Sunday, September 25, 2011

Night in Tunisia.

- Vai querer ajuda pra descarregar?

Ela precisou pedir que ele repetisse a pergunta duas vezes para finalmente entender o que estava sendo dito em árabe. Ela havia estudado a língua, mas aquilo fazia parte de um passado que mais parecia uma outra vida. Entrou com as malas no hotel e deu uma gorjeta (em dólares) para o carregador, que só faltou beijar-lhe os pés.

Entrou no quarto abafado que lhe havia sido reservado. Tinha anos que não se envolvia em expedições arqueológicas como aquelas e muito antes da morte de seu marido ela já se sentia velha demais para aquelas coisas. No entanto, era uma das poucas especialistas em cultura mesopotâmica que não havia desaparecido com a guerra.

Discou o número da recepção e aguardou que uma voz simpática lhe atendesse:

- Recepção, em que posso ajudar?

- Um senhor de cabelos muito brancos e olhos cinzas irá me procurar - faça com que ele suba imediatamente.

- A senhora tem um nome para facilitar a identificação?

Ela pensou consigo mesma um instante.

- Baquér. Ele provavelmente vai se apresentar como M.Baquér.

- D'accord, madame. Tenha uma boa soirée.

A mulher de seus quarenta e tantos anos suspirou consigo mesma e sentiu vontade de dormir. Tirou as roupas de viagem e tomou um banho demorado. Foi apenas quando saiu, cabelos molhados e roupão enrolado no corpo, que deu de cara com seu velho amigo e atual empregador.

- Não fazia idéia que você ainda se lembrava do apelido de infância. - ele disse, sorrindo feito um gato. - É bom saber que sua memória continua intacta mesmo depois dos traumas sofridos.

Ela deitou-se na cama, sem ao menos cumprimentá-lo.

- Foi um chute. - ela respondeu, adotando um tom casual. - Eu imaginei que você fosse querer reviver velhos tempos.

O homem de cabelos brancos e olhos cinzas riu, mostrando dentes alvos e gengivas muito vermelhas.

- Se eu quisesse reviver velhos tempos, estaria deitado ao seu lado.

- Só porque não está não significa que não tenha vontade.

- Touché.

Rafaela ajeitou elegantemente os cabelos e colocou-se numa pose mais séria.

- Afinal, por que me trouxe até aqui?

- Imaginei que você fosse se desesperar após o sumiço do outro lá. Talvez ficasse terrivelmente desocupada e cometesse uma loucura.

- Você poderia ter me mandado para Paris. Ou para qualquer outro lugar do mundo. Por que a Tunísia?

- Porque era onde eu estaria. E você sabe que eu já fiquei anos demais longe de você.

- Um romântico. - ela disse, irônica e lacônica.

- Tenho meu fraco por livros de banca.

- A verdade, Dante.

- Qual delas?

- Por que você me tirou da Itália e me trouxe para Tunísia, após saber que meu marido morreu na guerra e eu estava verdadeiramente sem dinheiro? Não posso acreditar que é simplesmente por bondade.

- Além do fato de que eu nunca te esqueci?

- Além disso.

- Você é a única sobrevivente da expedição Finx. Donny, Aleksandra e Diego morreram - de tuberculose, guerra e amor partido, respectivamente. Kant está atualmente num manicômio inglês, com uma sentença de morte pairando sobre sua cabeça.

- Eu ouvi sobre os atentados à Rainha.

- E não preciso, óbvio, lembrar qual foi o destino de nosso querido Amadeus?

- Só porque você não gostava de meu marido não precisa usar esse tom de desdém quando fala dele.

Dante sorriu e sentou-se ao lado dela na cama. Um momento de silêncio transcorreu antes que ele alcançasse uma mecha do cabelo dela e a trouxesse junto ao seu rosto.

- Você me arrastou semi-morto daquela maldita tumba no meio do Sahara, Rafaela. Convenceu o grupo de que valia a pena salvar um pobre mercenário ladrão-de-tumbas e nos guiou para fora daquele terror após a tempestade de areia. Eu nunca conheci uma mulher como você - nobre, bonita, forte e extremamente inteligente. Não consigo me conformar com ter escolhido Amadeus para se casar.

- Quando claramente você era uma escolha muito melhor, Baquér? Ladrão de jóias barato, ladrão de corações barato e traidor das pessoas que te salvaram por pouco mais do que 33 moedas de prata. - ela cuspiu, cheia de desprezo. O homem não pareceu se importar.

- E ainda assim, cá estamos.

- A guerra muda muitas coisas. Uma garota faz o que pode pra sobreviver.

- Você já não é mais aquela garota.

- Não, não sou. Sou uma mulher adulta e com muito mais descrença na boa fé das pessoas. E por isso que não saio desse hotel sem que você me diga por que me trouxe até aqui depois de todos esses anos.

- Preciso voltar para a tumba, querida. E não consigo pensar em outra pessoa melhor para me guiar.

- Até o Inferno? Vai sonhando.

- Eu posso pagar bem. Você nunca pensou em revisitar aquele lugar, quem sabe descobrir o que finalmente a aguarda atrás do véu?

- Já refiz esse caminho muitas vezes em meus pesadelos, obrigada.

- Rafaela. - ele segurou o queixo da mulher delicadamente e olhou em seus olhos. - Eu preciso de você.

- Vá se ferrar.

As bombas rugiram lá fora e as noites na Tunísia, de repente, não pareciam mais tão tranquilas.

