Saturday, July 14, 2007
It's only rock n'roll.
Trazia muitas lembranças, aquele violão. Estava gasto, com as cordas ainda por trocar, marca de um tempo de vacas magras. Um monte de adesivos estavam espalhados na superfície de madeira e ele sorriu enquanto soltava a fumaça, lembrando as várias histórias que aquele instrumento havia levado.
Arriscou tocar alguma coisa, qualquer coisa que lembrasse um pouco da época que começara a banda, quando os planos de ter uma guitarra ainda dependiam dos pais conseguirem se manter firmes no emprego até o fim do ano.
Escolheu Tears in Heaven, do Eric Clapton, e dedilhou as primeiras notas, antes de uma das cordas ameaçar se partir. Ele largou o violão onde o havia encontrado, no canto do quarto da casa dos pais.
Era estranho voltar à cidade natal depois de tanto, tanto tempo longe. Pra mais de seis anos que não pisava os pés ali, quando sua irmãzinha ainda não tinha morrido de pneumonia, quando ele ainda não tinha decidido fugir de tudo aquilo.
- Tá na hora, cara, a gente precisa ir pro show. - disse um dos amigos, colocando a cabeça na porta e chamando o outro de suas memórias.
- 'Tou indo.
Deixou o violão para trás, passou na sala e pegou a guitarra fender que estava usando, desculpando-se com ela por ter ido ver uma velha amante. Entrou no carro e escapou do assédio das mesmas moças que o infernizaram a vida havia seis anos.
Ao subir no palco, não sabia se havia sentido certo, mas um gosto de nostalgia tomou conta de sua boca enquanto ele abria o show com Tears in Heaven.
Friday, July 13, 2007
Thursday, July 12, 2007
Era uma manhã cinza de inverno naquela cidadezinha de interior onde ela fora procurar refúgio depois de toda a confusão pela qual sua vida andara passando. Não que isso mudasse muita coisa em seu dia, que seria igual aos outros, com acordar, tomar banho, vestir uma roupa simples para ir trabalhar na sua loja de livros e antiguidades, escrever no seu caderno enquanto não vinham clientes, voltar para casa, tomar um segundo banho para tirar o pó do corpo, voltar a se enfiar nas cobertas e entupir o cérebro com porcarias televisivas até dormir.
A única coisa que alteraria na sua vida o fato da manhã estar cinza e fria é que todos os seus pensamentos entre uma coisa e outra seriam algo como "Frio, frio, frio!".
La Notte - Perspectiva de...
"Quando eu acordei naquela manhã, você ainda estava dormindo. Ao acordar, a ouvi respirando suavemente. Vi seus olhos fechados entre as mechas do seu cabelo e fiquei tocado. Eu queria chorar, eu queria te acordar, mas você estava dormindo tão profundamente, pesada. Na meia luz, sua pele brilhou com tanta vida, tão quente e macia. Eu queria beijá-la, mas estava com medo de te acordar. Eu estava com medo de você acordada nos meus braços de novo. Em vez disso, eu queria algo que ninguém poderia tirar de mim, apenas minha.... essa imagem sua, para sempre. E através de seu rosto, eu tive uma visão, tão pura e bonita, e uma perspectiva de como seria minha vida toda...os anos que ainda viriam e os que já haviam passado."
"Nossa, Lídia. Quem escreveu isso?"
"Você."
- de "A Noite", Antonioni.
A Bruxa dos Mil Caprichos.

Olhou-a com um misto de repugnância e fascínio. Era ela, a bruxa de seus sonhos, a velhinha que a aconselhava, a voz da razão, sabedoria e maleficência egoísta. Ah, as sutilezas ao falar dela.
Estava sempre presente em sua cabeça, com seus dizeres que, bom, não podiam ser ignorados, porque a razão era um lado da menina que não poderia simplesmente sumir. Tinha medo, entretanto, ao olhar para aquela imagem.
Era a sensação que tinha ao falar com a outra parte de si. Um preço a ser pago por cada palavra, aquela gentileza tão suspeita, tão difícil de definir. Chegava a quase ter medo de si mesma. Olhar nos olhos de si mesma no espelho era tão..tão... estranho.
Porque, afinal, não é como se estivesse olhando para uma pessoa, mas ela era uma pessoa, sim e ter olhos de espelho frios... era ruim. De verdade.
Frau Totenkinder, a devoradora de crianças, a aparência tão boazinha e ainda assim... ela precisava dela. As duas se precisavam, pois eram metades da mesma pessoa e, bom...
Teriam que aprender a viver com isso.
Tuesday, July 10, 2007
- É, eu percebi, devem ser fadinhas ou qualquer coisa brilhosa e voante que o valha. - ele respondeu, um tanto quanto conscendente, com os braços cruzados. Ela gostava dele, bastante.
Ele era cético e ela, nem tanto. Ele no fundo devia acreditar em alguma coisa, embora ela ainda não soubesse bem no quê.
- Que bom que as luzinhas apareceram. Eu tava ficando com medo.
- Não precisava, eu tô aqui.
- Obrigada, mas nessas horas, é sempre cada um por si.
- Menos com as fadinhas.
- Até com elas.
- Então...?
- É que elas brilham. Se algum monstro vier atrás de alguém, vai ser com certeza, da coisa que chamar mais atenção.
- Ah.
- Verdade.
- É.
Monday, July 09, 2007
In a lifetime.
Ela encolheu a cabeça e se aninhou no caderno onde escrevia aquela história, sentindo uma vontade de chorar enquanto ouvia Anna gritar em sua mente.
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E olhou para o sol se pondo às margens daquele rio tão bravio que carregava sonhos e desesperos de tanta gente. Agora, sua mentora estava finalmente em terras melhores, ela carregava uma semente no ventre. O vento soprou violentamente vindo do norte, como se esbofeteasse o rosto dela.
Ele falava de cidades a serem visitadas, amigos necessitados a serem descobertos, batalhas ainda a serem vencidas, lembrava-lhe quem era e sussurrava-lhe tentadoramente para onde deveria ir....
"Quem sabe uma próxima vez.".
Porque, por enquanto, estava feliz naquela cidadezinha, ao lado daquele que escolhera. Não. Uma vez, ela não se curvaria à vontade do vento.
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Já era uma senhora de idade quando aquele rapaz que ela sempre insistira em chamar de moço viera conhecê-la. Estava em sua rede favorita, deitada, esparramando os cabelos brancos contra o amarelo claro do tecido trançado.
Ele era ainda mais velho do que ela, mas andava com a mesma graciosidade que sempre tivera. Era provavelmente o primeiro e o último encontro dos dois e ela abriu um sorriso que lembrou aos dois as muitas vezes que em jovens conversaram.
Ainda parecia um sonhador, como quando o conhecera ocasionalmente. Os pensamentos que passaram-lhe pela cabeça foram os mesmos do que há 50 anos atrás.
Ele tirou do bolso um caderno:
"Ainda dá tempo de escrever a segunda parte?"
E ela sorriu.
Sunday, July 01, 2007
Velharia.
O triste fim do Amor Verdadeiro
É isso aí....o amor verdadeiro partiu-se em mil pedacinhos e hoje, a gente tenta colar esses cacos.
Ás vezes, fico pensando no quanto eu, Raíssa, tenho sorte com amor. Até que bastante...tenho um namorado fofo, com jeitinho de cachorro,que me manda bilhetes e anda de mão dada comigo sem dizer "Odeio fazer isso, coisa de Gay.".
E eu amo ele, tenho certeza....Mas quase ninguém tem essa sorte....quer um meio de saber como o amor está tão banalizado?Entre no seu MSN e observe os nicks das pessoas. Isto é, se seu MSN for parecido com o meu, e alem de pessoas do círculo nerd, tem também pessoas do mundo "shopping-ficada-balada".
Não vou citar nomes, mas em alguns nicks eu encontro : "Eu te amo, agora vamos nessa??haieohuoaieo".
Vamos parar para pensar. Quantas vezes ela já deve ter dito isso na vida? Com 13 anos, eu só disse isso para meus pais, meu irmão, meu namorado, e meu melhor amigo quando ele me ajudou no momento que mais precisava e uma ou outra amiga.
Com 13 anos, é provável que ela já tenha dito eu te amo para, além dos pais dela, qualquer garoto razoavelmente bonito que caia na rede dela, todas as amigas dela, a maioria das inimigas dela (aliás, tem uma teoria interessante sobre rivalidades femininas), o gato, o passarinho e os peixes.
E pensar que eu achava que só se diz eu te amo, pra familiar e pro grande amor que vai aparecer na sua vida e casar contigo.Quão ingenua eu era.Hoje, namorados e namoradas são negociados como ações na Bolsa de Valores :
Compro namorado! Vendo o meu! Troco por um modelo mais novo e experiente! Ah, eu tenho um mais velho, mas um pouco usado demais!
Incrível....Pense você, para quantas pessoas você já disse eu te amo? Para quantas pessoas você já se arrependeu de ter dito isso?
Reflita, e tome mais cuidado quando for dizer "eu te amo".
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Eu espero que daqui a dois anos, eu não me ache tão imbecil quanto me acho ao ler textos antigos.
Tuesday, June 05, 2007
Estelar.
A tripulação fez um grande Hooray! e alguns se abraçaram, satisfeitos por terem novamente um destino.
Ela se sentiu satisfeita. Haviam passado-se quase três dias e ela parecia ter perdido o sinal da cidade nas nuvens que procuravam. Até mesmo tinham descido para perto da Terra para avistar melhor as coisas e nada!
Aquilo tinha dado-lhe nervoso até que a grande comandante do Estelar finalmente conseguira avistar para detrás de grandes morros a cidade para onde se dirigiam.
Alguns ali tinham família entre os anjos que a habitavam. Outros, apenas tinham curiosidade. A capitã, ia à negócios, é claro, como sempre. Seu navio caminhou pelas correntezas e caminhos de estrelas, já que haviam voltado para o campo espacial.
