Sunday, November 16, 2008

Lollipop.

Pop. O chiclete estourou em seu rosto e ela limpou o que dava com a língua. Detestava quando não conseguia pegar tudo. Teve que usar os dedos e sempre sentia que isso estragava o que estava comendo.

Pegou um papel qualquer no bolso, tirou o chiclete da boca e jogou fora na primeira lixeira pela qual passou. Sentiu-se triste e entediada ao fazer isso. Mastigar era bom. Dava alguma coisa a qual se concentrar enquanto esperava.

Rodou a quadra uma, duas, três vezes. Parou na padaria da esquina, ciente de que estava parecendo louca. Estava esperando o namorado sair daquela casa. Tinha medo do que iria lhe dizer, mas era algo que precisava ser dito.

Se perguntou por um instante porque padarias tinham que ser de esquinas, mas com um sacudir de cabeça, tirou esse pensamento supérfluo e incômodo do seu foco. Ele voltou para sua gaveta no subconsciente, da onde não sairia por um bom tempo, assustado pela agressividade do cérebro onde se instalara.


A menina comprou um pirulito daqueles redondos, rosados e com chiclete ruim no meio. Colocou inteiro na boca e ficou com ele lá, mexendo cuidadosamente no cabinho e às vezes encostando na pontinha da língua pra sentir melhor o sabor doce.

Ficou uns quinze minutos assim. A padaria inteira voltou os olhos para aquela estranha visitante que parecia destoar tanto do ambiente sujo do lugar. Tinha cabelos curtos, pretos e espevitados, com grandes olhos castanhos. Que coisa curiosa. Parecia ficar olhando o tempo todo para uma janela.

A janela em questão abriu uma frestinha em sua persiana fechada e a menina saltou do banco onde estava empoleirada no balcão. Jogou os trinta centavos no caixa e saiu correndo até a porta do prédio. Um rapaz de olhos claros, cabelos completamente em pé e jaqueta jeans saiu pelo arco e parou na frente dela.

- Achei que você...

- Não viria? Que não saberia que você estava aqui?

- É. Confesso...

- Que você sabia que eu não queria que tivesse vindo? Por quê, afinal?

- Eu tinha medo de que você escutasse o que ela tem a dizer pra você...

- Eu não quero escutar.

- Nem se eu te disser que ela pretende matar você para que você não me mate primeiro?

- Eu não ligo pra sua amiga cigana vidente de merda, Olavo.

- Eu sei, mas eu ligo.

- Não deveria.

- Ela é...

- Eu sei, sua irmã de alma, etc, etc, etc, segundo todas as tradições bizarro-ortodoxas-do-demônio que você segue. Parabéns. E eu sou o quê?

- Minha namorada.

- Pura e simplesmente. Parece que eu dei azar no jogo.

- Você se engana completamente.

- Não parece. A troco de quê eu sou importante? Ela é sua irmã de alma, ou seja lá que porra é.

- Eu escolhi você, não foi o destino que te escolheu pra mim. Faz toda diferença.

- Faz, porque eventualmente, você vai se render ao seu "destino" e pegar essa ciganinha. Eu vou acabar sozinha e fodida, procurando um cara menos imbecil, mas que eu ame tanto quanto você.

- Isso não vai acontecer.

- Eu te detesto, você sabe disso.

- Eu sei. Deveria me detestar mais e ir embora.

- Eu vou. Agora. Eu tinha prometido que iria caso você se encontrasse com essa mulher, essa Esmeralda dos pobres, de novo. Adeus, Corcunda! Eu vou procurar meu príncipe.

- Você é terrível, mulher.

- Eu sei disso. É minha forma de defesa natural. - jogou o lollipop no chão.

Saiu levitando do lugar, sem parte do seu coração, que ficara estilhaçado para trás na porta daquela mulher abominável. Olavo olhou para o rua e água caiu dos olhos dele, em cima do sangue pisoteado, cheio de vidro e um palito com algo rosado onde havia ficado o amor de sua ex. Coração no palito.

Pegou uma borboleta no ar. A persiana abriu-se mais um pouco e olhos verde água ficaram visíveis para quem quisesse na rua ver. Um sorriso meio Gato de Cheschire abriu-se no rosto da cigana e com um farfalhar de saia e tilintar de moedas, a cena inteira fechou-se.

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