Thursday, August 11, 2011

Chega de ser assim.

Sobre uma mudança de perspectiva.

Quando eu era mais nova, costumava adorar ler coisas sobre relacionamentos entre um cara que sabia demais e uma moça, nova, determinada, que não sabia de muito, mas que definitivamente queria aprender.

No geral, acabava com romances baratos e fanfictions pouco interessantes sobre, sei lá, relações 'mestre-aprendiz' e 'cara-mais-velho-e-garota-mais-nova'. No geral, o cara mais velho era um completo bad-ass e a menina mais nova era bastante... bom, ingênua. Ela era ingênua, sim, mas não se via como ingênua e acreditava ser bastante espirituosa. E avançada, pra idade, claro, embora nunca ao nível do cara mais velho.

Acho que porque, em parte, era assim que eu me via - e com esse tipo de personagem eu podia me identificar.

Lembro de ter lido, uma vez, uma pesquisa sobre leitoras e a relação que elas tinha com os personagens. Ficou estabelecido, mais ou menos, que as moças não gostavam muito de ler sobre personagens mais novas do que ela.

Na minha cabeça, isso tem um pouco da sensação de que, se a pessoa é mais nova, então a situação vivida por ela já passou. A oportunidade "real", por assim dizer, que a pessoa teria de vivenciar a mesma experiência, então, ficou no passado. Ficava mais difícil de se pôr no lugar, então.

Não sei se é bem verdade. Acho que tem muito mais a ver com uma questão de idade de espírito do que idade de verdade. Sei lá, vê-se pelo número absurdo de mulheres adultas fãs de Crepúsculo. Elas, teoricamente, não teriam como se identificar com uma adolescente, certo? Bom, errado, aparentemente.

E não sei se essa pesquisa é válida somente com mulheres, acho que é uma coisa mais universal do que a gente pensa. Me lembro de como a febre do Harry Potter pegou mais fortemente em quem era mais novo. Não era, necessariamente, por ser um livro infantil - em toda minha experiência na esfera potteriana na internet, eu encontrei pessoas de mais de quarenta anos completamente apaixonadas pela saga - mas, acho que também rola, sim, uma identificação. Eu sei que eu esperei a carta de Hogwarts aos 11 anos - e como eu, muitos.

Mas enfim, sem entrar no mérito de fuga da realidade, porque agora, o que eu queria discutir mais tem a ver, justamente, com um reflexo da realidade e da sua percepção sobre si mesma, eu vejo que, cada vez mais, tendo a gostar de outro tipo de relação e personagens.

Não uma relação "aluno-professor", não uma relação de "sou-awesome, você, não!". E eu percebi isso muito claramente quando li e assisti Hellsing, que, pra quem não conhece, é um manga (e um anime) sobre uma família que controla Alucard, um vampiro all kinds of awesome, e que também, tem aquela velha tarefa de manter o sobrenatural debaixo dos panos, pra que a pobre sociedade seja poupada.

Enfim, quando terminei de ver a série, eu comecei a procurar mais fanfictions sobre ela, como sempre faço com tudo que eu gosto. E, óbvio, a principal relação que eu encontro, desejada por todos os leitores, é a do Alucard, novamente, vampiro-bad-ass-como-um-vampiro-tem-que-ser, com a policial novata Ceres Victoria, que, no começo da série, é transformada por ele.

E eu simplesmente... não achei plausível. Quer dizer, no geral, nenhuma das relações descritas acima é plausível. Elas são só palatáveis - no sentido de que 'era isso mesmo que eu queria que acontecesse'. Mas dessa vez, não foi o caso.

Não, eu queria ler mais sobre a Integra, a cabeça da família Hellsing, jurada de manter a sua virgindade e que era uma mulher forte, decidida, e, definitivamente, a única pessoa de quem Alucard poderia acatar ordens e ficar numa boa.

Aquilo, para mim, parecia muito mais lógico - por que o Alucard iria perder o tempo dele com uma franguinha como a Ceres, se não para uma diversão besta, se ele poderia ir caçar uma mulher à sua altura (e acho que fui boazinha com relação ao "à sua altura". Ela é bem mais awesome do que ele.).

E sei lá, meus pontos de vista atualmente são desse jeito. Acho que isso se reflete na minha vida - não tenho mais quinze anos, não quero um poço de sabedoria no qual eu possa me apoiar pra seguir minha vida. Embora eu pareça ter quinze anos, eu não tenho mais. Embora meus textos possam soar com uma continuidade estranha, bom, eles não tem mais essa continuidade.

Eu não quero ser a Ceres, não. Eu quero ser a Integra.

Percebi isso novamente quando estava lendo Hemingway, For whom the bell tolls, e senti que minha personagem favorita de todos os tempos era Pílar. Mesmo que eu ainda não tenha terminado, e mesmo que eu tenha um profundo respeito pela Maria, não, eu acho que Pilar é a personagem mais forte e mais bem construída dali. Ela é fantástica.

http://www.youtube.com/watch?v=oJfeCTyTqP8

Então fiquem aí, com suas moças ruivas e inocentes e totalmente submissas à essa porra de sistema, à um cara que saiba a verdade universal. Porque, sim, eu sei que isso tudo tem a ver. Eu já fiz parte. Eu vou lá fora, ver o mundo e ver o que de fato eu posso fazer.


