Wednesday, August 06, 2008

The Human Stain

"So it hurts to be alive, my friend, in this masquerade we all one day must die."

Veja as cortinas se levantando! Outra peça está começando a ser apresentada, você não quer sentar e assistir...?


Ela parou em cima da pedra na borda do rio e observu a floresta negra que se erguia do outro lado. Podia perfeitamente entender porque os irmãos Grimm escolheram um lugar como a Alemanha pra inventar suas fábulas tenebrosas, com lobos comedores de vovozinhas e bruxas más em torres altas que comandavam destruição e medo.

Era realmente tenebroso, era realmente para se ter medo. A noite começava a cair e ela entendeu que, talvez, não fosse seguro de verdade estar tão perto assim daquele lugar de onde qualquer coisa poderia sair. Mesmo de dia, aquele lugar parecia aprisionar a luz em algum confim e nunca, nunca deixar que ela encoste o chão. Parecia eternamente frio, apesar do verão.

Lucilla não era dali e nem pretendia se acostumar. Strasbourg, na região de Alsácia e Lorena, ficava numa fronteira inexistente entre o alemão e o francês. Seus habitantes eram sombrios e não gostavam de quem vinha de fora, mesmo pra quem ia estudar numa escola famosa de artes que ali se encontrava e que gerava uma renda anual decente para a cidade graças à alta mensalidade que cobrava. Ela tinha a impressão de que especialmente esses eram os mais detestados.

A Lua se ergueu no céu, grandiosa e finalmente soberana na noite escura que só estendia suas garras a partir das 22h, 23h durante aquela estação. A menina de cabelos negros e olhos castanhos pulou do lugar onde ela buscava inspiração e pareceu muito baixinha pra quem a observou naquele instante.

Estava quase desistindo do curso. Os professores eram bons, mas estranhos, frios, mecânicos na sua originalidade. A cidade definitivamente não era acolhedora, o custo de vida era alto, e era exatamente nisso que ela pensava quando caminhava de volta para o lugar onde morava, na periferia de Strasbourg, num bairro chamado Koeningshoffen, perto de Hautepierre. Casinha simples, mas cujo aluguel cobravam o olho da cara! 50 dinheiros! Era muito, um nível absurdo e ela ainda tinha que andar tanto para chegar à escola...

Prestou atenção ao caminho, enquanto dava às costas para o mundo sombrio medieval lá fora. A catedral gótica já podia ser vista quando ela se deu conta de que andara demais e passara a entrada que a levava para o bairro isolado onde vivia.

A catedral era um lugar bonito. Parecia realmente um reino de santidade em meio aos terrores noturnos que espreitavam do lado de fora. Lucilla ouviu uivos e pensou que talvez fosse uma boa idéia acelerar o passo.

Não gostava de lobos e a idéia de morar perto de uma floresta infestada com matilhas deles não lhe era aprazível. Mais um motivo para trancar o curso e ir fazer suas aulas em outro lugar. Ouvira dizer que estavam abrindo um atelie muito interessante em Paris e nesses tempos modernos, quem sabe, eles aceitassem mulheres.

Apressou o passo e passou pela obra faraônica que estavam construindo em Hautepierre: um imenso hospital, que atenderia a necessidade de todos, homens, mulheres, nobres ou pobres. Um avanço impressionante, mas por enquanto, um monte de vigas com um teto, que formavam o refúgio preferido de bêbados, salteadores e sem-teto.

Lucilla sentia um certo frio na barriga ao passar por lá. Nunca se sabe o que poderia atacá-la ali - e ela, bom, ela nunca soube mesmo. O grito veio num susto, junto com a sensação de mãos (ou seriam patas?) em seu pescoço, seguido de um estrangulamento rápido, praticamente indolor, que não deixou um corpo para evidenciar o que acontecera no dia seguinte.

Realmente, o preço da vida estava alto em Strasburgo, e a coisa sabia bem disso também: carne fresca estava cada vez mais minguada e rara de aparecer.

2 comments:

Thiago said...

50 dinheiros!!!??? que roubo!!

Anonymous said...

Os escravos servirão, só os fortes sobrevivem, por vezes a força é exatamente o que a palavra diz, força, física, estratégica, te pegando de surpresa mesmo quando você espera que ela venha...