Há muitas coisas que a gente só vê em cemitérios. Além de cadáveres e pessoas estranhas com suas maquiagens pesadas, há uma paz que só consigo atingir quando estou deitada por sobre uma das lápides.
O coveiro que, depois de tantos anos de convivência, se tornou um bom amigo, não se importa mais que eu fique ali, fazendo-lhe companhia e também aos mortos. Quase sou confundida com uma deles, já que me mantenho calada e o único som que me diferencia é o da respiração profunda.
Muitas vezes eu durmo e sonho. Sonho com as vidas dos vários mortos estendidos ali, devorados por vermes simpáticos que acabam com todo o sofrimento e dão um nobre fim à carne. Fecho os olhos e consigo me imaginar em seu lugar.
Minha mãe crê que sou doente. Não duvido muito. Há dias que a sensação que tenho é de que estou aqui de passagem, como uma criatura mágica e etérea que não pode ficar muito tempo no cinza.
Não estou muito preocupada com o que vai me acontecer. A morte é inevitável e até bem vinda. A dor, por outro lado, não é nada desejável e também não posso contê-la. Respiro fundo e abro os olhos, apenas para encarar outro par observando-me.
Ele é bonito e suas íris são verdes. Sorri e seu rosto parece o acompanhar no processo. Eu não consigo evitar a retribuição e dou minha melhor torção de boca. Um besouro zumbe ao lado e ele resolve sentar ao meu lado. A lápide é grande.
I didn't know I'd love you so much.
I didn't know I'd love you so much.
I didn't know I'd love you so much.
But I do.
Wednesday, May 06, 2009
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