(um caso completamente à parte à esse é o da Rikku em Soldier of Spira. Daí ela não é uma capa pra alguém vestir. Ela é uma puta personagem bem trabalhada. Bem feito pra caralho o lance do autor inverter os papéis.)

Sunday, July 31, 2011

Rafael Gitano

Não podia ser coincidência, ela pensou consigo mesma, parando a porta do metrô e olhando discretamente para o lado. Era a segunda vez na semana que ambos se encontravam casualmente na plataforma - ela com sua mesma vestimenta de ir à faculdade, ele com a mesma vestimenta de quem saiu do trabalho... ou quase.

Ele sorriu consigo mesmo e puxou um palito de dente do bolso, ao qual começou a mordiscar. Em qualquer outro cara, ela teria achado nojento, mas não nele. Ah, não, aquilo era uma estratégia muito bem combinada e arquitetada: a roupa social, paletó e tudo!, acompanhada de um chapéu preto meio jovial e o mordiscar discreto do palito na boca.

Tinha cara de gitano, a moça com o vestido preto refletiu. Alto, um pouco magro, mas que o terno acabava por encorpar, ajuntando-lhe uma ombreira generosa. Cabelos morenos bem aparados, mas ainda assim, um tanto quanto longos. Rosto liso e olhos pretos com jeito de moleque. Ele bem que poderia ser daquele tipo estereotipado dos filmes, sorriu pra si.

O cara lançou um olhar discreto para a garota, que baixou a vista, e o fez rir internamente da discrição alheia. Ele também a notava. Será que deveria se apresentar? "Excuse-moi, est-ce que je peux vous parler deux sec en priveé?", ele diria, carregando no sotaque espanhol.

O metrô chegou à estação e ambos entraram. O ballet durou alguns minutos até que a estação seguinte foi anunciada. Rafael piscou para Lucille e desceu, torcendo para que os suspiros arrancados durassem até um próximo encontro, num outro dia, quando ele tomaria coragem, enfim.

Saturday, July 30, 2011

Retomada.

A terra estava seca e deserta já havia anos. Nem uma gota de chuva, nem uma brisa ligeira para aliviar a dor de seus habitantes - que, em sua maioria, já há muito abandonaram aquele lugar, antes tão belo!, ingrato.

Dois guardas se postavam na porta de um reino em ruínas. Dormiam, subnutridos, em cima de seus próprios estandartes e lanças, sem esperança de que o sol ou um milagre fossem baixar. Uma mosca gorda pousava sobre a pálpebra do mais franzino - o único filho que havia nascido naquele povo.

Então, algo aconteceu.

Como mágica, um vento forte soprou, levando o insetóide gordo para longe, com uma força que há muito não se via. Ambos acordaram sobressaltados:

- Você ouviu isso? - perguntou o mais novo, sem saber do que se tratava.

- Eu... eu acho que sim. - respondeu o mais velho, incerto, sem saber se deveria acreditar no que seus sentidos lhe diziam.

Então, uma nova rajada de ar atingiu-os novamente, levando um pouco do calor e do cinza embora, fazendo com que seus corpos cansados se arrepiassem e algo, ali, mudasse.

- É o vento! É o vento mesmo! - o mais novo comemorou, com a voz fraca. O mais velho não respondeu, a voz embargada, um nó que não descia na garganta.

E de longe, muito longe, eles escutaram música. ("O que é isso, o que é isso?!", perguntava excitado o jovem de não mais de quinze anos, ao ouvir o rufar de tambores, com o ritmo de marcha.)

Não era uma canção qualquer. Um ponto preto no horizonte foi se aproximando, com alguma rapidez, mas ritmo bem marcado pelo bater dos tambores, e pelo caminhar de coturnos sobre a terra curtida. Eram muitos.

Uma menina liderava o bando de soldados bem vestidos e paramentados, com roupas cintilantes como novas, primariamente pretas-e-brancas, mas coloridas, em diversos pontos, com as cores do arco-íris, e, em especial, um vermelho sangue que era muito característico. A flor-de-lis dessa mesma cor marcava a farda na altura de seus ombros.

O mais velho olhou para os traços puídos de sua vestimenta, outrora também uma farda, e sentiu-se a ponto de desmaiar, mas segurou-se, para não demonstrar fraqueza diante de tamanha autoridade. O jovem olhou assustado para as pernas que bambeavam embaixo de si.

A menina, que a essa altura, já estava à frente dos portões, agora era uma figura claramente distinguível. Seu vestido era usado junto com uma calça, e ambos eram uma mistura, como numa palheta, de preto, branco e cinza. Seu rosto tinha um losango vermelho pintado na bochecha, onde tudo o mais era da cor do cadáver. Seu cabelo era, no entanto, colorido com todas as cores possíveis, em mechas longas. O brilho de seus olhos havia retornado. Era de uma graça impressionante, apesar de usar os coturnos longos que lhe davam uma certa seriedade( quebrada completamente com as meias multi-coloridas).

Ela não parecia ter mais do que quinze anos, isso era claro, mas a bem da verdade é que muito tempo havia passado desde que ela abandonara o reino para descobrir-se em novos umbrais. Muito havia enfrentado, muitos soldados a haviam seguido. Ela não era mais a mesma, e no entanto, quando o senhor-soldado a viu, ele chorou como um bebê.

Arlequina sorriu e beijou-lhe a testa.

- Meu bom Bartolomeu. - ela disse, suavemente. - Eu não sabia se estariam a me esperar.

