Era a primeira vez que entrava naquela lojinha escondida de Antiguidades & Conveniências que ficava na sua esquina. Foi com passos cuidadosos e cautela que ela empurrou a porta pesada de vidro, um ar curioso estava em seu rosto.
O velho de óculos meia-lua lançou um olhar para a jovem de cabelos castanhos ondulados que pé-ante-pé, procurava chegar no balcão, observando com calma os penduricalhos e aquele telescópio que ele montara perto da vitrine. Coçou seus cabelos grisalhos que caiam sobre a testa. Ela era bonita. Que iria querer?
A menina encostou na mesa de vidro que ele ficava atrás. Tinha uma mochila preta presa nas costas, e sentiu que o senhor a encarava bondosamente.
- Posso ajudá-la, senhorita? - ele perguntou com a voz rouca de seus quase setenta anos.
Ela abriu o zíper da bolsa, tirando de dentro, um caderno. Vermelho, de capa dura, aveludado. Em letras bonitas, num pedaço branco, estava o nome dela.
- Anna, é seu nome? - ele perguntou com um sorriso de dentes até que bem firmes.
- Anna. - ela respondeu, sorrindo também, timidamente. - Olha...
E abriu seus cadernos. Entre escritos,cartões postais, estavam selos. Um selo por página. Selos lindos, bem feitos, de vários lugares distintos.
- Você...digo, o senhor... não teria selos, coisas assim, sabe, pra vender pra mim..? - ela perguntou, apontando para o que estava no caderno aberto.
- Pode me chamar de você, senhorita Anna. "Senhor" faz com que eu me sinta muito velho. - ele respondeu, piscando um olho, divertido. - Ou, talvez, só de Paul.
- Hm.. - ela sorriu - está bem, Paul.
- Então coleciona selos, é? Há muito tempo que não vejo coleções assim. Os jovens de hoje não estão interessados nesse tipo de coisa.
- É uma das minhas paixões. Era da minha mãe, sabe? - Anna disse, fazendo brilhar os olhos castanho esverdeados dela.
- Sua mãe deve ser uma pessoa muito interessante.
- Era. Ela morreu há alguns anos... - comentou ela, passando os dedos levemente entre as páginas já amareladas do caderno.
Paul calou-se por um momento. Não gostava de tocar em assuntos assim. Nessas horas, sentia o aperto do coração já cansado e o sopro de vento que teimava em não entrar em seus pulmões.
- Eu sinto, querida...
- Está tudo bem, já faz tempo. E os selos?
- Devo dizer-lhe que aqui embaixo, não tenho nada que possa te interessar. Mas, quem sabe, se você voltar amanhã, eu tenha tempo de vasculhar minhas gavetas no andar de cima, e então, poderíamos tomar um chá e conversar...
- Obrigada, senhor...Paul! - ela disse em tom animado - Eu realmente gostaria de completar esse caderno com os selos de cada país.
- Era o que sua mãe iria querer, não?
- Não. É o que eu quero.
E com essas palavras e um toque nas mãos idosas e quebradiças dele, ela deixou a loja, não sem antes guardar, com todo cuidado, o seu caderno de veludo vermelho, bem mais leve do que quando entrara.
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