A Terra que haviam descido tinha vários e vários planos. Foram obrigados a descer até o meio deles para procurar aquela cidade engraçada e esquisita.
- Mesmo Anjos às vezes se perdem. - disseram os tripulantes que de lá eram natais, quando perguntados as indicações.
Ô cidade de difícil acesso!
"Não sem razão. Depois de três invasões do Povo da Terra e dos Mares, eu também iria preferir me manter up in the clouds.", dizia a capitã, indo dormir pela primeira vez em três dias. "Finalmente vou conhecê-la. Não deve ser à toa que o povo da Terra a chama de Céu e projeta sua vida eterna para alcançá-la..."
Thursday, May 31, 2007
Às vezes, vale a pena.
Esqueci-me de todos os compromissos, das pessoas que chamavam minha atenção em outro lugar, dos medos que tinha, das incertezas e inseguranças pelas quais passava. Tudo aquilo parecia tão pequeno diante do sol que se punha atrás dos morros. O prédio vizinho atrapalhava um tanto minha visão e eu troquei de posição para uma mais favorável.
Via a rua, via pessoas correndo apressadas para seus destinos e seus ônibus lotados de fim de tarde. A linha da máquina parecia um formigueiro e eu quase me acostumara a isso. Nenhum trem vinha e os trilhos refletiam o brilho final daquele sol morrente.
Ninguém se importava, apenas eu. Talvez nem eu, talvez fosse isso que fizesse daquele poente tão fascinante e tão mágico, tão meu. O céu avermelhava-se ao redor e contrastava com as nuvens brancas, o tom de amarelo realmente parecia diluir-se no pouco de azul que restava. Um pouco mais longe, a noite já assumia seu lugar, tendo direito até à estrelas cintilantes.
Olhei para baixo, constatei que havia um homem, não muito velho, nem muito jovem, parado observando a mesma coisa que eu. Ao menos, eu queria pensar que ele estava observando aquele pôr-do-sol, queria a certeza de que não era a única a enxergar aquela magia que se desvanecia no ar como puro sonho.
Sorri para ele. Seja lá como fosse, valia a pena.
Saturday, May 12, 2007
Um parênteses.
"O cuco é um pássaro muito estranho. Não é bonito, não canta bem. O Cuco põe seus ovos nos ninhos de outros pássaros. Se o pássaro que o adota não descobre sua presença ali, ele fica como se fosse membro da família. Eventualmente, o cuco nasce antes de outros filhotes - e tenta jogar os ovos dos outros 'irmãos' para fora do ninho. Se eles nascem, o estranho pára de atacá-los. O cuco é criado e um dia assim, vai embora, diferentemente de todos os outros filhotes."
Era isso que ela queria. Sonhava que um dia dissessem para ela que, não, seus pais não eram seus pais. Sua vida não era sua vida. Que, talvez, ela fosse filha de reis e rainhas de uma terra distante, uma heroína predestinada a ser grande e salvar o mundo. "Era tão fútil assim querer ser importante?"
Não que seus pais fossem ruins, claro que não. Eram apenas insignificantes, ela queria mais e mais e mais. Era algo absurdo e sabia que se não controlasse isso, bom, aquilo a controlaria. Esse tinha sido o dilema de sua vida durante anos e anos.
Sylar escolhera o caminho oposto, ela via em seus olhos o reflexo do que poderia ter sido. Ela poderia ter escolhido ser grande para o...mal. Nossa, mal. Mal era uma palavra que já evocava grandeza. Se há mal, há bem, quem sabe ela não seria grande no lado bonzinho. Talvez.
Mas que ela o entendia, ela simpatizava e compreendia, tinha certeza.
- Foi mal, rapaz. Eu entendo, mas não vou te cobrir. Tanto quanto eu você sabe exatamente o que leva alguém a querer ser grande, as coisas pelas quais tem que passar.
Sorriu e mandou levarem-no embora para a delegacia. Ela seria grande.
Hero.
Friday, May 11, 2007
One Summer Day
Não tinha nenhuma mácula em seu rosto, não tinha nada que apontasse o contrário e o mar à sua frente lhe parecia tentador. Tinha os olhos no outono e no inverno que se seguiriam e no seu longo, longo, inferno.
Naquela noite, ela só queria cama quente e alguém que a embalasse para doces sonhos que a fizessem esquecer.
Thursday, May 10, 2007
Você merece.
Eu queria que as pessoas não precisassem perguntar, eu queria que as pessoas não precisassem responder, eu não queria ser cobrada por coisas que não deveria, eu não queria ter que pedir, eu queria conselhos, eu queria colo, eu queria o inferno parecesse paraíso, eu queria ser menos orgulhosa, eu queria mais calma e paciência, eu queria ser mais precisa sem ser vulgar. Eu queria que a tristeza fosse embora levando junto a dor de cabeça, eu queria que a cabeça fosse embora, eu queria que o mundo não girasse tão rápido pra eu não ficar tonta, eu queria ficar tonta até cair e esquecer porque eu estou chorando.
Eu queria estar junto e longe, eu queria algo que fosse como uma droga, eu queria o tudo e o vazio, eu queria o mundo só pra mim, eu queria não existir no mundo e queria descobrir que faria falta - eu não faço. Queria poder respirar e dizer que tá tudo bem, tudo legal e que amanhã começa e termina meu carnaval.
Eu queria que eu sentisse fome, eu queria não ser vingativa, eu queria que ela parasse de ir atrás de mim, eu queria que eu não estivesse preocupada, eu queria não estar caótica, eu queria que tudo não estivesse atrás de mim, eu queria que ele estivesse atrás de mim, eu queria que o único cheiro que não sentisse fosse o do outro.
Odeio passar por idiota.
Television Rules The Nation.
Maybe you've been brainwashed too.
No carro, o mundo parecia passar como um amontoado de luzes e drogas, flashes dispersos que ela não conseguia entender. Ouvindo uma versão de Toccatta, ela tinha a nítida impressão de que numa próxima batida, o mundo ia ruir e se tornar bizarramente mau.
Sorriu para o rapaz de sobretudo preto que cruzou o seu caminho e ele sorriu de volta, com os caninos ligeiramente pontiagudos. Ela não notou que seus olhos eram vermelhos e que as pessoas ao redor pareciam ter medo dele.
As estrelas piscaram uma, duas, três vezes e sumiram. A noite era apenas e tão somente da Lua, por mais estranho que a cena soasse, ela parecia perfeitamente condizente com a menina totalmente outline que dirigia a lamborginni vermelha.
A cidade iria amanhecer dali a alguns instantes e quando ela colocou os pés em casa, esperava apenas que estivesse melhor quando acontecesse.
Tuesday, May 01, 2007
Lembre-me.
Era um pensamento angustiante, para falar a verdade, 'não saber como é ficar sozinha', até porque, fora assim que passara boa parte de sua vida. Como, de repente, esquecera como era a sensação de não ter ninguém ao seu lado?
Era muito estranho. Naqueles dia, ela saíra para tentar recuperar essa memória, ficar sozinha e em paz consigo mesma. Nada, nem mesmo uma mísera impressão de como seria passou-lhe pela cabeça.
Vestiu uma roupa curta, apesar da noite estar razoavelmente fresca. Queria sentir seu corpo com frio - aquela velha sensação de estar viva. Bermuda curta, camiseta regata, chinelo de dedo. Olhou pela janela e viu aquela estrela brilhando forte, sentiu ainda mais vontade de ficar ali embaixo.
O fim de tarde tinha gosto de nostalgia, já a noite, de novidade. Sentou-se na calçada com um ar de pensativa e tentada a falar consigo mesma. Se assustou. Não estava sozinha há tanto tempo que ainda inventava truques para se sentir acompanhada. Era estranha.
Ouvia música para esquecer que estava sozinha. Dividia-se em duas para não estar sozinha. Assustada, ela percebeu que raramente em sua vida estivera sozinha.
Fechou os olhos e abraçou os próprios joelhos. A lua a chamou dali de cima, e ela não ouviu seu chamado. Os ventos quiseram soprar-lhe histórias em seu ouvido, a terra quis esquentar seus pés. Ela a tudo negou e quando finalmente voltou, viu que estava, sim, sozinha.
Ela teve frio, como nunca tivera na vida. Depois, se sentiu em paz como nunca estivera na vida. Não tinha ninguém a esperando, não tinha ninguém a chamando. Era ela. Não se sentia parte de nada, nem sentia necessidade de fazer parte de nada.
Sorriu e seu sorriso derreteu mundos. Quando voltou ao normal, seu cabelo, bagunçado pelo vento que em vão tentara lhe tirar a concentração, estava mais bonito que nunca. Seus olhos brilhavam com a luz que a Lua tentava-lhe atirar sobre a cabeça para que olhasse para cima. Seus pés estavam quentes, prontos para continuarem a caminhada pela longa estrada.
Carros passaram, pássaros voaram e um cachorro latiu. A menina, do alto de seus quinze e poucos anos, com aquelas roupas de criança e um sorriso enorme no rosto, então, sumiu.
Saturday, April 28, 2007
Longa Noite.
- Mas senhor, acalme-se, eu vou consertar o ônibus e em algum tempo estaremos na estrada de novo! - ele respondia às críticas ferozes que lançavam-lhe seus clientes.
Harley não tinha mais paciência para isso. Não era justo! Por que só com ele que aconteciam essas coisas? A fumaça subia do motor do ônibus e ele sabia que o acabara de falar para o enfurecido jovem que viera falar com ele tinha poucas chances de se tornar verdade.
Ele provavelmente teria que buscar ajuda e, considerando que era meio da noite, numa estrada velha, as tais chances se reduziam para quase nulas. Para piorar, era só a segunda vez que fazia aquela rota! Que espécie de maldição era aquela?!
