"So it hurts to be alive, my friend, in this masquerade we all one day must die."
Veja as cortinas se levantando! Outra peça está começando a ser apresentada, você não quer sentar e assistir...?
Ela parou em cima da pedra na borda do rio e observu a floresta negra que se erguia do outro lado. Podia perfeitamente entender porque os irmãos Grimm escolheram um lugar como a Alemanha pra inventar suas fábulas tenebrosas, com lobos comedores de vovozinhas e bruxas más em torres altas que comandavam destruição e medo.
Era realmente tenebroso, era realmente para se ter medo. A noite começava a cair e ela entendeu que, talvez, não fosse seguro de verdade estar tão perto assim daquele lugar de onde qualquer coisa poderia sair. Mesmo de dia, aquele lugar parecia aprisionar a luz em algum confim e nunca, nunca deixar que ela encoste o chão. Parecia eternamente frio, apesar do verão.
Lucilla não era dali e nem pretendia se acostumar. Strasbourg, na região de Alsácia e Lorena, ficava numa fronteira inexistente entre o alemão e o francês. Seus habitantes eram sombrios e não gostavam de quem vinha de fora, mesmo pra quem ia estudar numa escola famosa de artes que ali se encontrava e que gerava uma renda anual decente para a cidade graças à alta mensalidade que cobrava. Ela tinha a impressão de que especialmente esses eram os mais detestados.
A Lua se ergueu no céu, grandiosa e finalmente soberana na noite escura que só estendia suas garras a partir das 22h, 23h durante aquela estação. A menina de cabelos negros e olhos castanhos pulou do lugar onde ela buscava inspiração e pareceu muito baixinha pra quem a observou naquele instante.
Estava quase desistindo do curso. Os professores eram bons, mas estranhos, frios, mecânicos na sua originalidade. A cidade definitivamente não era acolhedora, o custo de vida era alto, e era exatamente nisso que ela pensava quando caminhava de volta para o lugar onde morava, na periferia de Strasbourg, num bairro chamado Koeningshoffen, perto de Hautepierre. Casinha simples, mas cujo aluguel cobravam o olho da cara! 50 dinheiros! Era muito, um nível absurdo e ela ainda tinha que andar tanto para chegar à escola...
Prestou atenção ao caminho, enquanto dava às costas para o mundo sombrio medieval lá fora. A catedral gótica já podia ser vista quando ela se deu conta de que andara demais e passara a entrada que a levava para o bairro isolado onde vivia.
A catedral era um lugar bonito. Parecia realmente um reino de santidade em meio aos terrores noturnos que espreitavam do lado de fora. Lucilla ouviu uivos e pensou que talvez fosse uma boa idéia acelerar o passo.
Não gostava de lobos e a idéia de morar perto de uma floresta infestada com matilhas deles não lhe era aprazível. Mais um motivo para trancar o curso e ir fazer suas aulas em outro lugar. Ouvira dizer que estavam abrindo um atelie muito interessante em Paris e nesses tempos modernos, quem sabe, eles aceitassem mulheres.
Apressou o passo e passou pela obra faraônica que estavam construindo em Hautepierre: um imenso hospital, que atenderia a necessidade de todos, homens, mulheres, nobres ou pobres. Um avanço impressionante, mas por enquanto, um monte de vigas com um teto, que formavam o refúgio preferido de bêbados, salteadores e sem-teto.
Lucilla sentia um certo frio na barriga ao passar por lá. Nunca se sabe o que poderia atacá-la ali - e ela, bom, ela nunca soube mesmo. O grito veio num susto, junto com a sensação de mãos (ou seriam patas?) em seu pescoço, seguido de um estrangulamento rápido, praticamente indolor, que não deixou um corpo para evidenciar o que acontecera no dia seguinte.
Realmente, o preço da vida estava alto em Strasburgo, e a coisa sabia bem disso também: carne fresca estava cada vez mais minguada e rara de aparecer.
Wednesday, August 06, 2008
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2 comments:
50 dinheiros!!!??? que roubo!!
Os escravos servirão, só os fortes sobrevivem, por vezes a força é exatamente o que a palavra diz, força, física, estratégica, te pegando de surpresa mesmo quando você espera que ela venha...
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