Friday, August 22, 2008

Trocando em Miúdos.

Bateu o portão sem fazer alarde, levando a carteira de identidade, olhou para trás como numa saideira, com muita saudade, sem conseguir evitar o pensamento de que, que pena!, já ia tarde.

Seu rosto não estava molhado - ele se contorcia por dentro para evitar a qualquer custo derramar uma lágrima sequer. O corvo se agitou dentro dele como quem deseja gritar e sair voando para longe, tão longe que nunca mais ouvissem falar dele.

'Minha hora e vez ainda hão de chegar!', ele repetia para si mesmo, enquanto caminhava sem saber direito para onde ir. Não tinha um apartamento ainda, estava hospedado num hotel do outro lado da cidade. Poderia ter pedido mais uma semana naquela casa que compartilhou por tantos anos com ela, mas não queria. Era sofrer demais.

A família nova chegaria ainda naquela tarde e ele não queria estar lá para recebê-la e despedir-se, como era o costume na cidade. Não, ele deixara um bilhete dizendo alguma coisa sem sentido e gentil para eles e queria ir logo achar um canto novo para morar.

Menos de dois meses atrás e ele vivia como num sonho, naquela casa esverdeada - a cor que ela mais gostava! -, fantasticamente mobiliado com as pequenas coisas que deixavam sua vida feliz. O sofá que demorara anos para ser comprado e que durante muito tempo fora apenas um caixote enorme velho no qual viera a geladeira. A TV que ganharam de presente quando casaram, o fogão de quatro bocas que ela fazia o jantar toda a noite, não porque era obrigada, mas porque gostava de cozinhar.

E de repente, ele acordou e tudo aquilo parecia tão distante, mas tão distante, quase que como nunca tivesse acontecido. Nem o cheiro dela ele conseguia lembrar, não lembrava de como ela gostava de deixar as flores... nada.

O dia fechou e ele resolveu ir para o hotel, sua casa passageira. Ele também estava só de passagem por ali, como que num limbo entre a vida com ela e agora... o resto dos seus dias.

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