Haviam passado por uma velha casa abandonada há apenas uns 300 metros de distância. Talvez tivessem que passar a noite lá, o que seria, com certeza um problema. E para explicar a todos aqueles infelizes que haviam pago uma grana por aquele transporte que teriam que ficar ali?
- Celular, pessoas, celular! É para isto que foi inventado essas coisas - e não para ficar tirando fotos! - disse um senhor olhando feio para a filha que aparentava ter algo em torno de 16 anos. Sacou seu celular do bolso. - SEM SINAL! Eu retiro tudo que disse.
- Se acalme, tiozão, que eu devo ter o meu aqui... - tomou a palavra um rapaz de mais ou menos 18 anos. - Eu tenho o meu aqui...mas putz, sem bateria! Que hora pra essa porra acabar!
Um a um, as mais ou menos vinte pessoas ali foram tirando seus celulares apenas para descobrir que estavam sem sinal, bateria ou que o número discado não completava a chamada.
- Isso é um sinal divino. - disse uma senhora, aparentemente religiosa, que logo acrescentou. - Temos de confiar em Deus para resolvermos este problema.
- Temos que confiar é que um desses celulares funcione, pra podermos chamar a polícia ou um mecânico. - respondeu Harley. - Passamos um velho casarão há uns 300 metros. Acho que podemos passar a noite lá.
Os passageiros concordaram, relutantemente, pois em todos passara a idéia de que todo tipo de ladrão poderia aparecer na estrada ao ver um ônibus parado. Seguiram a passos lentos e nesse meio tempo, o motorista já tinha um plano para quando amanhecesse, andar com alguns jovens até a cidade mais próxima.
Era uma dessas casas coloniais que já estava abandonada fazia algumas décadas. Tudo caía aos pedaços e ratos e baratas tomavam conta de seu interior. Os móveis, ainda com lençóis brancos cobrindo-os, pareciam em razoável estado. Havia pelo menos uns dez quartos, era realmente um lugar grande. Cada quarto, uma cama, cômoda e espelho.
Os 'hóspedes' pareciam pouco à vontade e não sem razão.
- Vamos nos acomodando pessoal, porque a noite vai ser aqui mesmo. - Harley disse ao ouvir uma trovoada ao fundo.
Chovia e aquele amontoado de gente estava se perguntando se não seria melhor ficar no ônibus.
- É bom não dar bandeira, havia respondido o motorista.
- Mamãe, está muito escuro... - disse uma garotinha de uns cinco anos com uma nota de choro na voz.
- Eu sei, meu amor, mas mamãe já vai acender um fogo. - falou de volta uma moça que parecia ter algo em torno de 30 anos.
- Eu achei velas! - disse um rapaz negro que estava junto dos que haviam se certificar que a casa estava vazia. - Podemos acendê-las e acho que o tal do André achou cobertores nas cômodas.
- É isso mesmo, tem travesseiros debaixo das camas também. - disse o rapaz cujo celular havia ficado sem bateria - É engraçado, é como se o dono da casa tivesse saído de férias e não voltado ainda. Tem certeza que a casa está desocupada?
- Absoluta - respondeu Harley. - Aqui sempre correm histórias de... - calou-se ao lembrar da presença de crianças no recinto.
- ...fantasmas? - perguntou a menininha que anteriormente reclamara do escuro.
Ele revirou os olhos.
- Tudo bem, eu não tenho medo de fantasmas. - ela disse corajosamente. - Só de baratas. - acrescentou com um pouco de vergonha.
- Julie é uma mocinha muito corajosa! - disse a moça que acompanhava a mãe da menina. - Não é, Lúcia?
- É sim! Minha garotinha está se tornando uma mulher, Patrícia! - disse a mãe, agarrando Julie no colo.
Os outros olharam para a cena e reprimiram seus próprios medos. Se uma garota de cinco anos não tivera medo de passar a noite numa casa abandonada, não seriam eles a fazê-lo.
Engoliram todos seco e foram cada um escolher seus quartos...
Sunday, April 22, 2007
Once Upon a September..
Ultimamente, era como se a frequência tivesse aumentado, era como se ele ainda estivesse por perto, não obstante os...o quê, seis meses?...que ele se fora. Era como se ele ainda estivesse lá, a rir das várias coisas naquela biblioteca, das conversas que eles tinham sobre as diferenças entre valores, dos sorrisos meio mostrados e olhares não trocados.
Era como se ela ainda sentisse falta dos cachinhos dele, pobre menina de olhos azuis de lágrimas! Era como se ela não soubesse que não, ele não voltaria, era como se ela não visse que ele havia partido para outros mundos que não a incluiam na lista.
Ele sabia que de vez em quando deveria aparecer para vê-la, sabia, no final das contas. Não queria ter ido e nem fora para tão longe, mas... era como se um mar estivesse os separando. Ela tinha sua vida, afinal. Seus amigos, suas paixões - que ela por alto comentava sempre e que ele sentia destroçar o coração. Não podia continuar vivendo aquilo que não vivia, sofrendo aquilo por sentir o que ela não sentia.
Mas até disso sentia falta...
Olhavam os dois para o mesmo mar, na mesma cidade, talvez, até em ruas próximas. Suspiravam e contavam às poucas estrelas os motivos de seus males... como se estas os unissem, como se estas o separassem na distância.
Friday, April 20, 2007
Insanidades
- Volte para casa...
- Volte para mim...
- Você não se livrará de mim tão fácil, pequena...
- Tenha lindos sonhos, maninha...
A menina queria ignorar o que diziam aquelas vozes, que pareciam pertencer a um passado há muito não revirado, algo que ela não tinha certeza de ter ou não culpa. Podia ver rostos que não lhe eram familiares, e não queria dormir, nem tampouco ficar acordada.
Nessas horas, ao ver aquilo tudo, desejava morrer. Seus lábios pálidos não diziam coisa com coisa, e sabia que quem a visse, daria aquilo como alucinação de febre. Várias sombras dançavam desfigurados no seu quarto e cada vez mais ela queria se encolher, mas era como se bichos estivessem aos seus pés.
Não gostava daquilo e não queria aquilo nunca nunca nunca nunca mais.
O Corvo pousou na sua janela e disse:
- Não se preocupe, pequena querida menina mortal, o Mestre dos Sonhos não a deixará...nunca mais.
Monday, April 16, 2007
Deus Lhe Pague.
O novo, o velho, o quebrado e o consertado.
O simples, o composto, o de forma simples e conteúdo composto.
A vida, a morte, a Severina.
O dinheiro do ônibus, o troco pro metrô, a corrida de táxi até o lugar mais distante da cidade.
O vintém, o jornal nosso de cada manhã, o suspiro nosso de cada tarde enfadonha no trabalho que você nunca sonhou que teria, o bocejo descontente ao virar para o lado e dormir, sem ao menos beijar sua esposa.
O pecado, a chuva que não pára, o fim de semana na praia que acabou sendo uma verdadeira sucursal do inferno, aquele guarda-chuva que tinha que quebrar ali, no meio da tempestade.
O drinque derramado em cima da namorada, o tropeço em frente a todos os seus amigos, a ligação da mamãe querendo saber onde você estava justo no meio daquela cantada que estava dando certo.
O fato de ter menstruado pela primeira vez em plena prova de matemática.
O fato de que a maior parte de suas menstruações ou coincide com o dia de churrasco + piscina ou com aquele dia que todo mundo resolveu ir para a praia.
Os amigos traíras, as amigas carinhosas, os fofoqueiros e aqueles que você pode contar pra sempre.
A infância que se acaba, a adolescência que parece durar pra sempre, a saudade que fica quando a velhice chega rápida demais.
O adulto que não sabe muito bem o que está fazendo no meio desses três.
O chefe que te olha de cima abaixo por você estar com uma mini-saia curtíssima ou o presidente da empresa confundindo você com o office boy por causa do seu cabelo comprido e tatuagem no pescoço.
A descoberta de que aquela menininha gostosa da sua classe foi pra faculdade e engordou muito.
A descoberta que aquela menininha feiosa da sua classe se tornou uma verdadeira gostosa na faculdade.
O fato da sua namorada ter decidido fazer Engenharia.
O jeito como aquele velhinho meio Don Juan olha para você, mesmo que você tenha 1,90 e seu nome seja Carlão.
O sorriso dela ao dizer que te ama.
O sorriso dele ao responder que também.
O choro dela quando você diz que vai embora.
O seu choro quando ela diz que não te quer mais.
O choro de seu primeiro filho na maternidade.
A tralha desnecessária que você ganhou no seu casamento.
O apartamento de 3 quartos que você se arrependeu de não ter comprado, agora que seu 3o filho chegou.
O jeito como você se olha no espelho quando percebe a calvice e a velhice chegando.
O quadragésimo aniversário.
O namorado da filha mais velha.
O namorado da filha mais nova.
O namorado do filho.
O sorriso dela depois de trinta anos de casada.
O seu sorriso depois de quarenta.
As viagens que você fez, as que não fez e as que se arrependeu de ter ou não ter feito.
A casa própria que finalmente comprou.
O último suspiro dela.
O seu último suspiro.
O visualizar do caixão de lá do alto.
A paz, afinal.
E por tudo isso...
Que Deus Lhe Pague.
Coleção de Quotes.
- Sandman, Uma Esperança no Inferno.
"All Bette's stories have happy endings. That's because she knows where to stop. She's realized the real problem with stories— if you keep them going long enough, they always end in death. "
- Sandman em 24 Horas, meu arco favorito.
"For love is no part of the dream-world. Love belongs to desire, and desire is always cruel. "
- Sandman, em Um Conto de Areia.
"Delirium was once Delight. And although that was long ago now, even today her eyes are badly matched; one eye is a vivid emerald green, spattered with silver flecks that move; her other eye is vein blue. Who knows what Delirium sees, through her mismatched eyes? "
Quem sabe o que Delírio vê através de seus olhos desiguais?