- Nunca perdemos a esperança. - ele disse, entre soluços. - A terra, a peste, os rios... não posso dizer o mesmo...

- Eu o compreendo. - ela respondeu, ainda no tom maternal que usava - e que, aos ouvidos do jovem soldado, soavam estranhos para uma menina tão jovem. Arlequina voltou-se para o novo rapaz e dirigiu a pergunta à Bartolomeu - E quem é seu amigo, Bart?

- Você certamente lembra-se dele, milady Arlequina! - ele respondeu um pouco surpreso. - É o jovem filho do moleiro, Arquiel. Ele era apenas uma criança quando você partiu, mas já faz tanto tempo e ninguém nasceu desde então...

- Arquiel! Eu lembro-me de você! - ela disse, com um sorriso que se estendeu de orelha a orelha e a fez muito mais bonita. - Não costumavamos brincar juntos?

O garoto olhou para o velho assustado, como quem não se lembrasse de nada.

- Era o pai dele, minha senhora, que partilhava de seus jogos. - ele disse. - O tempo passou de uma forma muito estranha por aqui. Alguns envelheceram, outros não. Alguns morreram quando a senhora partiu, outros partiram para terras distantes, e apenas algumas árvores permaneceram de pé. Arquiel, o outro Arquiel, morreu.

O golpe pareceu atingir a pequena boba-da-corte, que, de boba-da-corte já não parecia ter mais quase nada. Ela, sem pensar muito, abraçou o menino, que ainda continuava assustado, mas não muito.

- Venham, os dois. Juntem-se ao grupo. Temos muito o que fazer.

Arlequina sorriu, não o mesmo sorriso inocente e bobo, como pode perceber Bartolomeu, mas algo um pouco ferino e muito mais vivo, como notou Arquiel. Ela não mais queria perder tempo. Sentia saudade de sua terra de sonhos.

Os portões se abriram e o estranho grupo, liderado por uma boba da corte vestida de preto, entrou no País da Arlequinada.

Monday, January 03, 2011

Je me souviens

Je me souviens de plusiers nuits, où tout le monde s'était couché e nous étions reveillés, joyeux, pour le puzzle que je viennent d'achèter. Je me souviens trés remarquablement que nous étions jeunes et nous n'avions pas de la patience et nous ne savions pas comment on commencer.

Mais je me souviens de ton aide et je me souviens d'etre amoureuse.

Aujourd'hui, je suis la seule qui trouve las pièces de cet noveau puzzle que tu as derangé le jour où tu est parti. J'espere que quelque un m'aide mieux que toi.


[Nossa, ficou feio.]

Monday, July 12, 2010

Viagem lisérgica.

Estavam viajando juntos já havia alguns meses. Não tinha certeza se ela o havia notado, discreto como era, sempre comportado. Ele não se destacava na multidão que se aglomerava em volta da banda após os shows. Ninguém nunca realmente reconhecia o bateirista. Ele fazia as letras, ele harmonizava os arranjos, mas quem levava toda a glória era seu amigo de infância, Paul, vocalista. Ele e John levavam toda a fama e as garotas também.

Ela viajava com eles, uma groupie oficial da banda ainda em ascensão. Prestava todo e qualquer serviço que lhe fosse pedido, executava como se fosse uma honra. E não exatamente porque gostava da música que eles tocavam. Era uma amiga de infância de Paul, sempre o apoiara em todas as suas incursões e essa era mais uma delas: a primeira que realmente parecia dar certo. E Paul não olhava duas vezes para sua amiga de infância - só a levava à tiracolo como um chaveirinho que ele carregava no bolso.

Conversavam sempre após o show, a banda e ela. Nunca ele, pessoalmente, um indivíduo, mas a banda como um todo. Ela ria de forma aberta, seu sorriso formando covinhas no rosto perfeito. Olhos verdes brilhavam toda vez que eles comentavam sobre quão boa era a vida. Encarregavam-na de todo tipo de tarefa: venda de camisetas, divulgação boca-a-boca nos bares da cidade. Ela garantia tudo.

Ele a observava com desejo contido. Era feliz de vê-la contente com o mundo, voando ao seu redor sem nunca encostar nele ou mesmo, talvez, perceber sua existência individual, mais do que como bateirista da banda.

Às vezes, no entanto, isso não era suficiente. Ele a vira passar de braços dados com Paul, e aquilo apertou seu peito de forma que ele não tinha coragem de dizer. De noite, pensava em como ele, baterista da banda que ela amava, não tinha o colhão para dizer o quanto a queria. Chegava a se odiar por ficar só imaginando. Tampouco tinha coragem de dizer à Paul, temendo que, se algum dia ele acordasse e percebesse que mulher fantástica havia ao seu lado, ele desistisse de fazê-la feliz só porque ele alimentava essa paixão escondida por ela. Não era justo que ele, o baterista apenas, roubasse a chance daquela jovem fantástica ser feliz com o homem que ela queria.

Naquela manhã de abril, ele tomara um doce diferente. Não tão diferente, é claro, porque ele já havia tomado aquilo antes. Várias vezes. Mas sentado num dos quartos da casa onde estavam instalados, com a porta entreaberta, no sofá, ele viajava.

Tudo era tão colorido e tão real. Ele se sentia num outro mundo, o sofá mole e confortável virandoo gelatina. Era feliz, era briluz. Da porta entreaberta, surgiu um anjo de cabelos negros e olhos verdes. Ele se perdeu nos olhos dela novamente. Em algum lugar da sua mente, ele sorriu porque era um sonho real.

