
Ele chegou montado num velho pangaré branco. O animal, conseguido numa estalagem há alguns dias de viagem, já havia passado do seu auge fazia tempo demais para ser contado. Não que isso o levasse a reclamar: era perfeitamente aplicável o ditado de que 'cavalo dado não se olha os dentes', nesse caso em específico.
Especialmente se, como havia acontecido a Ian, você tivesse passado as últimas semanas andando a pé, e o bicho fora conseguido num jogo de cartas onde foi apostado o que se tinha - e o que não se tinha também.
Se Ian de Canterville não poderia se queixar da sorte que tivera ao ganhar sua montaria, por outro lado, não poderia deixar de praguejar o destino ao encontrar a casa, que procurara com tanto afinco durante tanto tempo, vazia.
Desde que se entendia por gente, Ian fora criado numa casa muito simpática no suburbio de uma cidade grande. Alexa e Phillip, eram um casal de classe média-baixa que se esforçavam para dar a Ian, 'o presente que Deus lhes dera', tudo que pudessem. Aconselhados pela comunidade, decidiram contar a verdade: era adotado.
A notícia não o pegou completamente de surpresa, mas despertou aquela vontade natural de buscar suas raízes: quem eram seus pais?
Os anos passavam e Ian, agora com vinte e dois anos, conseguiu rastrear a trilha deixada por sua mãe e sua, oh!, irmã. Descobrira que elas contraíram uma doença misteriosa e, segundo os melhores médicos, incurável. Não era totalmente incompreensível que quando ela soubesse de sua gravidez, procurasse livrar o filho da angústia do que era viver sabendo que a morte pode vir a qualquer segundo.
Gostaria tanto de saber-lhe os verdadeiros nomes. Em qualquer canto que procurasse, elas se apresentavam com pseudônimos semelhantes: Yvaine, Yanne, Anne, mãe de Luciane, Lucy, Lyra. Passara os meses contando os dias em que finalmente as conheceria.
Era isso que encontrava afinal: uma casa abandonada, uma porta fechada, e mais nenhuma pista.
Quando arrombou a porta e acendeu o primeiro toco de vela que encontrou, pode constatar que os únicos moradores do lugar durante a última década, foram as aranhas, lagartas e, claro, os ratos. Pó cobria todo o lugar, e os móveis ainda estavam dispostos no mesmo lugar. Não se perguntou porque ninguém se dera ao trabalho de assaltar por ali: uma subida daquelas não compensava pelo pouco mobiliário.
Mesmo nunca tendo estado ali, o lugar lhe trazia lembranças tristes. Sentiu-se mais solitário que nunca e, mais que cansado, exausto, com o peso dos últimos seis meses nas costas. Seguiu andando pelo que seria a continuação da estrada de pedra, mas feita apenas com terra.
O velho cavalo, Betto, relinchou ao que parecia ser longe. O pasto estava tendo alguma utilidade, afinal, estava farto demais para um animal que via comida contada há muito tempo. Pelo menos alguém considerou a viagem gratificante.
Ian deu de cara com o desfiladeiro e parou. Seus pensamentos estavam enevoados e seu sorriso manchado de lágrimas. Deu um passo e se viu sem forças para continuar a seguir em frente, o que poderia ser considerado até uma benção, dado a sua posição.
O sol estava nascendo e, sem que ninguém soubesse, munido de apenas uma mochila e uma velha espingarda da qual sua família parecia estar esquecida, Oliver Beetleheart havia começado sua intrépida jornada morro acima.
Era um garoto curioso e estava louco para ver se sua curiosidade seria, por uma vez, bem recompensada.
No comments:
Post a Comment