- Sandman, Estação das Brumas, cap.0.
"To absent friends, lost loves, old gods and the seasons of mists. And may each and everyone of us always give the devil his due."
- Hob Gadlings, no melhor brinde que já vi.
"Never trust the storyteller. Only trust the story. "
- O avô - certo como sempre.
"I know how gods begin, Roger. We start as dreams. Then we walk out of dreams into the land. We are worshipped and loved, and take power to ourselves. And then one day there's no one left to worship us. And in the end, each little god and goddess takes its last journey back into dreams... and what comes after, not even we know. "
- Ishtar, em Sandman: Vidas Breves.
Sunday, April 15, 2007
NEOQEAV
Andaram pelas ruas como se fosse a única coisa que importasse e, quando estivessem um com o outro, estar junto não importa onde era a única coisa que importava. O sorriso que tinham que manter um nos lábios do outro era a única coisa que realmente poderia importar.
Eram um daqueles casais bobos que andavam abraçados ou de mãos dadas. Eram um daqueles casais bobos que não precisavam ser afetados por aquele pó mágico, por aquela benção, pois já se consideravam abençoados o suficiente.
Ao seu redor, pessoas cantavam, dançavam, sorriam, se apaixonavam, beijavam, faziam amor na calada da noite. Eles faziam tudo isso ao mesmo tempo, com a mesma intensidade e nossa, como ela queria mais. Tinha um sorriso que não precisava explicar mais nada, tinha um jeito no corpo que dizia que sim, estava feliz, sim, tinha dono, sim, era pra sempre.
Ao olhar para cima e ver aquele milionésimo de instante que mudou a vida e o rumo de um mundo todo, ela sorriu, porque se todos pudessem ser um milionésimo de felizes como ela, sabia que não havia mais nada com o que se preocupar.
Saturday, April 14, 2007
Carta.
Era estranho. Eles nunca tiveram aquele tipo de trava. Ela escrevia, ele lia, respondia e assim ia - as conversas duravam meses, e ele sempre mandava um feedback sobre o que ela mandava em anexo.
Porque estava com tanta dificuldade em escrever a carta, ela não sabia. Não sabia o que travava, o que a compelia a querer mandar aquele conto para ele, não sabia porque não conseguia.
Talvez porque fosse um conto de amor.
Talvez porque fosse algo que ela quisesse dizer.
Talvez por isso que Oswaldo cantava:
"Assim como a canção só tem razão se se cantar."
Talvez por isso que ela tinha medo.
Talvez por isso que ele chorava quando lia seus textos, talvez porque ele intimamente quisesse ouvir o que os personagens diziam da boca dela.
Talvez devessem sair e tomar uma coca-cola no bar da esquina.
Sunday, April 08, 2007
Frases de Efeito.
Era um bom homem, no final das contas, esse. Tinha dois olhos brilhantes, transpareciam uma alma geniosa e uma mente que brilhava e resplandecia com idéias, nem tão grandiosas, mas que ele conseguia convencer a todos os outros de que era isso mesmo que eram.
Sorria ao ver uma platéia delirando com suas frases de uma palavra, suas aliterações e rimas tão bem usadas. As informações impactantes guardadas para a última frase do conto.
Sentia-se um ilusionista e gostava disso.
Tuesday, March 27, 2007
Pirates!
Não fazia nem duas semanas que estavam longe do porto caribenho no qual ela embarcara pela primeira vez numa aventura pirata. Tinha já brincos furando vários pontos da orelha, e suas mãos, habilidosas com tantas outras coisas, descobriram muito gosto em manejar velas e lavar o convés. Seu sorriso era evidente e nesse meio tempo, ela resistira bravamente às investidas dos piratas que viajavam com ela.
Até agora, participara de um espólio e uma luta contra a temida Marinha Inglesa, a melhor que percorria os mares do séc.XVI. Sobrevivera, milagrosamente. Não sabia também, como deixavam uma mulher combater, mas seus companheiros de navio pareciam não se influenciar pela superstição de que 'fêmeas traziam má sorte quando a bordo.'
Parecia até que sabiam algo que ela não...
Jack Três-Dedos amolou seu facão e ficou espreitando M.J com os olhos de predador. Definitivamente, ele sabia algo que ela não.
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Felizia curvou-se para evitar a onda de radiação que vinha do Sol mais próximo. Tinham que escapar do campo gravitacional antes que o barco afundasse. Pirataria espacial se tornava cada vez mais difícil quando a Earth Enterprise fechava o cerco cada vez mais sobre eles.
Eram um dos últimos navios piratas em todo a galáxia, o último reduto dos navegantes livres, que passeavam sem prestar contas a ninguém, saqueando, pilhando e libertando vários povos do jugo de imperialistas interplanetários nojentos.
Era engraçado como aqueles humanozinhos procuravam implantar o que dera errado em seu planetinha com todo o espaço conhecido. Felizia não gostava deles, que bom que eles nunca vieram incomodar os Woogans em seu planeta natal.
Pena que o SOI-2587 engolira-o quando virara um gigante vermelho, embora seu povo tivesse escapado ileso. Era triste perder um dos poucos portos livres da galáxia.
A wooganiana de pele alilasada e nariz arrebitado, prendeu sua trança de tecido e voltou-se para a capitã que gritava ordens, correndo para atendê-las.
Sobreviveram a coisas piores, sobreviveria a mais isto.Piratas nunca morrem.
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Uma homenagem aos contos piratas que li no blog da simpática pessoa que comentou nos últimos posts. =)
Agradeço os elogios e a inspiração!
Sunday, March 25, 2007
A New Way to Look.
Disse isso e entrou no táxi, sozinha, enquanto mandava um beijo para o outro. O motorista, um baixinho simpático e sonolento (por mais controversas que pareçam essas palavras), perguntou-lhe para onde iria e ela, quase num sussurro, respondeu seu endereço.
A janela estava aberta e o vento entrava por ali, bagunçando de uma forma quase cinematográfica o seu cabelo. O elo invisível entre os dois se estendeu como um fio por algumas quadras e quando o carro dobrou a primeira esquina, rompeu-se. O cabelo dela voou para trás como se jogasse para longe um véu do seu rosto.
As pessoas na rua lhe pareciam interessantes de novo. Um casal de velhinhos namorava no portão de uma casa, apesar de ser tarde, um jovem fumava alguma coisa proibida num canto da praça, um rapaz deixava a namorada na frente do prédio e lhe dava um beijo acalorado.
Pararam no sinal vermelho, ela tinha o queixo apoiado no vidro da janela. Um rapaz numa moto parou ao lado deles e podia ver-se no seus olhos o quanto ele parecia preocupado. Ficou encarando-a e por um instante, ela sentiu-se melhor. Sorriu e não viu se ele sorriu de volta quando o sinal abriu, ambos aceleraram, partindo para cada um, seu lugar.
Esperava que tivesse adiantado alguma coisa.
Olhou para aqueles dois senhores, parados com suas camisas velhas e um símbolo que alguns diriam, com escárnio, 'riponga.' Se perguntava o quanto isso faria bem, se perguntava se em algum momento alguém de sua geração não olharia para suas velhas cicatrizes de guerra, seus piercings e tatuagens, e não sentiria uma pontada de dor. Lembranças a ferro de um tempo que se fora e não voltava mais. Se perguntava se aquilo não era uma âncora das pessoas aos seus passados, se aquilo não atrasaria tudo. Se era patético ou se elas realmente precisavam disso. De estátuas aos seus eus perdidos no tempo, in memorian.
Reconhecia os prédios familiares, reconhecia as ruas que a levariam sã e salva para casa: não fora dessa vez que o taxista infernal (haveria ele de se chamar Caronte?) viera buscá-la. As moedas tiniam no bolso de uma moça, o mendigo cobiçava com certo pesar.
Durante aquele trajeto de quinze minutos, era como se tivesse envelhecido uma vida e foi com um olhar de sábia senhora que adentrou sua casa naquela noite.
Sunday, March 18, 2007
Sea
Endless sea, please, take me home.Friday, March 16, 2007
There are no Monsters here...

Ela acordou no meio da noite e a primeira coisa que sentiu entre os dedos foi a mão de macela e algodão de seu ursinho de pelúcia. A única coisa quente e segura depois de um pesadelo que ganhava contornos cada vez mais reais em sua poderosa mente infantil.
Não tinha mais que sete anos, era normal que tivesse medo do escuro e dos monstros que supostamente deveriam se esconder lá. O cobertor não aquecia mais e seu pijama de gatinhos estava molhado com o suor que ela derramara até o momento. Estava com frio.
Estava com frio e com medo, não havia nada ali naquele quarto imenso e vazio que pudesse protegê-la disso. Exceto talvez, aquele pequeno ser de 30 centímetros que atendia pelo codinome de Teddy, mas para ela, não era mais suficiente.
Não sabia o que a estivera perseguindo e nem estava interessada em descobrir. Queria conforto, queria carinho, queria a cama dos seus pais e um abraço apertado dos dois para dizer que, é, tudo ficaria bem.
Lá ficou. Não tinha vontade de encostar as meias encharcadas na dura realidade fria, nem forças para retroceder. Teddy pendia do outro lado da cama e um arrepio subiu a espinha dela, algo fez ranger o taco - e ela sabia que não era ela.
Um suspiro preencheu o quarto, mas a menina não lembrava-se de tê-lo soltado, ela ouviu um titiritar de dentes e novo ranger na madeira. Apertou a mão de seu ursinho, torcendo para não ser aquela a mão de seu algoz.
Teddy sorriu e Estella se pôs a rezar.
Afinal, monstros não existem.
Tuesday, March 13, 2007
O Tempo.
Os ponteiros completavam voltas e mais voltas no relógio - e o que isso significava? Tempo era um remédio que se potencializava em combinação com o psicológico.
Dias viravam noites, que viravam novos dias e assim seguiam meses, eras, anos.
