Tuesday, August 26, 2008

Escolheu o caminho a pé, mas sem muita convicção ou certeza de que era o melhor que faria. A euforia que havia tomado conta da menina segundos atrás quando vislumbrou a possibilidade de ir para casa sem correr muitos riscos havia completamente se esvaido.

Passou pela grade do metrô com um olhar de cachorro pidão, como se isso magicamente pudesse fazer com que o metal se compadecesse e abrisse espaço para ela entrar e chegar à segurança. Não aconteceu.

Tomou seu caminho com a cabeça erguida, tentando não se deixar abater pela longa caminhada que teria que enfrentar. Terminou a primeira rua com uma sensação de vitória, mas em seu íntimo sabia que a parte die hard ainda nem havia começado.

Os carros começavam a cessar seus passeios, nenhum táxi estava a vista. Ela se perguntava pra que serviam os táxis, se não para levar pessoas para casa quando elas não queriam andar e não tinham como pegar qualquer transporte público, o que, fatalmente, só ocorria à noite. Sempre nesse horário eles desapareciam como num truque macabro.

A situação a oprimia e ela só podia apressar o passo. Andou bastante, tomando cuidado para sempre ver se não a seguiam ou se as luzes atrás de si continuavam acesas. Um vento começou a soprar e logo, como não podia deixar de ser, começou a chover, pois, afinal, estava em Londres.

Naná apertou o sobretudo ainda mais contra o corpo, estava ficando frio de verdade e ela não estava acostumada com o clima ainda. Era uma das coisas que sentia falta na cidade: o sol quase nunca dava as caras, diferente do Brasil, e quando o fazia, era motivo de comemoração.

Desencapou o guarda-chuva e o abriu, bem a tempo de evitar que uma chuva ainda mais pesada a molhasse por completo. O "umbrella" era o acessório essencial de todos os que se aventurassem a morar em Londres.

Um gato cruzou sua frente e Naná era uma paulista supersticiosa: não passava debaixo de escada, tomava cuidado pra não derramar sal, não falava "loira do banheiro" na frente do espelho e, principalmente, detestava gatos pretos como aquele. O bichano ainda tentou se amigar mas ela o repeliu com xispa sussurrado baixinho. Ele seguiu seu caminho, sem se abalar, como todo gato, que nunca liga para ninguém além dele mesmo.

Ela continuou andando, até surpresa pela falta de incidentes, mas agora sabia que teria que tomar cuidado redobrado. A placa indicava o bairro de Whitechapel e ela sabia que ali sempre morara o perigo...

1 comment:

Bruno Lopes said...

AE MTO BOM ;DD