Ela olhou para os lados e não viu ninguém. O que era bom, por um lado. Menos gente significava menos pessoas a vigiando, a controlando. Não gostava de pessoas, elas eram más. Por outro lado, menos pessoas a vigiando significava que mais pessoas más poderiam vir e fazer o que quisessem com ela.
Como se, claro, tivesse pessoas ali, algo seria impedido de acontecer. Elas não se importavam, não é? Nunca se importavam.
Atravessou a rua e entrou no colégio que estudava desde os três anos. Sentia-se familiarizada com o local - conhecia todas as suas saídas e atalhos que poderia usar para se esconder.
As pessoas continuavam a perseguí-la por aí, entravam na sala de aula de História. Ela se encolheu, sentia-se tão sozinha. Escolheu um lugar na frente. O professor era uma figura assustadora e ao mesmo tempo, necessária. Ele iria protegê-la daquelas outras crianças imaturas e instintivamente cruéis que a rodeavam.
Não fora assim quando ela era menor e sua mãe deixava-a solta por aí? Por que não seria agora? Ela não via motivos.
Hoje, o professor e o jornal e o rádio e as pessoas na rua falavam de morte. Alguém muito importante morrera, tragicamente. Ela começara a pensar, pensar. A morte não lhe parecia tão ruim, afinal. Não iria sair dali?
Talvez ela tivesse uma segunda chance em algum outro lugar. E por que não? Ela merecia, não merecia?
Tinha quinze anos, mal começara a viver, e já pensava em partir. Menos O2 sendo gasto, menos lixo sendo produzido, menos uma boca pras economias apertadas de seu pai alimentar. Que bem trazia sua existência?
Nada.
A morte lhe parecia uma maçã lustrosa, uma nova oportunidade. Talvez fizesse direito dessa vez, talvez tivesse melhor sorte. Fosse mais bonita, mais inteligente, sabe lá.
Ela sorriu por um instante, no caminho de volta para casa.
Era contraditório, ela sabia, com sua percepção meio alheia a realidade.
Só que finalmente ela achara um objetivo em sua vida.
Ouvindo: Luz dos Olhos - Cássia Eller.
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1 comment:
Ok, desta vez não tenho nenhum comentário engraçado para fazer. Até porque não achei isso lá tão cômico assim.
Não vou deixar de lado os elogios pela excelente narração, mas para e pensa um pouco melhor.
Quinze anos... tão pouco a se perder e ao mesmo tempo tanto a se descobrir. É bem mais fácil observar, que haverão ainda mias uns 75 anos, que trazem todos os tipos de surpresas ! Se boas ou ruins, depende apenas de como elas serão olhadas. E, se ainda assim você não forem observadas da forma correta, garanto que existem milhares, opa, milhões de pessoas que estarão ali para mostrar o lado correto à ser olhado !
"Ela sorriu por um instante", transforme um instante em uma vida ! =)
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