Ela esperava e esperava, e o próprio tempo parecia ser a única ferida que não curava.
Monday, March 12, 2007
Tropélia Aquarius.
Tinha um sorriso de primavera no rosto ao pisar no chão, leve feito uma pluma, tomando banho como se precisasse. A mente dela precisava de tradução em palavras e ela estava tentando se organizar. É como se o invisível, naquela manhã especial de outono, saltasse aos olhos.
Era tão certo como a Lua e as Estrelas que estava apaixonada, perdidamente apaixonada. Seu coração suspirava, não sabia ao certo por quem.
Os pássaros cantavam, as coisas pareciam certas e renovadas como no começo de uma nova era, tudo parecia estar no seu lugar, encaixado - e o que não estava, era questão de tempo até estar.
Parecia apaixonada pela vida.
Saturday, February 24, 2007
Andando.
Olhou para cima, era noite já fazia tempo demais e ela deveria estar em casa.
A lua no céu estava pela metade, incompleta, vazia. Iluminava ao seu redor de forma estranha, e ela notou algo muito bizarro em sua sombra. Era como se longos e finos dedos sombrios se esticassem para apanhá-la e nunca mais soltar.
Ela sentiu medo e baixou os olhos, apertando a mochila preta contra o corpo e torcendo para chegar em casa. Às vezes, se sentia filha da Lua, por nenhum motivo especial e temia por ela. A rua estava semi-deserta e para se distrair ela voltou a pensar em seu dia.
Não vira suas amigas. Vira suas conhecidas, que, acabaram se tornando quase amigas no fim do dia, cansadas de jogar e tomar sol na cabeça. Pessoas que ela não curtia muito, pessoas que ela ia aprendendo a talvez, conviver....até gostar. Quem sabe?
Pensou no segundo grupo de amigos que vira no dia e se perguntou se fora só uma impressão de estar fora. Gostara de revê-los, às vezes sentia falta disso. Às vezes, quase sempre, sempre. Seu namorado estava com ela e a acompanhou parte do caminho. Nesse momento ela até sorriu.
O barulho de uma bicicleta passando a toda velocidade a sobressaltou, fazendo-a lembrar de onde estava. Olhou novamente para o céu, e os dois dedos longos já eram três, pareciam chegar cada vez mais perto.
Se sentiu impotente por não poder fazer nada e cantarolou uma canção para si e a rua vazia. Não sabia o que era, era só uma melodia animada, que em outro espírito teria feito o fogo crescer e animar a caminhada.
Com ela, parecia quase indiferente. Passou um rapaz com os cabelos cortados rentes curtos e pulou quando sentiu sua mão no ombro dela, chamando seu nome.
- Ahmad!
Ele sorriu ao vê-la reconhecê-lo e pular em seu pescoço. Fazia tempo que não via a menina com quem conversava vários intervalos de aulas. Ela sorriu, ele ainda tinha o mesmo óculos e sorria do mesmo jeito.
- Para onde você vai, hein, moço?
- Para casa, moro logo mais nessa rua. - ele respondeu, apontando uma casa ao longe.
- Vou te acompanhar, moro um pouco mais adiante.
Ambos estavam felizes de terem se visto. Havia tanto tempo, e eles ainda eram iguais, ou quase. Que estranho, ela pensava, encontrá-lo justo hoje. Entretanto, era uma companhia numa noite tão escura e bizarra.
Ele ainda exalava o mesmo perfume arabesco, exótico, de especiarias. Chegava a ser tentador, era algo como "experimente-me.conheça-me.". Conversaram sobre os planos dele para faculdade. Ele soava tão carente, tão triste.
Era uma sorte para ambos terem companhia naquela noite e quando se despediram, foi com um abraço forte, de agradecimento. Hoje tinha sido um dia de amigos, por mais diferentes que fossem.
Ao entrar no prédio, ela lançou um último olhar para a Lua. Os dedos já não a envoltavam mais, ela reinava soberana no céu sem estrelas. A menina se sentiu abraçada, acalorada e, sorrindo, entrou no elevador, para esquecer e lembrar o dia que ela nunca gostaria de ter tido.
Saturday, February 17, 2007
Lar.
" Home...Home again.
I like to be here, when I can.
When I come home, cold and tired.
It's good to warm my bones besides the fire.
Far away, across the field, the toiling of the Iron Bell, calls the faithful to their knees, to hear the softly spoken magic spells."
- Time - Pink Floyd.
Então, ele decidiu ficar na vila.
Afinal, Ian de Canterville não tinha nada a perder. A casa onde morara sua mãe e sua irmã estava abandonada, ninguém ia se importar muito se ele a ocupasse por uns tempos, ainda mais sendo filho da última moradora.
Não tinha mais para onde ir, também. Sua existência até o momento se resumira numa busca que resultara num fracasso quase completo. O máximo que poderia fazer por ali era colher informações com os mais velhos, sobre quem teria sido sua família. Poderia descobrir coisas interessantes, quem sabe, até nomes de outros parentes a quem buscar ou mesmo um objetivo de vida. Era moço estudado, formado em uma faculdade renomada de medicina, poderia ser útil para alguma coisa- o velho doutor Paracelsius já estava à beira da cova mesmo.
Violet cuidara de seu ferimento com tanta meticulosidade que ele já nem sentia mais doer. A moça, depois de saber de suas origens e ambições, passara a tratar-lhe com muito mais simpatia. Até se oferecera para interceder junto ao prefeito quando fizesse oficialmente o pedido de 'apossar-se' da casa.
Ela era realmente bonita, Ian não tinha a menor dúvida. Deveria estar com o casamento marcado a essa altura. Segundo o que ela lhe contara do lugar, da sua família e sobre si mesma, tal possibilidade era extremamente real.
Que lugarzinho mais exótico que ele fora se instalar. Leeland ficava no sopé da montanha e parecia uma daquelas típicas cidadezinhas paradas no tempo. As pessoas provavelmente seriam ou xenófobicas ou então, receptivas demais. Não as conhecia, não poderia julgar, mas sua experiência no íntimo o alertava para isso.
Teria que tentar ganhar sua simpatia, claro.
O relógio de pêndulo badalou algumas vezes e o sol estava se pondo quando ele considerou dormir um pouco. Fazia dias que não dormia direito e aquela tarde com certeza tinha sido agitada. Violet e aquele irmão dela, Oliver, haviam ficado o dia todo conversando com ele.
Que moleque interessante era o tal Oliver. Com quatorze anos, era mais vivo do que muito rapaz que encontrara em suas andanças, e olha que suas possibilidades de aprender a se virar tinham sido bem escassas. Era bem uma pena que ele não parecesse nem um pouco interessado em travar amizade. O que não era de todo culpável, afinal, eles haviam se conhecido brigando.
Tanta coisa havia sido vista aquele dia e ele mal tinha tido tempo de pensar na aparição que vira. Seu inconsciente dizia que era sua irmã, mas como poderia ter tanta certeza? Era um assunto a ser matutado durante horas e horas, naquele tempo longo entre 'deitar-se na cama' e 'dormir'. Gostaria de chegar numa resposta, mas, àquela altura do campeonato, não tinha pressa.
Estava prestes a começar uma pequena vidinha calma, para variar. Só por uns tempos. Até decidir o próximo passo, de novo, a Casa da Montanha, ele consideraria seu mais novo...lar.
Sunday, February 11, 2007
People Watcher
Usava camisa branca, social, e cabelo repartidamente arrumado com gel. Era bonito, de certa forma, o tipo ‘arrumadinho’ da vida. Tinha uma aparência preocupada, ficava consultando o relógio de pulso a cada dois minutos. O sinal vermelho o havia irritado e ele não conseguia ficar parado no mesmo lugar.
Estava calor, mesmo com o dia entre nuvens, o ar abafado não deixava as pessoas respirarem direito. Quando uma brisa ou outra soprava pela região, era tão quente que não servia em nada para aliviar o sofrimento dos transeuntes.
A menina na janela não o conhecia, e nem ele nunca a havia notado ali, sempre no seu posto de observação casualmente habitual. Ao seu lado, num caderninho, anotações eram feitas sem pressa, diferentemente de seus passos.
Pensava na vida dele. Quem seria? Tinha família, um emprego, o quê? Por que vestia-se com tanta elegância numa manhã de domingo?
Ela não poderia adivinhar os detalhes e nem queria. Era parte de sua alegria, esse descobrimento de uma vida. Então, ele era a bola da vez e a menina recolheu-se para criar uma biografia de alguém que ao mesmo tempo via-se e nunca existiria.
Era mais um para o hall.
Friday, February 09, 2007
Encontros e Desencontros

Ian tapou-a pela boca, largando segundos depois e parando pra pensar em um instante sobre quem poderia ser, confuso talvez pela imagem de sua irmã. O que deu tempo a Violet colocar-se em posição de defesa, parecendo uma fada acuada, mas, ao mesmo tempo, pronta para atacar, se fosse preciso.
Ele tinha uma expressão de dúvida quando ousou balbuciar um:
- Quem...é...você?
A moça olhou-o de cima abaixo, fazendo uma avaliação completa de seu estado. Não parecia um invasor, mendigo ou alguém que fosse machucá-la: parecia estar muito mais perdido e confuso do que qualquer outra coisa.
- EU é quem pergunto! - ela respondeu, com o jeito protetor - Essa casa está abandonada há anos, isso é invasão de propriedade!
- Se está abandonada há anos, o governo diz que eu posso tomar posse. - ele respondeu, cruzando os braços e a analisando. Parecia morar na vila. Será que tinha dado sinais de sua estadia aos moradores? - Mas não se preocupe, senhorita, eu não pretendo me demorar muito aqui. O suficiente pra recuperar minhas forças.
- Hm... - ela ponderou por um instante, não sabendo como responder para o forasteiro. - O prefeito Leeland não vai gostar disso, acho eu, mas não vou julgar uma questão que não me cabe.
