Burburinho na platéia, as cortinas vão subir. O palco está agitado e as cochias em polvorosa - a da Arlequinada vai começar.
O grande público espera ansioso pela entrada do primeiro ator. Cenário arrumado, figurino impecável. O principal sorri, disfarce para sua dor de perda recente. Um recém-casado, uma pequena confusão de família. O plot perfeito.
A Arlequinada é uma peça cruel, sadicamente engraçada. A Arlequina é a personagem secundária de todas as histórias que se entrelaçam naquele pequeno espaço físico e temporal, a única que entende e ri de sua simplicidade mortal.
Como uma piada.
Ela nunca está em destaque, sempre nos bastidores, fazendo parte da cena, uma pequena senhorita de olhos oblíquos e sorriso dissimulado. Um humor doentio, não era engraçada a desgraça alheia? Tão simples, tão óbvio, tão risível. Ha ha ha, o grande público não se cansa, e os atores continuam com seus papéis, mostrando os dentes amarelados num riso fraco e com as lágrimas na beirada dos olhos.
Só a Arlequina ri, porque ela sabe o segredo da Arlequinada, tão grande e engraçado como ela própria.
A sanidade nos deixa louco, faz com que nos ceguemos para a verdade, e ela se sentia uma desvairada. Por que, por quê? Ela só dançava naquele vil cabaré e sorria enquanto mostrava as pernas.
Ela tinha sua Pierrot dentro, tinha sim. Mas era Arlequina porque sabia rir de sua própria desgraça interna, o que faltava tanto naquele mundo.
A Arlequinada seria tão mais simples se as pessoas soubessem como fazer isso.
A diferença entre a Arlequina e o resto do elenco, era apenas um dia ruim. E somente uma pessoa na platéia notava sua existência no púlpito, tão mascarada e imperceptível.
Mas ela não estava rindo.
A cortina caiu e o público aplaudiu. O rapaz da fileira D, cadeira 42, era o único que chorava.
"Que bom", pensou Arlequina enquanto curvava-se diante das palmas. "Finalmente, alguém entendeu a peça."
Ouvindo: "This Vicious Cabaret" - David J.
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2 comments:
Complexo demais para meus padrões. Mas sempre, como é de se esperar, muito bom.
A única coisa que me chateia é que nem sempre as entrelinhas ficam claras, não todas. Ainda assim, o que é dito hoje muitas vezes só vai ser ouvido amanhã e entendido na semana que vem. É como a vida, não dá para se esperar que tudo seja rápido, mas ela mesma não espera por nada. Um paradoxo mortal.
Nha, eu entendi. Mas nao me deu uma sensacao boa at all. Mas essa tbm nao era a intencao, era?
They say there's broken light for every heart on Broadway. They say life is a game and then...
They give you masks and costumes and an outline of the story... To improvise this vicious cabaret!
Essa musica e foda e sinistra e eu adoro.
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