Pétreo, ele a assistiu, arfando, sentar em seu colo e satisfazê-lo sem falar uma palavra, sorrindo. Ele beijava seu colo com volúpia, puxava-a contra si, tomava-a como nunca a teria. Queria que não fosse mentira. Ela ria, ela beijava seu pescoço e tudo parecia fazer sentido na cabeça dele.

Quando ele acordou, ainda estava no mesmo quarto, no mesmo sofá onde ele viajara insanamente com a garota que habitava sua cabeça. A braguilha estava aberta e ele se arrumou, lentamente, com a mãe de todas as dores de cabeça latejando.

Se envergonhou, ao mesmo tempo que sorriu, porque lembrou-se dos momentos imaginários com ela. Suspirou e desejou novamente que tudo fosse real. Saiu do quarto lisérgico e dormiu o sono dos justos, se preparando para o show da noite seguinte.

Sunday, April 04, 2010

temporary peace

Em alguns momentos conturbados, não é possível encontrar a felicidade e a paz até que você se resolva do que quer ou não. Mas em outros momentos igualmente complicados, é possível, embora raro, achar um oásis no meio do caminho.


Tuesday, February 16, 2010

Não deixe o samba morrer?

Quando as linhas demoram a sair, elas ficam tortas, enferrujadas e infelizes. São miseráveis restos de ser humano, espremidos num texto ridículo do qual o autor morre de vergonha ao reler. Mas ele precisa daqueles fiapos, daquela miséria e de tudo que extrair daquela alma que morre aos poucos.

Num futuro (não muito próximo, nem muito distante), ele talvez olhe pra trás e perceba o quão inútil foi tal sofrimento, tal desagrura (existe tal sofrimento? desagrura é uma palavra de verdade?).

O Poeta dizia que Navegar é preciso, mas ele escrevia, não?

Sunday, November 15, 2009

Cupcakes.

Ele era malvado, mal-humorado e putamerdamente sexy. Um dia, ouvi dizer que as mulheres malvadas tinham um charme especial e por isso que havia todo um fetiche em torno delas. Bom, eu tenho novidades pra vocês, rapazes: homens-malvados-mal-humorados-mas-que-no-fundo-são-bonzinhos também tem um apelo enorme, do tamanho de um ELEFANTE, pra nós, meninas. Especialmente meninas adolescentes com hormônios em explosão e com sorrisos felizes e que podem ser incrivelmente irritantes. Algumas vezes. Na maior parte do tempo.

Ele fazia parte do nosso grupo especial de coisas-secretas-que-eu-não-posso-revelar. Éramos...hmm.. eu nunca me dei ao trabalho de contar, sabe? Vejamos, eu, ele, o loirinho, a peituda, o depressivo, o atleta e a garotinha. Sete pessoas! E essa era nossa hora de jantar. Depois, cada um ia pro seu lado, dormir e descansar pra manhã seguinte.

Eu sempre sentava do lado da garotinha. Eu e ela sempre tinhamos alguma coisa em comum pra conversar, mesmo que ela tivesse seus 10 anos e eu estivesse chegando perto dos meus 17. A peituda era muito séria e no geral ficava engajada em conversas de gente grande com o depressivo. O atleta e o loirinho comiam como cavalos e sempre saiam cedo pra poder passarem na quadra antes de cada um ir pro seu canto. E ele? Ele era o mais velho de nossa turma e eu me perguntava sempre porque ele aceitara participar do nosso grupo. Ele era inteligente, forte, sexy e malvado-de-uma-forma-que-não-era-tão-malvada-assim. Em inglês, acho que seria algo como 'badass'. Por aí. E ele tinha mesmo uma bela bunda, meus hormônios fizeram questão de me lembrar.

Hoje era diferente dos outros dias porque a garotinha tinha ido dormir, e eu tinha dado meu bolinho pra ela, antes que ela fosse. Ela tava doente e eu queria que ela se recuperasse. Maas, por outro lado, eu fiquei sem sobremesa!

- E isso não é justo, você acha? Você acha que é justo eu ficar sem bolinho na sobremesa, acha?

- Não é problema meu. - ele respondeu, com aquela voz de quem não liga. Hunf. Ele ia ver! Ia ver mesmo!

- Você vai me dar seu bolinho porque eu sou firfa.

- Não. - e ele tirou um pedaço daquele delicioso muffin e colocou na boca de forma lenta, como se saboreasse cada momento.

- Eu vou usar meus poderes de hipnose! - eu avisei - Boliiiiiiiiiiiiiiinho... me dê seu boliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinho.

- Você está parecendo mais um zumbi dizendo "céééérebro". - avisou o loirinho, rindo da minha cara. HUNF. pra ele também.

- Você vai me dar o seu bolinho porque eu vou fazer a minha dancinha do por-favor. PORFAVORPORFAVORPORFAVORZINHOPORFAVORPORFAVORPORFAVORPORFAVORPORFAVOR!

E eu continue repetindo enquanto sacudia o braço dele e balançando a cabeça. Ele pareceu realmente irritado com meu comportamento e tentou continuar comendo, mas eu simplesmente falei mais alto e mais rápido. Ele soltou um hunf e baixou o braço com o o muffin, empurrando-o para mim.

- YEY. - eu disse, comendo o bolinho antes que ele tivesse tempo de mudar de idéia. - Obrigada por me achar firfa.

- Eu não disse isso.