Eles pararam por alguns momentos, olhando um para o outro, como se procurassem se entender. Ele, descabelado, eufórico, confuso, encarava uma senhorita cujo suor molhara levemente a capa violeta, os olhos pareciam ferinos, tão diferentes, tão mágicos, e estava apta tanto pra atacar quanto pra se defender. Era lindíssima, que olhos alilasados eram aqueles? A ela, todo estrangeiro parecia um personagem de seus romances e, não é que aquele lembrava um lobo solitário que andara povoando seus sonhos recentemente?
Oliver Beetleheart, por outro lado, em nada lembrava um lobo: sua corrida parecia querer alcançar a velocidade de um cheetah enveredando os caminhos na direção de onde ele supunha ter ouvido o grito. Ele conhecia aquele grito. Ele tinha certeza. Era sua irmã.
Os minutos passaram-se como segundos enqunato ele arfava por entre o mato e chegava na frente do casebre do topo da montanha. Mal viu sua irmã, semi envolta na sua capa lilás e aquele desconhecido, seus olhos ficaram vermelhos de raiva e ele não mediu forças ao se jogar com tudo para cima do homem que supostamente ameaçava a integridade dela.- Sai, moleque! - Ian gritou ao ser pego totalmente de surpresa por uma figurinha atacarracada que saira de trás dos arbustos e casa.
Violet ficou sem ação apenas nos primeiros segundos da confusão. Enquanto o recém-conhecido lutava para se desvencilhar do seu irmão mais novo, ela soltou outro grito, desta vez, com um comando na voz.
- MANO, CHEGA!
E quando Oliver finalmente entendeu que era para parar, sua camisa estava respingada de sangue, que escorria também do nariz do outro.
- Quem...é...ele? - perguntou entredentes para sua irmã, enquanto dividia-se entre olhar para o infeliz caído no chão e abraçar Violet.
- Eu estava tentando descobrir isso quando você o atacou como um animal desesperado. - ela respondeu, olhando feio para ele. - Pode se levantar?
Ian não disse nada e sentou-se no chão, estancando como podia o sangue, com as mãos.
- Se você nos deixar entrar na casa, podemos tentar fazer um curativo nisso aí, está bem feio. - disse a moça, enquanto o ajudava a levantar - E aí, quem sabe, você pode nos contar quem é.
Ele não protestou enquanto cambaleava para dentro do pequeno cômodo e jogava-se no sofá. Não era de todo mal estar sendo cuidado por mãos tão delicadas, apesar de que minutos atrás estavam a ponto de matarem um ao outro. Sua vida era cheio dessas surpresas e inconstâncias mesmo.
O rapazote que o derrubara estava observando, pasmo, a irmã. Nunca ela havia agido assim - e como poderia ter tanta certeza de que aquele intruso não seria um malefício para a vila?
"Bom", pensou ele dando de ombros, um pouco chateado. "Pelo menos, não era um fantasma."
E ele não sabia se devia se alegrar ou entrar em depressão.
Tuesday, February 06, 2007
Euforia.
Ao seu redor, havia felicidade, uma felicidade incompleta, dos acomodados na vida que 'Deus' lhes dera. Ela queria crescer, ela queria aprender, queria se tornar grande, completa, lutar pelo todos e não pelo eu. Queria se sentir útil, e não mais um fardo pra sociedade.
Participar de um protesto, quebrar uma regra, brigar por algo que valesse a pena, curtir um fim de tarde, panfletar, discursar, agir, voluntariar. Todos os pensamentos passavam pela cabeça dela - ou talvez, só estivesse com sono.
Seu cérebro fervia, queria uma conversa interessante, queria uma discussão, por em prática suas teorias, mostrar suas dúvidas. Ler, escrever um texto acadêmico e impressionar, ser impressionada.
Respirou fundo, estava sem ar, crise novamente. Queria ensinar algo para alguém, pesquisar sobre algo interessante, fazer algo que mudasse o mundo. Tantas vontades, tão pouco tempo, o vento da mudança soprava na sua janela.
E ele parecia sussurrar: "Yeah, I do know the way to Santa Fe...."
Sunday, February 04, 2007
Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou.
Ele era o homem mais engraçado do mundo.
O mundo era coberto por um céu azul.
Como o que ela olhava toda noite em sua mente antes de dormir.
Antes de pensar nele, antes de acordar no dia seguinte...
E tentar lembrar qual sonho, para poder acalentar na memória durante os momentos difíceis do dia.
Sonho ela guardava debaixo da pestana, pra poder ver quando fechasse os olhos em cada instante.
A cada instante que ela fechava os olhos ela via o rosto dele.
Quando via o rosto dele, ela sorria, um sorriso bonito e puro.
Como o amor que ela procurava, como o amor que ela tinha.
Era bonito e esvoaçado como borboletas.
Poderia durar pra sempre, poderia ser eterno enquanto durasse.
Porque quando ela fechasse os olhos, ela sonharia com ele.
E quando sonhasse com ele, lembraria do sonho pra aguentar o dia-dia.
Fechando os olhos, em cada piscadela.
Ela o amaria pra sempre.
Tuesday, January 30, 2007
Stardust
Sunday, January 28, 2007
Perdão.
Pensou um pouco no que aconteceu com ela no último ano, tantas coisas boas e incríveis... o que, claro, não apagava a mancha de vergonha que se formara no seu peito. Uma coisa boa não anula uma ruim, salvo em alguns casos, mas ainda assim, ela se sentia um pouco oprimida pela lembrança.
Se comportara como uma perfeita imbecil, admitia para si mesma e agora, sua mente não a deixava descansar. 'Menina estúpida' , dizia para si, com um tom ácido na voz 'E agora, que você vai fazer?'.
Desculpar-me e desculpar-se.
Sorriu e pensou no amanhã.
Saturday, January 27, 2007
Sis.
Amanhecia quando ele decidiu ficar um tempo ali na casa. O que tinha a perder? Ian não devia nada a ninguém e no fim das contas, estava cansado e frustrado. Pelo menos, poderia passar um tempo com as suas memórias, fantasias e meditar sobre o próximo passo.Tirou os lençóis do lugar e descobriu os móveis que não escaparam das traças. A cama ainda parecia intacta, o que o levou a arriscar deitar sobre ela. Ouvia Betto relinchar do lado de fora alegremente do lado de fora e aquilo dava-lhe certa paz de espírito.
Tentara, apesar de tudo, tentara. Olhou para a sala ao seu redor e tocou num velho piano de madeira, simples, que ocupava boa parte do espaço. Perguntou-se se sua irmã sabia tocar - ele arranhava algumas músicas simples, afinal. Dedilhou algumas teclas e imaginou-a descobrindo a magia da música, tocando para esquecer que iria morrer, e ouvindo respostas nos acordes mais suaves.
Estava devaneando. A verdade é que não fazia idéia de como tinha sido a vida das duas pessoas que lhe eram tão caras, mesmo nunca tendo as conhecido. Estranho ou não, os sentimentos de Ian não deixavam esquecer que lhe fora arrancada uma parte de sua história e ele estava correndo para recuperá-la em tempo.
Recostou-se na poltrona pensativo. A sala era bonita e a claridade da manhã a deixava com outros ares, menos lúgubres do que os que lá estavam quando ele chegara. Poderia ter sido feliz ali, tinha certeza que sim. Ouviria risos, músicas e histórias de sua mãe. Cozinharia para elas - era sua especialidade, tinha a mão certa para doces.
Ela sorriu para ele, mas o rapaz não se assustou com a sua presença. Tinha olhos opacos e misteriosos, um nariz arrebitado - como o dele - e um sorriso branco feito neve, como sua pele. Era bonita e imponente, talvez, por isso, inspirasse um respeito temeroso.
Abriu os braços finos como gravetos e Ian sentiu o calor crescer dentro do peito.
- Lu...sis...?
Ela acenou e piscou com um olhar. O vento soprou forte e invadiu a janela da sala do casebre, fazendo vibrar as cortinas. Então, como num passe de mágica, ela foi-se com ele.
Ian levantou-se com rapidez da poltrona estofada. Tinha realmente visto sua irmã?! Seu sorriso abriu-se de ponta a ponta e dúvidas mil surgiram em sua mente. O que havia sido aquilo? Não teria sonhado? Estava cansado, fora tudo um truque. Ou talvez não?
Correu até a porta e, ao abrir, deu de cara com uma moça de cabelos revoltos, envolta numa capa lilás.
Violet Beetleheart gritou.
Tuesday, January 23, 2007
...eram uma família perfeitamente normal, nem mesmo ela era tão diferente do comum assim. Mesmo que a vila a considerasse um pouquinho excêntrica, talvez por ter uma beleza estonteante, talvez por sua estranha mania de leitura, nem ela estava tão bizarra na paisagem interiorana que era o lugar.Violet Beetleheart só não era uma rosa entre arbustos porque seu nome não lhe permitia. Tinha um sorriso lindo de lábios torneados, mas o que encantava mesmo era o seu olhar. Era delicadamente decidida, com dedos de pianista que trabalhavam com sutileza em qualquer coisa que tocassem.
Era prendada moça do campo e naquela vila não havia um só rapaz que não quisesse se casar com ela. O que, definitivamente, não estava nos seus planos e, se dependesse de seu irmão mais novo, Oliver, ela morreria virgem e santificada.
Sua mãe nunca gostara muito do jeito com que ela encarava a vida. Parecia uma fada que estava ali só de passagem e isso não agradava mesmo ao jeito prático com que Lily Beetleheart levava as coisas. Acreditava que já era hora da sua menina arranjar um pretendente do seu gosto - e eles não paravam de bater a sua porta, ora essa - e largar essa sua pretensa bobagem romântica com que ela lhe enchia os ouvidos.
