Ela surtou e não conseguia mais parar de chorar.
Vinha tendo aquele pressentimento há algum tempo. Sabia que as coisas não durariam muito mais tempo do jeito que estavam, sabia sim, mas fugira desse pensamento o tempo inteiro. Não haveria fase feliz que não pudesse ser transformada em motivo de lágrimas.
Sumira da convivência daqueles que poderiam lembrá-la de que o ciclo da vida tinha altos e baixos, e não quisera parar um instante a fim de que não pudesse pensar em paz. Havia dias que não dormia direito e suas noites ainda eram as mais conturbadas, que ela fazia questão de não lembrar.
O sorriso que havia se instalado no rosto dela contrastava com as feições molhadas que apresentava. Não era um sorriso de felicidade - não muita, ao menos - mas sim algo que dizia: "Tá vendo, eu sabia que isso ia vir." Porque, no fundo, sabia que isso ia acontecer, só poderia ter sido mais rápido. Naaah, era pra ser agora, naquele exato instante.
Sentiu mãos firmes agarrarem seu ombro e garras sendo cravadas nos seus pés. Queria abraçar o dono daquelas mãos e pedir pra que ele a levasse embora, mas sabia que se fizesse isso, ficaria dependente dele para sempre, estaria sem seus pés para caminhar sozinha.
As garras só queriam um pé. Só um que ficasse ali, e que a impedisse de voar nas asas do anjo cujas mãos seguravam seu ombro. Sabia que, se fosse embora, nunca mais voltaria. Sabia que, se fosse embora, se esqueceria de quem era. Restava saber se sabia o quanto seria (in)feliz para ver se conseguia avaliar se queria ou não sair dali.
Não queria nenhuma das duas coisas, pra dizer a verdade. Mentira, queria ir embora com o anjo, sair voando até que alguém abatesse a ambos com um tiro de metralhadora. O céu estava suficientemente claro para enxergar seu futuro quase que perfeitamente e saber, em seu íntimo, que essa não era a melhor escolha.
Sua consciência pesou e as garras a forçaram olhar para baixo. O chão era áspero e tórrido, mas era de verdade. Era vivo, havia choro, havia gritos, e rosas nascendo regadas de sangue. Mas estava ali, ela podia tocar, podia se desesperar e sabia que não era o céu o limite, mas o chão.
"Só um pé, só um pé", clamavam as garras, com suas vozes metálicas que procuravam fazê-la entender.
Entender não é gostar.
E Ela, então, se decidiu...
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5 comments:
...se decidiu que estava, afinal, fazendo uma tempestade num copo d'água.
E que não havia anjo, nem garras, apenas uma decisão a ser tomada. Era apenas e tão somente, uma idiota.
Sem comentários sobre esse. Muito sono para analisar.
Estamos novamente entrando em conflitos internos?! Engraçado que em alguns momentos as coisas ficam claras como água, em outros não. Mas olha, tenta relaxar que vai tudo dar certo. Existem mais anjos olhando por você do que garras tentando leva-lá.
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