara de bom grado. Gostara da vizinhança e o lugar ficava perto tanto do estágio quanto da faculdade de Artes que ela fazia.

Ela começou a cozinhar um doce de limão e frutas cítricas, na verdade, e o terminou em menos de meia hora. Colocou-o na geladeira e sentou-se à mesa enquanto o esperava resfriar. Pensava no bilhete e em como respondê-lo.

"Obrigada pelas boas vindas. Espero que aprecie o 'gelato'. É um doce de família. Espero ter o prazer de conversar com o senhor em algum momento. Ass: L.S. Dantes."

Riu quando lembrou o que as iniciais de seu nome formavam. Alguém poderia ter sido mais azarado na escola que ela? Lembrou-se imediatamente do garoto chamado: Uáldisnei . Ao menos ela tinha iniciais não propositais. Pobre Uáldisnei.

O doce não precisava de muito tempo de freezer e ela o retirou, arrumou numa bonita travessa, prendeu o bilhete com um pequeno alfinete. Parecia bem bonito e trabalho de uma moça fina e arrumada.

O levou porta ao lado e deu duas batidas na porta, às quais depois de dadas, ela retirou-se sorrateiramente. Não queria falar com ninguém no momento. Já o fizera demais quando teve que explicar para 5 funcionários do correio que ela não queria enviar um pacote para fora do país, e sim, que apenas se mudara. Voltou à sua casa e ajeitou-se para dormir, na cama recém-montada da mudança.

Um rapaz-quase-homem abriu a porta da casa do lado e sorriu ao ver o doce e o bilhete. 'Senhor?", pensou ele. 'Só porque eu sou educado todo mundo pensa que sou velho...".

Ele voltou para casa e observou a janela que dava para a sua vizinha. Viu-a deitada numa cama grande demais. Voltou-se para sua prancheta de desenhos e terminou de rascunhar o desenho que havia começado dela.

2 comments:

Anonymous said...

I'm a Replica of me...

Thiago said...

Sou um senhor. Acho. Mas nem sou velho. Acho.