Arthur não desgostava de todo de sua pequena primogênita. Era como se assim ela nunca precisasse de cuidados maiores com todo aquele nervosismo em torno de homens e continuaria sendo sua pura filhinha para sempre. Homens são muito mais práticos nesse sentido.
Oliver e Violet eram como água e vinho, cada um ao seu modo e que se amavam intensamente. Os irmãos eram muito próximos e o rapaz poderia matar qualquer um dos caras que aparecessem pedindo a mão de SUA irmã. SUA e só SUA, ele abriria mão dela apenas para o homem que ela escolhesse e, claro, ele julgasse digno e aceitável.
Portanto, não era de se estranhar que a moça estivesse preocupada com o paradeiro de seu protetor. Afinal, para onde iria ele, por que? Logo ele, que tinha o costume de ser o primeiro a jantar e deitar cedo? Uma ruga de preocupação surgia em sua testa toda vez que pensava que fazia mais de dez horas que não o via.
A rede de informação das mulheres da vila não acusava a falta de nenhuma outra jovem donzela nas suas casas. O que mais explicaria a ausência do rapaz? O sol já ia alto na manhã seguinte quando ela decidiu vestir sua capa lilás e ir atrás dele.
Restava agora saber onde ela iria chegar. Olhou a Casa da Montanha. Era um longo caminho até lá, mas, Violet tinha certeza de que agora, era mais importante encontrar seu irmão do que se preocupar o quanto cansariam seus pés na estrada.
Preocuparia-se com as bolhas depois.
Sunday, January 21, 2007
E...
That was really the mind's true liberation.
Let the Age of Aquarius begin.
Dignidade.
Tinha olhos pretos, cabelo liso comprido e era esguia, branquela, uma verdadeira autêntica boneca. Arrastava a menininha para todo canto consigo, trazendo-a junto ao peito a cada instante.
Sentaram-se na frente do espelho do armário, pernas cruzadas como as de um índio. Deveria ter algo em torno de treze anos, e seu corpo começava a despontar os sinais da puberdade: era linda, uma pequena mulher.
Que ainda brincava de boneca.
Tocou uma mecha do cabelo com a ponta dos dedos. Tinha várias dúvidas e elas marcavam seu rosto infantil com uma seriedade fora de tom. Não sorria, e acariciou o cabelo de sua boneca. Aprendera que confiar nela, e consequentemente, em si mesma, era muito mais importante.
Ao menos, ela não riria de suas próprias dúvidas, medos, desesperos e entenderia seus próprios motivos. Cansara de escutar que era só uma fase, cansara de ouvir que as coisas iam passar, e que ela era muito pequena e cheia de mimos e birras para entender qualquer frase um pouco mais complexa.
E olhou-se no espelho.
Will I lose my dignity?
Will someone care?
Will I wake tomorrow from this nightmare?
Saturday, January 20, 2007
Garoto.
Ele realmente achou que seria mais fácil, quando olhou o caminho a ser percorrido. Do conforto da sua vila, a distância até a casa no topo da montanha parecia bem mais fácil de ser coberta. Também, ele decidira não ir pelo campo aberto ou os fantasmas e cavalos selvagens o veriam, o que não tornaria sua viagem mais prazerosa ou simples.Oliver Beetleheart começava a sentir no peito uma pontada de arrependimento. Pegara a estradinha de pedra, o que significava pelo menos um dia e meio de caminhada. Fazia anos que não via ninguém passando por ali, e sua mente não se preparara para o tipo de eventualidade menos espiritual e mais material: suas provisões não eram lá grande coisa.
Rezava para chegar logo.
Não sabia se era a mata que crescera descontroladamente nas últimas décadas ou se ela sempre existira, mas o fato é que ali estava, e as pedras, desgastadas, começavam a não indicar muito bem o caminho que ele deveria seguir.
Sorriu, ao ver-se perdido tão perto e longe de casa. Não era do tipo de garoto que se desesperava diante da primeira dificuldade, até achava divertido: teria algo para contar aos outros quando regressasse à vila. Quem sabe, pudesse até contar como ele derrotara um lobo sozinho armado apenas com uma faca de cortar carne que surrupiara da cozinha de sua mãe. Quem sabe?
Pensou na vila. Não havia avisado ninguém que sairia, era capaz que todos ficassem preocupados. Ou não. Como se fosse raro sumir um moleque que não retornasse ao anoitecer. Talvez eles só ficassem um pouco bravos com seu retorno tardio. Talvez indagassem o que ele fora fazer tão longe, e uma cintada de seu pai ele com certeza receberia: desobedecera claramente suas ordens.
Olhou para o céu ainda escuro onde o sol ainda não dava sinal nenhum de despontar, mesmo que já passasse das quatro e meia. Era bom que ele se mexesse logo, ou quando chegasse na casa, os fantasmas já teriam ido embora e ele teria que esperar por uma nova noite.
Uma pontada de receio cresceu em seu peito, mas Oliver Beetleheart não estava acostumado com ela e então, ignorando-a solenemente, partiu.
Thursday, January 18, 2007
Das forças que nos empurram morro acima ou desfiladeiro abaixo.

A Casa da Montanha.

A casa estava abandonada havia anos. Décadas, até, ou era o que o povo do vilarejo ousava arriscar. Ficava no lugar mais afastado, entre as montanhas e perto de um razoável desfiladeiro que dava para um lago azul cristalino.
Fora construído havia pelo menos cinquenta anos, e os donos, um casal de velhinhos com muito dinheiro de aposentado, não viveram muito para desfrutar do conforto do que haviam construído. Não era um lugar grande, mas era ajeitado: uma passarela de pedra atravessava uma parte do desfiladeiro e levava até uma pequena cidadezinha, distante, mais ou menos, um dia de caminhada.
Sua graça mesmo, era o estábulo que ficava ao lado. Um longo pasto se estendia por um bom tempo, com uma inclinação boa para se criar cavalos, e terminava com uma vilazinha ao seu pé. Sempre poderia se ver umas crianças brincando por ali, e, na falta de pessoas que domassem os cavalos, era sempre uma aventura perigosa que elas adoravam participar.
Os velhinhos eram muito simpáticos, e, para os bravos que aguentassem a subida, sempre os aguardava um belo lanche com direito a várias coisas que normalmente não se viam nas casas comuns do lugarejo. Muitos senhores de idade hoje, ainda se lembravam com saudade dos doces que aquela senhora cozinhava com tanto carinho.
Hoje, era só uma casa abandonada e, ainda que bem conservada, causava arrepio. Dizia-se que em certas noites de lua cheia, uivos poderiam ser ouvidos vindo daquela direção, e a casa sempre parecia que cairia com um temporal forte.
A população local instruia seus filhos a não seguirem o exemplo dos pais e nunca subir montanha acima para visitar o começo do estábulo e o casebre. A estrada de pedra estava desgastando pelo desuso constantes, já havia o quê, vinte e tantos anos que ninguém morava lá?
Depois dos Thompsons, que eram como se chamavam os dois velhinhos, ainda passaram por lá mais duas famílias: uma, rica, que usava como casa de campo, logo a vendeu quando em outro lugar privilegiado surgiu uma casa maior, mais legal, e mais ostentosa para se obter.
A outra família, composta apenas de mãe e filha, pouco viveu no lugar. Ambas estavam doentes, mortalmente doentes. Eram muito bonitas, mas absurdamente solitárias e tristes - o que não era de se espantar: como conviver com o fato de que você está prestes a morrer?
Depois disso, a casa esteve vazia. Ou não, se forem contar com os fantasmas que atribuia-se morada por lá. Em termos de carne e osso, no entanto, a casa saia perdendo.
Então, quando Oliver Beetleheart olhou para o ponto distante da janela da sua casa e viu uma luz por lá, não era de todo estranho que se assustasse. Primeiro, do alto de seus quatorze anos, pensou nos fantasmas que poderiam viver por lá. Mas logo lembrou-se de que eles gostavam do escuro: pra que haveriam de acender velas como pareciam ser a fonte da luz bruxuleante?
Puxou o pai pela mão e o trouxe para fora de casa, dizendo "Olha pai, olha lá!", e apontando. O Sr. Beetleheart, que muito frequentara a casa durante a infância, tomou um susto ao, não só ver luz na cozinha do lugar, como ouvir um relinchar de cavalo.
Apertou a mão do filho e disse em alto e bom som que o proibia de ir até lá. Sabe lá Deus o que os fantasmas das duas moças poderiam estar fazendo, e mais!, pelo jeito, ainda existiam cavalos não domados pela região, era perigoso.
Oliver sorriu e não prometeu nada ao pai, pois era um garoto de palavra.
Mas que sua curiosidade fora atiçada por aquele quadro bizarro... ah, fora. Pela primeira vez, então, ele não planejava sufocá-la.
Wednesday, January 17, 2007
Caminhar.
Sentiu-se frustrada consigo mesma e brava por não ter nada a pensar. Estava tão empolgada e sabia que se nem quando estava feliz poderia escrever algo que realmente prestasse, estando triste as chances eram ainda menores.
As palavras de todos ao seu redor ecoavam ainda na cabeça dela, e o veneno destilado com tanta piedade começava a fazer efeito só agora, dias depois, mas já tinha conseguido abater parte do sorriso que ela ainda se esforçava em manter durante os últimos tempos.
Abraçou-se com força e sentiu-se confortada. Ainda sentia o calor do que restava de Anna em seu corpo. Bastava.
Levantou-se do lugar e com as próprias pernas foi caminhando até o horizonte.
Tuesday, January 16, 2007
Memórias.
O jardim, guardado por um grande portão de ferro que rangia muito, e cuidado por Sr. Alfonso, um velho mexicano manco, que, apesar de tudo, fazia seu trabalho muito melhor do que qualquer rapazote de dezoito anos metido a sabido.
- Boa tarde, senhorita. Há muito tempo que não vêm para cá visitar, seu avô estava ficando já preocupado. - ele comentou, respeitosamente ao vê-la passar.