- Mas eu sei que no fundo do coraçãozinho, foi isso que você pensou.

- Não.

- Eu sei, eu sei.

Ele se levantou e foi embora. Hmm... eu poderia comer mais bolinhos se fizesse isso mais vezes. Sorri, cobrindo a boca com a mão, pensando que era uma boa idéia a ser considerada.

Friday, July 17, 2009

as vezes, a gente se sente esvaindo pelos proprios dedos. é quase como assistir a si próprio, sem poder fazer nada, impotente, inútil. alguns sentimentos, uma vez acabados, nao voltam, como os nossos pensamentos em certas idades da vida.

desesperar? jamais? aprendemos muito nesses anos. desesperar, por mais que seja tentador, uma válvula de escape impressionantemente primal, nao nos serve para muito numa sociedade individualista, sozinha e brilhante [no entanto, cheia de sombras].

cada vez mais, olho para os lados e sinto que minha vida parou num tempo que não era pra ter parado. que não vou ser capaz de avançar, acompanhar, crescer. por mais que eu queira. me sinto quixotesca - revivendo um mundo que nunca existiu!

minhas utopias, meus ideais distorcidos pertencem à fantasias, à mundos irreais. É meu jeito de não sucumbir às bobagens, ao cinismo e ao cinza que assola minha época e geração? Não. É um jeito de fugir.

Uma fuga sem químicas, uma fuga incessante. Nem sempre eu chego lá. Eu nunca chego lá. E eu olho pro lado e vejo vultos, vultos esfumaçados, ilhas semi-humanas, mãos que estendem e... quando as tomo, elas somem. Somem?

Yesterday, upon the stairs,
I met a man who wasn't there
He wasn't there again today
Oh, How I wish,
How I wish he would go away...


E eu olho ao meu redor, e eu vejo homens que não estão lá. Gente que vive o real e eu olho pro real e penso "não é isso que eu queria viver". E não é isso que todos não queriam? Mas, ao mesmo tempo, alguns escolhem [e não escolhem, também], pensar sobre. Parar. Respirar esse ar impuro da filosofia humana.

Somos tão pequenos. E nunca tão pequenos fizeram tanto e ao mesmo tempo, tão, tão pouco pelo universo. Pequenas particulas de poeira que se aglomeraram e construiram algo tão bonito e tão... sujo, como a própria matéria humana.

A fé no progresso morreu? Não. A fé no progresso desmedido, a FÉ e não a razão está morrendo, desde o fim do século. Me arrepia pensar na vida que venho vivendo. Me arrepia pensar que somos um fio de cabelo na mão das Bondosas Moiras.

A Arlequina continua seu passo marcado e descompassado, com um rosto colorido que cada vez mais ganha tons e contornos tristemente... acinzentados.

Saturday, July 04, 2009

Meme

[do Elessar...]

Escolha 4 pessoas que vão responder o Meme

Eu escolho:

Ninguém.

Escolher um artista e responder as perguntas com trechos de músicas.

Eu escolho Kamelot.

1- És homem ou mulher?

You know just who i am
Don't be so distant
Cause when you're lost
I am solely there to share your grief

- March of Mephisto.

2- Descreve-te:

Sometimes I tremble
Like a little child
That faces morning
With a broken smile
Sometimes I crumble
When the shades unfurl
Sometimes I feel that
I could rule the world

- Rule the World.

3- O que as pessoas acham de ti:

Speak my friend you look surprised
I thought you knew I'd come disguised
On angel wings, in white.

- Descent of Archangel.

4- Como descreves seu atual relacionamento:

When they met she was fifteen
Like a black rose blooming wild
[...]
I will always be with you
By the anchor of my sorrow
All I know, or ever knew,
Is I love you, I love you to death"

- Love you to Death.

5- Descreve o momento atual de tua relação:

I remember a song
From long ago
Some of the pieces
They remind me of you

- Helena's Theme.

6- Onde querias estar agora?

I must take your farewell
Trails of discovery
Lead me an ocean away
So far away

When the tide is high
I won't dwell or wait no longer

There is no more time to waste I'm afraid
I must take your farewell
Carried by destiny
Bound to obey

- Farewell.

7- O que pensas a respeito do amor?

C'era una volta un uomo
Con gli occhi verso la luna
E si chiedeva
Verrà presto l'amore?

E che altro esiste
In un cuore gelato
Tranne il pensiero di un'assassinio
Molto silenzioso

- Interlude III: un assassinio molto silenzioso.

8- Como é tua vida?

So it hurts to
Be alive, my friend
In this masquerade where
All one day must die

- The Human Stain.

9- O que pedirias se pudesses ter só um desejo:

Chandeliers so grand
That heaven sees the shine
And my friend declares
Everything I look at could be mine

- A Feast for the Vain.

10- Escreva uma frase sábia:

You can do anything
You can be king
Don't be controlled
Master your own destiny
Brave men will fight
Weak men will always die
Never to reach the the top of the mountainside
Look through these King's Eyes
What do you see?

- King's Eyes.


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As coisas bobas que a gente faz na vida servem pra alguma coisa, alguma distração no sábado à noite semi-adormecida no sofá da sala.

Friday, June 26, 2009

Fechou os olhos e sentiu a música ruim que tocava na festa. "Qual a graça de uma festa se não toca música ruim, certo?" ; pensou consigo mesma e começou a dançar descontroladamente. "Música ruim é pra incentivar o consumo de bebidas dentro do recinto", filosofou enquanto mexia o corpo, esperando que todo mundo colocasse a culpa nas quase nove latinhas de cerveja que tinha tomado.

