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A menina é tão bonita, tão bonita que eu não consigo me esquecer dela mesmo fazendo oitoscentos anos que eu não a via. Ficou marcada como a mulher perfeita na minha cabeça e toda vez que eu pensava em moças, era o rosto dela que me vinha à mente.
Talvez tenha perdido muitas mulheres perfeitas ao longo da existência por causa daquela que eu nunca namorei, nunca amei, mas nunca consegui esquecer. Às vezes, duvidava que a tivesse visto realmente. Poderia ser um sonho e eu não seria o primeiro idiota a fazer isso.
Procurei-a por todos os lados, várias vezes e nunca a encontrei de novo. Foi bom? Não sei. Talvez eu tivesse me decepcionado, se a visse, mas eu esperava que ela mantivesse o calor das mãos que um dia eu, num ato de coragem, agarrei na escada do metrô.
Eu queria ver de novo o sorriso aberto dela. Era o retrato deste sorriso perfeito que emoldurava a minha estande no meu lugar de sempre no Montmartre, reduto dos pintores.
Todo dia, eu procurava uma jovem com um sorriso igual, os mesmos cabelos encaracolados, e olhos brilhantes. Eu queria minha musa que nunca soube quem era. Dez anos atrás, eu queria tê-la agarrado no metrô e fugido com ela para longe.
Nem sabia qual seria a reação dela. Parecia acompanhada pelos pais. Talvez fosse turista. Talvez fosse um sonho. Mas eu a procurava. Porque quem vai a Paris uma vez, sonha em voltar.
Sonhos aqui não faltavam e toda vez, quando chegava de manhã cedo no meu local de trabalho, com a mesma pasta A3 que um dia eu usei há dez anos atrás, eu olhava para o rosto dela, que nunca mais me saíra da mente, e torcia para que hoje fosse o dia que o meu ia se realizar.
Às vezes, tinha medo que ela tivesse me esquecido. Quer dizer, ela era uma estranha que um dia eu peguei a mão no metrô. Ela teria sentido esse momento tão importante como foi pra mim? Teria mudado a vida dela, como mudou a minha?
Eu conversava essas coisas todas quando montava a minha barraca e seu retrato mudo respondia-me com olhos brilhantes que eu mesmo havia feito. Ela dizia-me coisas que eu não era capaz de compreender.
Juro que tentei descobrir qual era a língua que ela falava com os pais. Depois de anos de pesquisa, reduzi minhas opções a três: espanhol, italiano ou português. Eram todas muito parecidas, e eu queria ser capaz de me comunicar com ela quando ela chegasse.
Eu tenho certeza de que um dia ela vai.
Saturday, November 01, 2008
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