- Boa tarde, Felipe! - ela respondeu animadamente, a despeito do fato que ele falava como seu avô, Alberto, falecido há sete anos, ainda estivesse vivo. - Realmente, estava na hora de vir.
No hall, ainda havia o cabideiro para casacos e chapéus dos visitantes, ao lado, de um lugar para colocar guarda-chuvas. A mesa da primeira sala continuava impecavelmente brilhante como nos tempos de que Maria, avó dela, ainda era viva e comandava a criadagem com mão de ferro.
Subiu as escadarias, o resto do espólio poderia ser dividido como fosse entre seus primos, desde que ela o tivesse. O quarto dos antigos donos era decorado com temas que lembrassem a antiga pátria de seus habitantes.
Abriu a gaveta do criado-mudo com avidez. Lá, uma caixinha de ébano a aguardava, misteriosa como da primeira vez que tivera contato com ela, há quase dezoito anos. Pegou-a e encostou no rosto, sentindo-a fria contra a pele. Retirou a tampa e encarou o conteúdo:
Um baralho e um pedaço de papel.
"Para você, pequena que eu sabia que viria. Faça bom uso, como sua avó lhe ensinou."
O Enforcado sorria para ela.
Sunday, January 14, 2007
Escolhas.
O apartamento é úmido, velho e cheira a mofo. A pintura da parede está descascada, e tem desenhos de crianças que facilmente passam por rabiscos rupestres. Fico entre as duas ruas mais estranhas dessa cidade tosca que escolhi para morar.
Meus vizinhos são drogados que se metem todo dia com um bando de gente barra-pesada. Uma das moças está grávida de novo, e o cachorro do apê da frente late dia e noite como um condenado. O infeliz dono teve o condão de envenenar "sem querer" justo o vira-lata que não emitia um ruído e deixar viver essa coisa estranha que anima minhas noites.
Na casa do outro lado da rua, que eu pensava ser desabitada, um bando de 'satanistas' resolveu se instalar e fazer um terreiro de macumba. Toda noite, eu vejo fogo e pela manhã, sempre encontramos garrafas de aguardente barata quebradas.
Meu companheiro de república é tão desajustado quanto eu. Ambos odiamos nossa faculdade, e nos dedicamos a projetos paralelos que não rendem um puto. Ele, escreve, num país onde tão pouco se lê. Eu, tento arranhar algumas cordas do violão, e, quem sabe, faturar uns trocos.
- Alô, querido!?
- Mãe....?
- BEBÊ! Quanto tempo, que saudade! Como você está?
- Ahn...
- Ah, que bom, querido! Sabe que a Marisinha se casou na semana passada? É uma pena que não deu tempo de te avisar, mas também, você morando tão longe da gente, duvido qu o convite chegasse logo! Ela está grávida - e a Luísa disse que foi por isso que ela se casou tão rápido. Mas não que eu me importe claro, até porque a Luísa tem se mostrado uma fofoqueira invejosa, e além do quê, aos vinte e seis anos, passou da idade de casar, né?
- Mãe...
- Então, eu realmente gosto da Marisinha e o marido dela, é um rapaz muito direito! Imagine que ele é médico de família, não é realmente bom? Bem que eu disse pra você seguir medicina, querido! Claro, não acho que o que você resolveu fazer, como é Marketing, não?, seja ruim, pelo contrário. Mas Medicina... AAAH, sabe quem voltou para a cidade...? A Felícia, aquela ruivinha de quem você gostava!
- Mãe, eu não gostava da Felícia, ela é lésbica.
- Mas você pode ser o rapaz que vai corrigí-la! Seu pai disse que é só uma fase e que isso passa. Quem sabe quando você voltar pra casa...?
(....)
Ao desligar o fone, eu me lembro exatamente o porquê.
Friday, January 12, 2007
Rent. =)
Tinha dezessete anos quando participou de seu primeiro protesto realmente grande. Era uma época difícil, depois de quase cinquenta anos de relativa democracia, eles haviam novamente tomado o poder do país. Não só da sua terra, mas como as de várias pessoas estavam sendo subjugadas. Porém como a imprensa estava sob forte censura, as notícias demoravam a chegar- sempre pelos meios mais escusos.
A cidade era portuária, os navios do Império iriam aportar naquela noite, quando ela e mais um grupo de quase trezentas pessoas invadiram o lugar e destruiram as estruturas. Fora uma atitude às escuras, mas dessa vez, aos vinte e três anos, iria fazer parte de uma manifestação grande, organizada, pública.
Esperou na praça. As pessoas apareciam como quem não queriam nada, e iam tirando de suas mochilas todos aqueles apetrechos, como cartazes, placas e tinta. Ninguém ali tinha vivido tempo suficiente para ter participado de outro protesto de outra época. Estavam todos aprendendo, mas a garra que tinham compensava sua falta de experiência.
Sorria, enquanto passava as cores da sua antiga pátria no rosto, e começava a entoar os gritos que dali a meia hora encheriam as cinco principais avenidas da capital daquele Monstruoso Império. Jovens, velhos, crianças, revolucionários e curiosos de todos os lugares apareciam para se juntar ao coro de quase milhão de vozes que pediam, clamavam, exigiam os seus direitos cumpridos.
Uma menina de óculos pichou um símbolo de Anarquia no muro, mas logo, as pessoas apagaram. Não estavam brigando por partidos, não estavam brigando por ideologias.
Estavam brigando por pessoas.
Pelo direito à Humanidade.
Tuesday, January 09, 2007
Dream Collector... I.
O velho de óculos meia-lua lançou um olhar para a jovem de cabelos castanhos ondulados que pé-ante-pé, procurava chegar no balcão, observando com calma os penduricalhos e aquele telescópio que ele montara perto da vitrine. Coçou seus cabelos grisalhos que caiam sobre a testa. Ela era bonita. Que iria querer?
A menina encostou na mesa de vidro que ele ficava atrás. Tinha uma mochila preta presa nas costas, e sentiu que o senhor a encarava bondosamente.
- Posso ajudá-la, senhorita? - ele perguntou com a voz rouca de seus quase setenta anos.
Ela abriu o zíper da bolsa, tirando de dentro, um caderno. Vermelho, de capa dura, aveludado. Em letras bonitas, num pedaço branco, estava o nome dela.
- Anna, é seu nome? - ele perguntou com um sorriso de dentes até que bem firmes.
- Anna. - ela respondeu, sorrindo também, timidamente. - Olha...
E abriu seus cadernos. Entre escritos,cartões postais, estavam selos. Um selo por página. Selos lindos, bem feitos, de vários lugares distintos.
- Você...digo, o senhor... não teria selos, coisas assim, sabe, pra vender pra mim..? - ela perguntou, apontando para o que estava no caderno aberto.
- Pode me chamar de você, senhorita Anna. "Senhor" faz com que eu me sinta muito velho. - ele respondeu, piscando um olho, divertido. - Ou, talvez, só de Paul.
- Hm.. - ela sorriu - está bem, Paul.
- Então coleciona selos, é? Há muito tempo que não vejo coleções assim. Os jovens de hoje não estão interessados nesse tipo de coisa.
- É uma das minhas paixões. Era da minha mãe, sabe? - Anna disse, fazendo brilhar os olhos castanho esverdeados dela.
- Sua mãe deve ser uma pessoa muito interessante.
- Era. Ela morreu há alguns anos... - comentou ela, passando os dedos levemente entre as páginas já amareladas do caderno.
Paul calou-se por um momento. Não gostava de tocar em assuntos assim. Nessas horas, sentia o aperto do coração já cansado e o sopro de vento que teimava em não entrar em seus pulmões.
- Eu sinto, querida...
- Está tudo bem, já faz tempo. E os selos?
- Devo dizer-lhe que aqui embaixo, não tenho nada que possa te interessar. Mas, quem sabe, se você voltar amanhã, eu tenha tempo de vasculhar minhas gavetas no andar de cima, e então, poderíamos tomar um chá e conversar...
- Obrigada, senhor...Paul! - ela disse em tom animado - Eu realmente gostaria de completar esse caderno com os selos de cada país.
- Era o que sua mãe iria querer, não?
- Não. É o que eu quero.
E com essas palavras e um toque nas mãos idosas e quebradiças dele, ela deixou a loja, não sem antes guardar, com todo cuidado, o seu caderno de veludo vermelho, bem mais leve do que quando entrara.
Enter Rain...
A casa estava uma bagunça total, quando entraram, ela não se preocupou em deixar as coisas mais apresentáveis. Estava preocupada, ele podia discernir pela ruga de preocupação em sua testa. Não havia sorriso em seu rosto, estava uma face de inquisidora em seu lugar.
Fuçava debaixo das cobertas reviradas, tirava gavetas do lugar e não se preocupava em recolocá-las. Era como se faltasse um pedaço de sua alma, agoniada que estava com sua busca. Tinha as mãos tremendo, e as pernas bambeando. Ele não sabia porque estava ali, era como se ela apenas precisasse se certificar de que não desapareceria de repente.
Começou a suar, mas não parecia mais nervosa. Havia uma agitação, e ela parecia cada vez mais próxima do que queria. Agarrou a mão dele. Debaixo do travesseiro, quase caído atrás de uma cama, achou o caderno que procurava. Era seu tesouro.
A febre principiou a baixar, o sorriso dela começou a reaparecer, como nuvens dando lugar ao sol, assim que ela abriu as páginas daquele velho caderno de capa dura vermelha.
Passou a mão deliciosamente pela lombada e olhou para o rapaz que estava com ela. Abraçou e agradeceu pela ajuda, mesmo que ele ainda se perguntasse porque de estar ali.
A chuva começou a cair do lado de fora da casa, e ela correu para tomar um pouco dela. Não durou muito tempo, mas, quando entrou de novo na casa, molhada da cabeça aos pés, decidiu que era hora, finalmente, de fazer uma faxina.