Estava começando a ficar quente.

Tuesday, May 26, 2009

FFX.

- Vem cá, pequena. - ele chamou e ergueu-me nos braços, forte, como sempre pareceu ser. - Você algum dia vai me perdoar por isso, linda?

E então, ele dançou. Nunca vou entender como ele conseguiu dançar comigo no colo, uma menina desajeitada de 9 anos de idade, ainda não completos. Eu estava apaixonada por ele, que havia me salvado quando Sin havia tirado tudo que eu um dia tive, que me levantava nos braços e dizia que eu era a menina mais bonita do mundo.

Mark.

Ele dançou e Bahamut caiu dos céus, o summon dragão, impressionante, lindo.

- Você gosta dele, não gosta? - ele perguntou e eu fiz que sim com a cabeça, como se eu não soubesse falar. Eu era tímida, boba, estúpida. Uma menina de uma tribo nômade que, se não fosse por um dos círculos que formara na extensa Calm Lands, ninguém mais lembraria que existiu. A não ser nós. E, não bastando me erguer nos braços, dançar e trazer aquele dragão abismal dos céus, ele iria morrer para que ninguém mais perdesse os pais como eu. Ele iria derrotar Sin.

- Não chora! - ele pediu, suplicante. - Eu não sei seu nome e você não quer me contar. Acho que vou ter que começar a adivinhar até acertar. Seria... hmm... Lizzie?

Fiz que não com a cabeça e abri a boca para dizer, baixinho, sussurrante: "Anna."

- Que coincidência, Anna! - ele disse, parando para pensar um instante. - Era o nome da minha mãe. Ela era tão bonita quanto você.

Bahamut bufou, impaciente. Mark sorriu e, me colocando em seu pescoço, montou no enorme dragão, que imediatamente, alçoou vôo. Mas não da forma como eu esperaria, ele era gracioso, ele era... perfeito, assim como Mark.

- Por que você não tem nenhum guardião? - eu perguntei, pensando se ele poderia me ouvir apesar do vento.

Seu sorriso ficou um pouco mais triste.

- Quem disse que não tenho? Eles estão comigo. A gente só não pode ver. Estão me olhando, lá de cima, do Farplane.

Pensei um pouco comigo mesma.

- Eu posso ser sua guardiã? - eu perguntei. Era o que eu mais queria naquele momento, andar com aquele summoner. Eu sabia o que aconteceria quando chegasse o momento do Final Aeon. Mas eu já o amava.

Ele riu alto e eu fiquei com vergonha de ter perguntado.

- Acho que tudo bem, Anna. - ele respondeu. - Será perigoso, mas acho que você vai conseguir me proteger! E eu também te protegerei, Anna!

Abracei ele com força e não quis mais soltar.

Thursday, May 21, 2009

There must be some way outta here.



And we gotta get out of this place

If it's the last thing we ever do!
We gotta get out of this place
Girl, there's a better life for me and you...

E começaram a divagar sobre as diversas possibilidades à sua frente. A pílula vermelha, o espelho mágico, o guarda roupa. A janela da watchtower tornava-se cada vez mais visível de onde eles estavam e precisavam tomar logo uma decisão.

Para onde iriam, afinal?

Yeah, to skys, o infinito... e além.

Sunday, May 17, 2009

Smooth Criminal

http://www.youtube.com/watch?v=1gB0UNey-Uk&feature=PlayList&p=FBA52B79F4914079&playnext=1&playnext_from=PL&index=15

No meu mundo mágico, todas as mulheres se vestem de vestidos estilosos [e de alguma forma, confortáveis] e todos homens vestem ternos e usam chapéu. As moças tem pernas lindas como as de Cyd Charisse - e aquele vestido vermelho que eu queria.

Todos dançam num ritmo perfeito e coordenado, com o fundo musical que querem - e pedem - e o cenário se move de acordo com os nossos pensamentos. Tudo funciona de forma perfeita e o mundo é mágico, technicolor e cantante!

[E viva o Fred Astaire!]

Saturday, May 16, 2009

Acid Queen.

Quem? Ela? Ah, ela tá ocupada tomando sua dose diária de ácido pra ficar viajando o dia inteiro. Talvez você não queira falar com ela agora, não. Se eu posso deixar recado? Bom, volte mais tarde, viu?

Wednesday, May 06, 2009

Things you see in the graveyard.

Há muitas coisas que a gente só vê em cemitérios. Além de cadáveres e pessoas estranhas com suas maquiagens pesadas, há uma paz que só consigo atingir quando estou deitada por sobre uma das lápides.

O coveiro que, depois de tantos anos de convivência, se tornou um bom amigo, não se importa mais que eu fique ali, fazendo-lhe companhia e também aos mortos. Quase sou confundida com uma deles, já que me mantenho calada e o único som que me diferencia é o da respiração profunda.

Muitas vezes eu durmo e sonho. Sonho com as vidas dos vários mortos estendidos ali, devorados por vermes simpáticos que acabam com todo o sofrimento e dão um nobre fim à carne. Fecho os olhos e consigo me imaginar em seu lugar.

Minha mãe crê que sou doente. Não duvido muito. Há dias que a sensação que tenho é de que estou aqui de passagem, como uma criatura mágica e etérea que não pode ficar muito tempo no cinza.

