
A casa estava abandonada havia anos. Décadas, até, ou era o que o povo do vilarejo ousava arriscar. Ficava no lugar mais afastado, entre as montanhas e perto de um razoável desfiladeiro que dava para um lago azul cristalino.
Fora construído havia pelo menos cinquenta anos, e os donos, um casal de velhinhos com muito dinheiro de aposentado, não viveram muito para desfrutar do conforto do que haviam construído. Não era um lugar grande, mas era ajeitado: uma passarela de pedra atravessava uma parte do desfiladeiro e levava até uma pequena cidadezinha, distante, mais ou menos, um dia de caminhada.
Sua graça mesmo, era o estábulo que ficava ao lado. Um longo pasto se estendia por um bom tempo, com uma inclinação boa para se criar cavalos, e terminava com uma vilazinha ao seu pé. Sempre poderia se ver umas crianças brincando por ali, e, na falta de pessoas que domassem os cavalos, era sempre uma aventura perigosa que elas adoravam participar.
Os velhinhos eram muito simpáticos, e, para os bravos que aguentassem a subida, sempre os aguardava um belo lanche com direito a várias coisas que normalmente não se viam nas casas comuns do lugarejo. Muitos senhores de idade hoje, ainda se lembravam com saudade dos doces que aquela senhora cozinhava com tanto carinho.
Hoje, era só uma casa abandonada e, ainda que bem conservada, causava arrepio. Dizia-se que em certas noites de lua cheia, uivos poderiam ser ouvidos vindo daquela direção, e a casa sempre parecia que cairia com um temporal forte.
A população local instruia seus filhos a não seguirem o exemplo dos pais e nunca subir montanha acima para visitar o começo do estábulo e o casebre. A estrada de pedra estava desgastando pelo desuso constantes, já havia o quê, vinte e tantos anos que ninguém morava lá?
Depois dos Thompsons, que eram como se chamavam os dois velhinhos, ainda passaram por lá mais duas famílias: uma, rica, que usava como casa de campo, logo a vendeu quando em outro lugar privilegiado surgiu uma casa maior, mais legal, e mais ostentosa para se obter.
A outra família, composta apenas de mãe e filha, pouco viveu no lugar. Ambas estavam doentes, mortalmente doentes. Eram muito bonitas, mas absurdamente solitárias e tristes - o que não era de se espantar: como conviver com o fato de que você está prestes a morrer?
Depois disso, a casa esteve vazia. Ou não, se forem contar com os fantasmas que atribuia-se morada por lá. Em termos de carne e osso, no entanto, a casa saia perdendo.
Então, quando Oliver Beetleheart olhou para o ponto distante da janela da sua casa e viu uma luz por lá, não era de todo estranho que se assustasse. Primeiro, do alto de seus quatorze anos, pensou nos fantasmas que poderiam viver por lá. Mas logo lembrou-se de que eles gostavam do escuro: pra que haveriam de acender velas como pareciam ser a fonte da luz bruxuleante?
Puxou o pai pela mão e o trouxe para fora de casa, dizendo "Olha pai, olha lá!", e apontando. O Sr. Beetleheart, que muito frequentara a casa durante a infância, tomou um susto ao, não só ver luz na cozinha do lugar, como ouvir um relinchar de cavalo.
Apertou a mão do filho e disse em alto e bom som que o proibia de ir até lá. Sabe lá Deus o que os fantasmas das duas moças poderiam estar fazendo, e mais!, pelo jeito, ainda existiam cavalos não domados pela região, era perigoso.
Oliver sorriu e não prometeu nada ao pai, pois era um garoto de palavra.
Mas que sua curiosidade fora atiçada por aquele quadro bizarro... ah, fora. Pela primeira vez, então, ele não planejava sufocá-la.
1 comment:
Aguardando a parte 2 =P
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