Não estou muito preocupada com o que vai me acontecer. A morte é inevitável e até bem vinda. A dor, por outro lado, não é nada desejável e também não posso contê-la. Respiro fundo e abro os olhos, apenas para encarar outro par observando-me.

Ele é bonito e suas íris são verdes. Sorri e seu rosto parece o acompanhar no processo. Eu não consigo evitar a retribuição e dou minha melhor torção de boca. Um besouro zumbe ao lado e ele resolve sentar ao meu lado. A lápide é grande.

I didn't know I'd love you so much.
I didn't know I'd love you so much.
I didn't know I'd love you so much.
But I do.

Sunday, May 03, 2009

A longa duração.

Eventualmente, tem que acabar.

Friday, May 01, 2009

I'm the man who lives next door.

Ele deixou um bilhete de boas vindas, enquanto ela estivera fora, acertando toda a papelada - ainda pendente - em relação à mudança. Os correios eram particularmente chatos quanto à isso e tudo que se fazia lá precisava ser retransmitido para pelo menos três seções burocráticas, que demoravam horas para aceitar o simples fato de que ela havia se mudado de uma rua para outra.

Seja bem vinda à vizinhança. Espero que se sinta à vontade e, qualquer coisa, pode tocar na casa ao lado. Ass: Seu vizinho, P. T. Barr.

Ora, pensou ela consigo mesma, ao terminar de ler a nota deixada em cima do tapete de entrada. "Ao mesmo tempo que o gesto é simpático, as palavras dão um tom tão... criptico ao bilhete. Quem será o senhor Barr?"

Ela decidiu que seria de bom tom retribuir a gentileza. Foi até a cozinha e desembalou todas as panelas e utensílios. Encarou-os todos com uma certa tristeza. Sua mãe usara-os tanto que pareciam estar marcados com suas digitais.

"Mamãe teria gostado dessa casinha". Sacudiu a cabeça ao pensamento. "Mamãe morreu num acidente de carro, junto com papai e Phillipe". Hora de seguir em frente, não é?

A casa estava comprada em seu nome desde sabe lá deus quando. Parecia quase um presente de despedida de sua família e ela o aceitara de bom grado. Gostara da vizinhança e o lugar ficava perto tanto do estágio quanto da faculdade de Artes que ela fazia.

Ela começou a cozinhar um doce de limão e frutas cítricas, na verdade, e o terminou em menos de meia hora. Colocou-o na geladeira e sentou-se à mesa enquanto o esperava resfriar. Pensava no bilhete e em como respondê-lo.

"Obrigada pelas boas vindas. Espero que aprecie o 'gelato'. É um doce de família. Espero ter o prazer de conversar com o senhor em algum momento. Ass: L.S. Dantes."

Riu quando lembrou o que as iniciais de seu nome formavam. Alguém poderia ter sido mais azarado na escola que ela? Lembrou-se imediatamente do garoto chamado: Uáldisnei . Ao menos ela tinha iniciais não propositais. Pobre Uáldisnei.

O doce não precisava de muito tempo de freezer e ela o retirou, arrumou numa bonita travessa, prendeu o bilhete com um pequeno alfinete. Parecia bem bonito e trabalho de uma moça fina e arrumada.

O levou porta ao lado e deu duas batidas na porta, às quais depois de dadas, ela retirou-se sorrateiramente. Não queria falar com ninguém no momento. Já o fizera demais quando teve que explicar para 5 funcionários do correio que ela não queria enviar um pacote para fora do país, e sim, que apenas se mudara. Voltou à sua casa e ajeitou-se para dormir, na cama recém-montada da mudança.

Um rapaz-quase-homem abriu a porta da casa do lado e sorriu ao ver o doce e o bilhete. 'Senhor?", pensou ele. 'Só porque eu sou educado todo mundo pensa que sou velho...".

Ele voltou para casa e observou a janela que dava para a sua vizinha. Viu-a deitada numa cama grande demais. Voltou-se para sua prancheta de desenhos e terminou de rascunhar o desenho que havia começado dela.

Le/La Chenille Bleu

TU?

QUEM ÉS TU?

Com que destreza o crocodilo não espadana a cauda
E na água rápida do Nilo ele não se esbalda.
Que graça e que leveza aquela!
Como ele é sedutor!
E engole os peixes pela goela...
... com um riso encantador!

Tanta coisa para fazer, tão pouco tempo e tão tudo pesando nas costas! É lógico que ela iria afundar sob seu peso!

A água a engolfava rapidamente e seu sorriso desaparecia embaixo do mar, dos milhares de papéis e da pressão que encontrava-se colocada em seus ombros não-tão-largos. As letras do alfabeto colocavam-se sobre sua mala e o sal penetrava seus ouvidos, seu nariz e sua boca.

Ela podia sentir o mar tomando conta de si, a embraçando como um filho pródigo que torna à casa. Oh, fille de mer, volta pra casa! Depositou-se no fundo e libertou-se como sereia, como onda, como ninfa.

Jaguar a recepcionou e ela se decepcionou pois nunca mais o veria, já que o peso da Térika a havia superado as chamas dos olhos! Ó Firel que havia perdido sua mais querida amiga, sua companheira de infância. Ventina observava a tudo sem dar tempo aos outros, levando as cinzas, as ondas, o pó. Misturava tudo numa única vida e eles se embraçavam, como irmãos, como mesma parte de um todo muito, mas muito complicado.

[ó, que saudades! The times, they are changing]